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Desafio de Escrita

Tema #3 - FatiaMor

01
Out19

“Não!” Quando recebi o convite para jantar, naquele dia, em casa daquela pessoa, disse que não. A minha vida estava fechada, as rotinas estavam perfeitamente definidas. Os caminhos entre-cruzavam-se para um determinado futuro, que parecia o único possível e o inevitável a seguir. Não queria saber de aventuras, mesmo que não fossem as minhas.

Alguém insistiu, e eu acedi.

A tarde era dos últimos dias de verão, com um vento morno que ameaçava arrefecer depressa e por isso precavi-me. Atei o cabelo de forma desmazelada, escondi as inseguranças num casaco fino e coloquei o ar antipático de “não me chateies”. Estava pronta para passar despercebida durante aquele café que antecedia o jantar.

Talvez o sol me tenha iluminado por breves segundos e tu engraçaste comigo. O teu ar despreocupado fez-me questionar, pela milionésima vez, por que raio tinha eu saído do meu casulo do “sei tudo e sei como isto vai acabar”. Alinhei-me com os astros para sorrir e parecer que entendia o que as palavras oblíquas tão rectamente declaravam. Beberam-se os cafés, compraram-se as prendas para a dona de casa que nos receberia e fizeram-se os últimos compromissos.

Eu voltei a casa com a sensação de que algo me tinha sido roubado; um desassossego apossava-se de mim. Há muito que a sensação do desconhecido não me ensombrava. Por vezes, acomodamo-nos à vida e à forma como nos toca, ao ponto de não lhe percebermos o pulsar.

Percebi que estava diferente e quis reconquistar-me no que me tinha sido roubado. Soltei o cabelo, pus a máscara da caça, transfigurei-me para a amazonas que sou. Seria um assalto só, ou estaria perdida. Coloquei o arco e as flechas nas costas, vi os mapas dos caminhos, e garanti que ficávamos lado-a-lado.

Conversámos o jantar todo, com a perfeita noção de que nada existia além de nós. E todos viram o novo caminho, muito antes de nós. Eu, já estava perdida, metida no meio da selva, com lama até aos joelhos e sem conseguir ver as estrelas que me guiassem para fora dali. Só tinha mesmo a tua mão, para me amparar. A guerra contra mim mesma, as minhas certezas e as minhas rotinas estavam irremediavelmente perdidas e tudo o que me tiraste levaste contigo, para me fazeres viver de novo.

Naquele dia, ao dizer que sim, comecei a maior aventura da minha vida. E ainda hoje penso… E se tivesse dito “não”?

 

Tema da semana: Uma aventura/momento que te tenha marcado

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