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Desafio de Escrita

Tema #8 José da Xã

02
Nov19

Fechou o livro, colocou-o ao lado, olhou o tecto e largou um profundo suspiro. Beatriz deitada no sofá deu conta e perguntou:

- Até onde foi esse suspiro?

O namorado não respondeu. Deixou-se ficar ali a cismar, numa lassidão incomum.

Na lareira ardia um fogo denso e crepitante que aquecia a sala. De um candeeiro vinha uma luz amarela quase tão quente quanto o lume. O ambiente propiciava ao sossego.

- Malquíades diz-me lá até onde foi esse suspiro? – teimou Beatriz.

Um silêncio. Por fim respondeu:

- Até a um tempo… longínquo!

Insistiu:

- Nunca falaste do teu passado, mas não é por não se falar, que ele deixou de existir. Sempre senti que há algo, aí nesse coração, mal resolvido…

Novo silêncio. As palavras eram sempre tiradas a ferros…

- O meu pai… Nunca conheci verdadeiramente o meu pai…

- Não queres falar disso agora?

- Não… - uma longa pausa - preferiria escrever… um dia!

Fez-se luz na mente de Beatriz. Talvez conseguisse que Malquíades escrevesse… Talvez! Ergueu-se do seu confortável poiso, foi à lareira, ajeitou o lume, aproximou-se finalmente do namorado, abraçou-o ternamente e sussurrou:

- Imagina que o teu pai sabia que iria morrer e antes disso escrevia-te uma carta. Ou dito de outra forma… escreve tu hoje uma carta ao menino que foste ontem…

A ideia, estranhamente, agradou a Malquíades. Saiu do seu lugar, foi à secretária e sacou do bloco. Regressou ao seu cadeirão e começou a escrever. Queimaram-se alguns quilos de lenha até que o bloco caiu nas mãos de Beatriz.

Esta pegou nele, desfolhou algumas páginas e leu:

“Meu filho,

Sei que estou longe, muito longe, mas acredites ou não, velarei sempre por ti.

Não tive culpa de não termos falado mais, brincado mais, ralhado mais. De nunca termos ido ao futebol, ao cinema ou simplesmente levar-te a uma festa de anos dos teus amigos.

Lamento profundamente este afastamento involuntário. A vida nem sempre é como gostaríamos.

Há algo ainda que me arrependo de nunca ter feito e se pudesse voltar atrás, crê-me, que o faria amiúde.

E parece tão simples, tão natural…

Bastava dizer: amo-te meu filho!

Algo que jamais proferi…

Desculpa e até um dia.

O teu pai.”

Lágrimas esvaíram em torrentes pela face bonita de Beatriz. Levantou-se, aproximou-se do namorado, cravou as mãos finas na face de Malquíades e beijou-o docemente. Declarou:

- Um dia serás um maravilhoso pai!

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

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