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Desafio de Escrita

Tema #1 - Maria Araújo

14
Set19

A carteira

Gonçalo recebera uma resposta positiva. Era um trabalho da sua área de formação, sentia um grande alívio, acabara o desespero da procura, das inúmeras entrevistas sem sucesso.

Sentou-se na esplanada do café, tirou do bolso do casaco a carteira de pele castanha, e o maço de cigarros.

Os pensamentos fluíram para o tempo da faculdade. Os primeiros anos correram bem, não atrasara uma cadeira... até conhecer a Margarida.

Tivera uns flirtes com duas ou três raparigas de curso, nada que o deixasse morrer de amores por alguma. Mas a Margarida depressa tomou conta do seu coração.

Foram meses de loucura dos jovens apaixonados, viveram o espírito efusivo dos estudantes como se o mundo acabasse amanhã, faziam o que lhes dava na gana, correram muitos riscos até ao dia que...

Como foi possível fazermos isso?! Que atrevimento! Que risco corremos!, comentou.

- O senhor toma alguma coisa?

- Sim, por favor. Um café.

Contara a Joana a sua paixão pela Margarida, ocultara as trapaças que fizera, o dinheiro extra que pedira aos pais, eles que tinham muitos problemas económicos, prescindiam do muito que poderiam ter e poupar para proporcionarem aos dois filhos um curso. E aquele acto deixara-o envergonhado de si próprio. Ultrapassara o limite.

Estava na hora de organizar a sua vida, seguir e respeitar o que os pais sempre lhe ensinaram: a honestidade e a gratidão.

Pararam em frente à montra da loja de roupa masculina:

- Linda carteira! Vais comprá-la?

- É linda, sim. E o preço? É cara, não posso gastar dinheiro e...

- Rouba-a!

- Roubá-la?! És doida! Nunca roubei nada...

- Então! Se não tens dinheiro, rouba-a.

- Roubar é crime, Margarida!

- Vá, arrisca. Quero ver do que és capaz.

Empurrando-o para dentro da loja, descontraidamente deram uma vista de olhos à colecção, pegaram um casaco, passaram no balcão dos acessórios, levaram uma igual à da montra, dirigiram-se para o provador e, com cuidado, tiraram o alarme antirroubo. Margarida guardou-a na sua mala.

Saíram da loja, ela, firme, dava-lhe a mão, sentia as suas trémulas.

 Os alarmes não dispararam.

Aceleraram o passo, saíram rapidamente do centro comercial. Quando sentiram que não havia perigo, ela abraçou-o pela coragem de ter conseguido realizar a façanha.

Olhava a carteira que durante meses lhe causara grandes problemas de consciência e que o tempo ajudara a esquecer.

- Que será feito da Margarida?

Esboçou um sorriso.

Acendeu um cigarro.

 

Tema da semana: Problemas, só problemas

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