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Desafio de Escrita

Tema #7 Triptofano

01
Nov19

Brazilino adorava trabalhar na Flor de Patchouli, a melhor loja de maquilhagem, beleza e perfumaria de Sacotes Velho.

Brazilino não era bicha, era um doutor bicha, com um postdoc tirado no Frágil, a Harvard da gayzice, onde passou noites inteiras a fazer playbacks emotivos das canções da Madonna e da Britney.

Apesar de lhe estar estampado na cara que gostava de pila, havia sempre uma cliente ou outra que ainda tentava seduzi-lo, como aquela que fingiu ter um orgasmo quando ele lhe esfregou um creme de argão e bolota do Alentejo na pele ressequida dos cotovelos.

Brazilino já não se espantava com tais avanços do mulherio porque desde que tinha ido ver um concerto do Ney Matogrosso e no fim elas correram loucas para agarrar o artista, ele compreendeu que o mundo estava irremediavelmente perdido. Brazilino não se deu ao trabalho sequer de levantar da cadeira, toda a gente sabe que pão com pão não faz sandes e a médica dele tinha-lhe aconselhado uma dieta hiperproteica.

A Flor de Patchouli era propriedade do Tó Alberto, um antigo militar que tinha aberto o negócio na esperança de seduzir Yuliya, a russa-ucraniana-ameríndia lá da terra, portadora de duas meloas rijas a apontar para o céu, que todos os dias massajava com uma combinação de óleo de amêndoas doces e azeite virgem extra.

Tó Alberto queria mamar das meloas de Yuliya, mas ainda nem sequer lhes tinha conseguido dar um apalpão.

Além da paixão assolapada pela russa-ucraniana-ameríndia, Tó Alberto tinha um problema sério de jogo. Todos os dias ia para a frente da churrasqueira da esquina apostar qual era o frango que estava a rodar no espeto que ficaria com a pele estaladiça primeiro. Acabou por ficar completamente endividado e com uma infecção por E.coli que o deixou com uma valente caganeira durante duas semanas.

Sem um tostão no bolso Tó Alberto deixou de poder pagar aos fornecedores da Flor de Patchouli, o que levou a que acabasse por ficar sem produto na loja para vender.

Em desespero lembrou-se de uma tia-avó que vivia em Odivelas e fazia compotas de abóbora com amêndoa. Diziam as más línguas que a velha senhora tinha aprendido na Tailândia uma técnica de esterilizar os frascos de vidro metendo-os dentro da vagina e fazendo um gradiente negativo térmico, mas supostamente eram só boatos.

Na semana seguinte Brazilino recebeu uma quantidade gigantesca de compotas que precisava de vender, caso contrário iria parar ao fundo de desemprego. Como era um homem de desafios decidiu aceitar aquele.

A primeira utente do dia era a Dona Mitó, Constança de nascimento, uma socialite irrepreensível, tirando aquela vez em que comprou um vestido na Feira do Relógio e quis-lhe colocar uma etiqueta a dizer Dolce e Gabbana mas como estava com uma enxaqueca demoníaca por causa da voz da Cristina Ferreira acabou por cozer uma a dizer Dolce Gusto

Braziiiiii querido, preciso da sua ajuda, arranje-me uma máscara para o meu cabelo que mais parece palha de aço.

Brazilino não entendeu, o cabelo da Dona Mitó estava lindo, hidratado, sem pontas espigadas, uma autêntica maravilha.

Não é para esse cabelo querido, é para o lá de baixo, tenho o pêlo da senaita tão áspero que cada vez que o Cajó me vem fazer um minete reclama que fica cheia de dermatite na cara, é que ele tem uma pele de bebé o meu amor.

Ouviu-se um latido de confirmação vindo da mala da Dona Mitó, onde praticamente residia a Nena, a cadela porta-chaves que a acompanhava para todo o lado.

Brazilino viu ali a sua oportunidade.

Pediu um momento e foi ao computador do escritório fazer um rótulo. Ele era óptimo na informática, não fosse ter 4 perfis falsos no Grindr para sacar fotos nuas de gostosos, apesar de uma vez terem ameaçado fazer queixa dele por causa de Catfish. Brazilino ignorou porque ele nem gostava de peixe-gato, no estômago dele só entrava de maruca para cima.

Em menos de um fósforo ficou o rótulo feito.

Desafio dos Pássaros

Foi um sucesso!!!

De três em três dias a Dona Mitó vinha comprar um saco cheio de máscaras capilares, e num instante todo o stock foi vendido.

Brazilino foi escolhido como empregado do mês, o que pouco adiantou porque era o único a trabalhar na Flor de Patchouli. Tó Alberto recuperou financeiramente e inscreveu-se num programa de 12 passos para deixar de apostar nos frangos. Yuliya continuou com as meloas firmes. A tia-avó foi parar ao Amadora-Sintra de urgência com a vagina dilatada porque tentou esterilizar dois frascos ao mesmo tempo. A Dona Mitó estava mais feliz que nunca, toda minetada, sem causar dermatite na cara de anjo do Cajó.

Quem se lixou nesta história toda foi a Nena, a cadela porta-chaves que de tanto lamber compota acabou diabética!

 

Tema da semana: A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar

Triptofano escreve aqui

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Tema #7 Miluem

01
Nov19

Abóboras

Foto: https://escoladeatenas.blogs.sapo.pt

 

Como os meses parecem que têm tido mais dias ou o ordenado anda a encolher, arranjei um part-time para os fins de semana num Instituto de Beleza num centro comercial todo xpto.

As minhas funções são de higienização do espaço de salão, servir café e biscoitos às Madames (como o Sr. Joaquim faz questão que todas as clientes sejam tratadas), fazer quaisquer recados que elas necessitem dentro do centro comercial.

Num sábado de manhã estava a preparar as coisas antes do instituto abrir, com a supervisão do Sr. Joaquim, quando chega uma entrega enorme de mercadoria do VaAli e do AliVa.

A mercadoria foi logo exposta para venda, até que o caixote maior vinha cheio de … doce de abóbora com amêndoas!!!

O Sr. Joaquim disse palavras que não estão nem nos dicionários mais modernos!!!

Primeiro pensou oferecê-lo às Madames para porem nas broinhas dos santos, mas o diacho do doce… de doce tinha pouco, lá pelas bandas da China não devem usar açúcar.

Tinha que o vender como máscara de corpo e cabelo!!

Madame Constança chegou um pouco antes da hora marcada para tratar dos joanetes e remover as calosidades, porque precisava de uma máscara capilar que acalmasse a sua maltratada juba, descolorada e alisada todos os meses.

O Sr. Joaquim mandou-me ir atender e vender o doce de abóbora mal-amanhado como máscara capilar…

Logo a mim, eu nem sou capaz de vender um aquecedor a um esquimó!!

- Bom dia Madame Constança.

- Bom dia menina, quero uma máscara capilar das que costumo usar!

- Madame Constança, se me permite a sugestão, recebemos máscaras de uma conceituada marca de cosmética coreana vegan que fazem parte do novo conceito “hair food”, alimentar o cabelo, ainda só chegaram as de abóbora com amêndoa.

- Isto é um frasco de compota!!

- Todas as embalagens da gama são reutilizáveis e recicláveis, a empresa aposta na preservação da natureza.

-  Estou desconfiada que me está a enganar!

- De forma alguma Madame Constança, a abóbora é rica em minerais como potássio e o betacaroteno e em vitaminas A, C e E, para além de antioxidantes que nutrem o cabelo. Os benefícios do óleo de amêndoa são dos mais conhecidos.

- Não sei como, mas a menina convenceu-me! Vou experimentar a nova máscara.

Felizmente consegui vender a compota, senão lá se ia o part-time para o raio que me parta!

 

Tema da semana: A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar

Miluem escreve aqui

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Tema #7 Happy

01
Nov19

A Constança é aquela empertigada que costuma passar aqui pela loja de vez em quando. Ela faz-me sentir que eu não sou ninguém e toda a segurança que normalmente demonstro e sinto, se evapora assim que a vislumbro do outro lado da rua, todas as borboletas começam vêm concentrar-se no meu estômago. 

Já pensei ir ao psicólogo tentar perceber porque duas pessoas no mundo me fazem sentir essa insegurança toda. A minha mãe (obviamente) e Ela. (Nem consegui escrever Ela com e pequeno, vejam só!!)

Bom, mas a Constança entra e depois de deambular pela loja, e apesar de já lhe ter perguntado se precisava de algo em específico - intervenção que ela ignorou como só ela sabe fazer - dirigiu-se-me finalmente a dizer que procurava uma máscara capilar.

- Os meus cachos estão impossíveis! (reparo que parece acabadinha de sair de um salão, pronta para uma passagem de modelos). Não consigo fazer nada do cabelo!! Mas estes produtos que aqui vejo são todos tão baratos! (esta era outra característica d' Ela. Apesar de todos os meus conselhos, ela acabava sempre por levar o produto mais caro).

Começa-se a desenhar maquiavelicamente a minha vingança e digo-lhe que tenho um produto acabadinho de chegar, ideal para os seus altos padrões, algo completamente natural, que um fornecedor colocou à consignação. Que ainda nem o desembalei. Que vai demorar um pouquinho.

Vou para as traseiras da loja. Procuro a compota de abóbora e amêndoa que o meu patrão insistentemente procura que eu impinja aos clientes. Agarro no frasco mais bonito. Arranco a etiqueta de um frasco da L'Oreal que dizia 'nova solução para cabelos', passo por uma prateleira onde está o produto mais caro que temos na loja e volto a arrancar a etiqueta. Colo-as ambas e dirijo-me à Constança.

- Este produto é maravilhoso. É carote, mas aposto que se vai sentir nas nuvens!

Ela observa a embalagem, o preço, pergunta como se aplica (basta diluir em água e deixar na cabeça 20 minutos, digo eu muito convicta) e afirma do alto dos seus laboutins: Preço não é impedimento!

Coloco o frasco num saco de papel e Ela sai da loja.

 

Volta passado uma semana, afirma que está satisfeitíssima com a máscara. Que os seus cachos ganharam nova vida. E antes que eu consiga colocar um ar estupefacto, diz:

- Preciso urgentemente de um bom anti-formigas. Tenho a casa inexplicavelmente empestada!

 

 

Tema da semana: A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar

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Tema #7 Marina

01
Nov19

(A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abóbora com amêndoa. Convence-a  a escolher a compota para usar )

Constança é “tão tão tão” fútil que só sai de casa com as pestanas postiças, as lentes de contacto verde água e o cabelo esticadíssimo.

Para Constança a vida é  uma imagem permanente de si própria no blog que tem, no Instagram, no Facebook e outros “ook”.

Falarem-lhe em política nacional e internacional, no Brexit, fá-la ficar estática acenando com a cabeça ao interlocutor. Nunca votou. Raramente sabe onde está o cartão do cidadão ou a carta de condução mas sabe sempre onde está o verniz , o encaracolador de pestanas, o blush e o pó do bronzeador para o corpo, caríssimo, que lhe enviaram pelo correio depois de posar semi-nua diante do espelho da casa de banho nas redes sociais.

Tem milhares de seguidores nas redes. Troca pérolas de conversa interessantíssimas com eles sobre a existência de Ovnis ou se realmente o Elvis morreu ou está na Argentina.

Numa dessas conversas acutilantes esticava o cabelo com o ferro de alisar e as pontas começaram a arder. Desesperada, dirigiu-se para a casa de banho e pensou que tinha de ligar ao seu “hairdresser”. Precisava de uma máscara capilar!

Liguei-lhe naquele momento, desconhecendo a sua aflição.

 “Estou ? Estamos a ligar da empresa “Fruta a dias”. Vimos a sua foto junto a umas abóboras no campo no seu Insta e gostaríamos que representasse a nossa empresa nas redes sociais. “

Constança soltou um grito. “O quê?”!

“Queremos que represente a nossa empresa. Agora estamos a promover a venda de compotas de abóbora com amêndoa. Fazemos contrato publicitário. Só terá de tirar de vez em quando umas fotos a comer estas compotas, sublinhando a sua excelência nutricional.”

“Nutri quê? Isso pode usar-se no cabelo? ” , perguntou Constança.

Com o coração na boca, pois tinha de conseguir este contrato senão o meu patrão despedia-me, respondi que sim.

Ficou ótima a foto de Constança, tirada com um telemóvel de penúltima geração., com compota de abóbora com amêndoa no cabelo, tirada no fresquinho Guincho com a hastag # fruta do dia#.

[música: Blondie, Sunday Girl, 1979, all rights reserved to Blondie]

 

Tema da semana: A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar

Marina Malheiro escreve aqui

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Tema #7 - A Caracol

01
Nov19

A primeira que coisa que me chamou à atenção foram os sapatos. De marca, provavelmente valendo mais que o meu salário de dois meses, de verniz preto e um tacão que provocava vertigens só de pensar colocar-me em cima dele.

A seguir vieram as pernas: esguias, torneadas e capazes de me fazer chorar de inveja. O vestido de cabedal, justo e colado às ancas, deixava antever um glúteo perfeito, duro e trabalhado. O decote, não muito acentuado, realçava o colo, com mexas de cabelo loiro ondulado caindo em pedaços em sítios que o tecido teimava esconder. Quando foquei o rosto, senti-me despida por uns olhos verdes, cristalinos e pouco simpáticos.

Quem raio fazia uma fulana como esta cá na terra?

- Boa tarde. Posso ajudar?

- Boa tarde. Onde estão as máscaras capilares?

Arrogantezinha de merda. Ainda por cima boa como o aço. Badalhoca. Não temos máscaras capilares sua magrela, pau de virar tripas.

- Máscaras capilares, de momento, estão esgotadas. Mas temos aqui uns amaciadores muito bons. Deixe-me mostra….

- Condicionador não quero, obrigada.

Olhá a vaca a chamar-me burra nas entrelinhas.

- Precisava mesmo era de uma máscara… Tenho as pontas todas danificadas.

‘Pera aí que eu já t’atendo.

- É como lhe digo: máscaras não temos. Mas… Já pensou em experimentar um produto mais natural? Tem um cabelo tão bonito que é um crime enchê-lo de químicos.

- Acha mesmo?

- Se eu acho? Já reparou nos ingredientes de uma máscara capilar? Aquilo é o demónio em forma de creme acetinado! Olhe… relembre-me o seu nome, por favor?

Logo vi que devias ter um nome desses todo betinho. Sonsa.

- Olhe, Constança, sabe qual é a indústria mais mentirosa que existe, logo depois da farmacêutica? A dos produtos capilares. Aquilo é só lobbys e photoshop para enganar o povo. Prometem-nos cabelos macios como a seda, mas ainda não há que chegue àquilo que os antigos faziam. A minha avó tem 95 anos e ainda hoje tem um cabelão capaz de fazer inveja à Rapunzel.

- O que me sugere então?

- Um cabelo como seu, merece um produto elaborado com carinho, com amor e dedicação. Biológico, de preferência e isento de glúten. O glúten é outro pequeno demónio: entranha-se nas pontas, insufla o o fio capilar e faz com que fique espigado.

- Nunca tinha pensado nisso… Tem algum produto desse género que possa experimentar?

- Olhe, por acaso tenho, sim senhora. Acabaram de chegar agora mesmo umas compotas de abóbora que são um doce para o cabelo. Feita com abóboras biológicas, sem açúcar refinado – que também faz um mal terrível ao couro cabeludo, tornando-o oleoso - e com amêndoas de cultura biológica, de Freixo de Espada à Cinta. 

- Compota?

- Compota. Já viu o cabelo da Kardashian? Aposto que é disto ela usa, aquele brilho não engana ninguém. Eu própria utilizo e é uma maravilha. Deixa atuar uma boa meia hora e depois lava normalmente.

- Bem, se é assim… Acho que vou experimentar. Levo um frasquinho.

- Vou dar-lhe dois e faço-lhe uma atenção, porque isto esgota sempre num instante. Mas é só por ser para si.

- Oh! Muito obrigada pela simpatia.

- Ora essa. Nada a agradecer, vai adorar! 

Cabra.

Tema da semana: A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar

A Caracol escreve aqui

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Tema #7 Belinha

31
Out19

Constança, uma fulva trintona, foi comprar uma máscara capilar hidratante. Joana colocou sobre o balcão um frasco de compota de abóbora biológica com amêndoa. – Está em promoção, – disse. O patrão queria livrar-se daquele stock quase no fim da validade. Constança recusou: não precisava. – Ora – continuou a empregada – precisa, sim. É adoçada com stevia. A abóbora é rica em vitaminas A,C e E, e potássio, além de ter propriedades antioxidantes. Nutre e retarda o envelhecimento do cabelo. E protege dos danos do sol. Aplica após a lavagem, faz uma pose de 3 minutos e enquanto espera faz esfoliação corporal graças à amêndoa de Foz Côa. E para evitar o desperdício chama a sua amante para lamber o seu doce e goza um orgasmo extra. É 3 em 1!

Constança, vegetariana, cliente habitual da única loja vegana do bairro, achou que Joana tinha andado a fumar erva mais poderosa que o habitual tabaco. Ainda que nova ali, costumava esticar-se na oratória, mas nunca como desta vez. Constança não fez escândalo. Levou a compota e telefonou ao patrão, seu conhecido. Joana não sofreu repreenda nem procedimento disciplinar. Uma semana depois o seu contrato não foi renovado. Quando lhe comunicaram o facto, apenas disse, com desprezo:

– Gente que gosta mais dos animais que de pessoas.

Uns meses depois havia corrida e marcaram uma manifestação junto às portas da praça de touros da cidade. Cerca de 100 pessoas e alguns cães fizeram parar o trânsito, sob vigilância da polícia. Constança compareceu com um cartaz contra o sofrimento animal. O seu olhar e o de Joana cruzaram-se. Aproximaram-se e juntas agitaram concertadamente os seus papelões no ar aos gritos de Cultura sim, tortura, não!, até ficarem roucas e quase despenteadas.

– Queres vir tomar um chá quente?

Constança seguiu-a. Pararam no ecoponto para deixar os cartazes. Joana vivia sozinha com cinco gatos num T1. Entraram para a cozinha. Na mesa, alinhados, estavam três frascos de compota de abóbora com amêndoa e pão integral numa cesta. Depressa o chá fumegava histórias. Tinha uma Pós-Graduação em Filosofia Contemporânea. Nunca conseguira dar aulas. Quando a conversa chegou ao fundo da chávena, Joana pegou num dos frascos e desapareceu, seguida pelos cinco gatos. Constança ouviu água a correr. Olhou. Havia vapor no hall. Foi e abriu a porta recortada a luz. Joana massajava compota no corpo. Constança despiu-se com avidez. Quando entrou na banheira, perguntou, timidamente:

– Como adivinhaste?

 

 

Tema da semana: A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar

Belinha Fernandes escreve aqui

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Tema #7 Osapo

31
Out19

O destino alinha as estrelas como lhe apetece …

Reparei nela quando se aproximou da banca de compotas caseiras na feira biológica junto ao Campo Pequeno.

Era alta, perfumada e pintada com gosto. Base, risco nos olhos e batom vermelho vivo. Vestia calças de ganga justas, que definia-lhe o corpo e erguia-lhe o rabo, e top de corres garridas mostrando um peito firme.

Pegou numa compota de amêndoa e noz e sorriu-me com uns dentes impecavelmente brancos, realçados pela cor dos lábios.

Expliquei-lhe que eram cozinhadas em panelas de ferro, em lume de lenha de carvalho e lentamente para retirar os sabores dos produtos naturais, colhidos na serra da Agonia.

Um produto caseiro, colhido, preparado e embalado pelo Timóteo, o meu patrão”, disse apontando para o homem que, mais atrás, nos olhava com particular atenção.

Muito interessante, sou a Constança mas estou em regime”, disse com voz feminina mas rouca, a avisar-me que os meus ímpetos de vendedor estavam condenados ao insucesso.

As compotas servem para tudo. A de abobora com amêndoa dá para barrar o pão, acompanhar um bom queijo, como sais de banho e leite corporal. A Magda, do desafio dos pássaros, usa para restaurar o cabelo na mudança das estações”, disse-lhe num tom que não deixasse dúvidas.

Arregalou os olhos e não desarmei: “O teu cabelo está bem tratado, mas parece pouco nutrido”.

A sério? Achas que me fazia bem?”, perguntou meia convencida.

Não tenho dúvidas, aplica e volta cá para mostrar”, disse-lhe.

Fiquei interessada”, disse de sorriso aberto.

Expliquei-lhe de forma pormenorizada a quantidade e a forma de barrar e lavar o cabelo.

Dou-te o meu número se tiveres dúvidas na aplicação”, disse-lhe.

Pegou no telemóvel e, enquanto o registava, disse-me o dela que apontei num post-it.

O Timóteo, que não tirava os olhos da moça, levantou-se, tirou-me o papel amarelo da mão e disse-me: “Vai tomar café”.

Uns minutos depois cruzei-me com ela e, mostrando-me as compotas que levava num saco de papel, disse-me: “O teu patrão ofereceu-me as compotas e ofereceu-se para ir lá a casa ajudar-me a aplicar a compota no cabelo”.

Ri-me e mostrando-lhe uma nota de 50 euros respondi: “E eu ganhei-lhe a aposta em como conseguia o teu número de telemóvel”.

Com um sorriso irónico pergunta: E ele sabe quem sou?”.

Não, mas imagino-lhe a cara quando descobrir que és um gajo travesti”, disse rindo desalmadamente … no que fui acompanhado por ela, melhor por ele!!

O destino é f*dido …

 

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Osapo escreve aqui

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Tema #7 Sónia Figueiredo

31
Out19

Portanto já percebi que não tenho descanso, nem aqui, vendas, negociações...e por aí vai. Então vamos lá rir um bocadinho com o assunto.

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Uma das regras do bom vendedor é criar uma necessidade que o cliente ainda não sabe que tem. - Citação minha

Então agora que já registei uma citação, em estilo encher chouriços, vamos lá ver como vou convencer a Constança (este nome é muito à "Tia", reparei agora), podia ser Sancha, mas vamos lá ao que interessa e aproveitar este pormenor e mudar a minha linguagem a partir de AGORA.

- Como tem passado querida, vinha buscar a minha máscara capilar.

- Ainda não sabe, Constança esse produto foi descontinuado.

- Mas ainda tem embalagens aqui nas prateleiras.

- Querida, vá por mim, isso tem químicos perigosos para a saúde. Agora estamos a apostar em soluções mais naturais e com a mesma eficácia. Soluções sem químicos.

- A sério? Não sei como vou conseguir viver sem minha rica máscara.

- Acabou de chegar um produto espectacular, natural e cheio de benefícios para a saúde.

- Então? Que produto é esse?

- Compota de abóbora e amêndoa.

- Mas isso é para comer, certo?

- Sim, mas o que as pessoas não sabem é que pode ser aplicado no cabelo.

- Como assim?

- Aplica 2 colheres de sopa na cabeça, espalha para as pontas, depois coloca uma touca e deixa estar durante 30 minutos. Vai à sua vida, lê uma revista ou vê a Passadeira Vermelha, e depois lava normalmente. Passa por água, coloca este champô de abóbora, enxagua bem, depois aplica a máscara de amêndoa duas vezes por semana e vai ver como o cabelo vai ficar brilhante forte e nutrido. E se comer umas tostas com a compota, vai também notar diferenças na pele do seu rosto.

- Como é possível que ninguém fale nesse produto.

- Simples, como é um produto barato, ninguém tem interesse em comercializar. A margem de lucro é muito menor que a da máscara capilar que costuma levar. É claro, que o meu patrão não pode saber que eu lhe estou a contar isto.

- Agradeço imenso a sinceridade é por isso que só venho aqui, porque confio em si.

- Aproveite e diga à Carlota, à Tica, à Bibá, à Pipa e a todas as que se lembrar.

- Fica combinado, assim sendo vou levar já seis compotas e à tarde já aviso todas para cá virem.

- Pois é melhor, porque não há muitos e pode esgotar.

Passado uma semana o meu patrão já tinha o stock esgotado e agora queria despachar a compota de morango.

Haja Paciência!

 

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Sónia Figueiredo escreve aqui

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Tema #7 Fátima Cordeiro

31
Out19

Intervenção da narradora-autora: Nessa noite Matilde teve o sonho mais estranho de sempre! Contrariamente ao habitual, não sonhou com o dia em que apanhou Guilherme com a amante. Sonhou com outra coisa.

No sonho, Matilde chamava-se Constança e estava nos anos 30 do século XX. Tinha acabado de lavar o cabelo. Mas não era suficiente. O cabelo continuava danificado e ressecado. Precisava de uma mascara capilar (era Matilde ou era Constança que precisava disso?). Mas uma voz avisou-a que não havia. Disse-lhe que só havia compota de abobora com amêndoa para colocar no cabelo. A voz continuou a falar. Disse-lhe que aquela compota era nutritiva, cheia de vitaminas de A a Z. E era um produto natural.

Constança ou Matilde colocou a compota no cabelo e ficou assim durante 5 minutos. À espera que resultasse. Depois voltou a enxaguar o cabelo. Gostou do resultado. Tinha de experimentar mais vezes! A seguir vestiu um robe que a fez sentir-se ainda mais velha. Como se a idade de Matilde se tivesse duplicado.

Matilde ou Constança aproximou-se mais para ver de quem era a voz. Esperou sentir um cheiro a lavanda. Mas só sentiu um cheio a suor e a mortos. Aproximou-se mais. Era um homem. E o seu rosto não era uniforme. Parecia alguém que andava nas drogas. O próprio rosto parecia ser feito com pedaços de outros rostos. De rostos já não vivos. Será que era o Frankenstein boticário? Matilde acordou de madrugada, assustada. Não conseguiu dormir mais o resto da noite.

 

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Fátima Cordeiro escreve aqui

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