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Desafio de Escrita

Tema#1 - Triptofano

19
Set19

Toc, toc, toc,

os tacões de Célia ecoavam furiosamente na rua semi-deserta banhada pela luz palidamente esverdeada da cruz da farmácia.

Toc, toc, toc,

mais cinco minutos e estaria oficialmente atrasada, e Célia nunca se atrasava para nada, por isso bateu ainda mais furiosamente com os tacões nas pedras da calçada enquanto alcançava a porta da farmácia.

Entrou de rompante mas nem isso pareceu despertar da sua letargia o homem com uma bata branca puída que se diria não trabalhar naquela loja de medicamentos mas sim fazer parte dela, numa estranha relação simbiótica entre carne e cimento.

Preciso de algo para tratar uma irritação dos grandes lábios. E não pode ser em pomada que fico toda pastosa! - pediu Célia assertivamente.

O homem, semi-cerrando os olhos, inclinou-se lentamente em direcção à cara dela.

Não é nesses lábios - exaltou-se Célia, ela que era uma mulher calma a não ser que estivesse atrasada - é nos de baixo! Veja!! - e mostrou uma foto dos seus lábios vaginais ao homem de bata branca.

A expressão dele não se alterou nem um milímetro, enquanto olhava a imagem pixelizada que Célia lhe mostrava.

Talvez fosse um verdadeiro profissional. Talvez já tivesse visto muitas conas na vida e aquela era apenas mais uma. Talvez nem percebesse que zona anatómica era aquela.

Depois de eternos segundos, o homem virou-se e alcançou um spray azul metalizado com a cara dum bebé anafado estampada.

Borrifa a zona duas a três vezes por dia até melhorar. - disse o homem da bata branca monocordicamente.

Ok, obrigado, posso usar a sua casa-de-banho? - perguntou Célia enquanto atirava uma nota para cima do balcão.

Lamento, mas está avariada.

Célia olhou em volta. Além deles apenas uma idosa encontrava-se a medir a tensão, apesar da máquina dizer fora de serviço.

Num gesto rápido subiu o vestido, baixou as cuecas e borrifou abundantemente a zona irritada com o spray metalizado, perante o olhar inexpressivo do homem.

Toc, toc, toc,

ainda estava a tempo, era apenas virar a esquina e chegaria a horas.

Alcançou num salto a campainha do prédio que ressoou na imensidão da vastidão da solidão.

Enquanto a porta vagarosamente abria-se, Célia consultou a agenda do telemóvel. Em hora e meia tinha que estar com outro cliente, no lado oposto da cidade.

Problemas, só problemas...e ela que antes pensava que a vida de puta era só facilidades...

 

Tema da semana: Problemas, só problemas

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