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Desafio de Escrita

Tema #14 - A Caracol

20
Dez19

É a 265ª vez que lhes repito o mesmo: não nasci para isto. 

Os sacanas insistem: ninguém nasceu, trabalha-se e consegue-se. Depois, mandam-me para mais uma ronda. 

Não aguento mais. Já não sinto as pernas, falta-me o ar, sinto-me a colapsar de dentro para fora. Como é que eles não vêem? Como é que eles não percebem que, se continuar assim, vão acabar por me mandar para a morgue, ou pior para o hospital? Como é possível ignorar as dores de uma pessoa assim desta maneira tão vil? 

Como numa espiral de euforia que nos leva a loucura, a música continua. Grita aos nossos ouvidos, impelindo-nos mais um pouco para diante. Há sempre um olhar de compreensão que se troca com um colega, na impossibilidade de articular qualquer palavra. Estamos todos no barco, custa o mesmo a todos. Saber disso, mesmo não atenuando a nossa agonia, ajuda a suportar o peso com que nos carregam as costas. 

Olhamos em frente, em busca de novas ordens, exaustos, derreados e já a ver a luz ao fundo do túnel - não a da esperança, a outra que os moribundos alegam existir. 

- Não nasci para isto - repito novamente para mim. 

- Não desisssstteeeeeeeee! - é o grito que se ecoa pela sala, com um olhar reprovador sobre quem tem a audácia de respirar um bocado. 

- Mais oitoooooo! 

- Não nasci para isto - penso, enquanto conto o número de cobras, sem sentir os braços. 

Finalmente, termina. 

Como se sofrêssemos de amnésia, agradecemos ao nosso carrasco, elogiando o seu trabalho e prometendo voltar. É sempre assim: quanto maior o desafio, maior o vício. A mente sai leve, não sentimos nada e nem sequer sabemos como vamos descer escadas no dia seguinte. Nesse momento, temos a certeza: mesmo não nascendo para aquilo, é exactamente daquilo que precisamos. 

 

(texto inspirado numa qualquer aula de crosstraining. Ou Power. Ou Jump. Ou Fitness, no geral.)

Tema da semana: Não nasci para isto

A Caracol escreve aqui

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Tema #14 Outra

20
Dez19

Ser tralheira e acumular coisas,

Ser mãe de mais do que um filho,

Fazer dieta,

Correr,

Fazer fretes,

Gostar de política ou de mariscos,

Tolerar gente cínica, falsa, intriguista e malandra

Não trabalhar,

Jogar cartas,

Calar-me perante injustiças,

Escrever em dias marcados,

Não, não nasci para isto...

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Outra escreve aqui

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Tema #14 Drama Queen

19
Dez19

De Segunda-feira a Sexta-feira uma é correria para dar conta de um dia que só tem 24 horas. Tenho dias que só vou a casa de banho em casa porque nem tempo para fazer as minhas necessidades tenho, hoje é um desses dias.

Dormi a pressa, acordei cedo fiz minha rotina matinal. Conduzi até ao trabalho, ainda não posei minha mala o telefone já está tocar, onde nem tempo para respirar fundo tenho, almoço rápido para ir ver os blogs e ler as 1001 mensagens dos pássaros, bebo café a fugir para continuar a jornada da tarde porque não há tempo tanta requisição, vejo os emails a cair ainda eu não consegui dar resposta. Entro em stress porque o dia não corre como planei, tenho o serviço todo atrasado, tenho prazos curtos, tenho gente que só sabe é exigir. No final do dia ao ir para casa sem o sentimento de dever comprido no meu intimo penso que não nasci para isto. Não nasci para viver para o trabalho.

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Drama escreve aqui

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Tema #14 Bla Bla Bla

19
Dez19

Não nasci para isto...

... de cumprir prazos...

... de respeitar temas...

... de não transpor limites...

... de seguir regras...

... de corresponder a expectativas...

... de não transgredir imposições...

Odeio regras... adoro exceções!

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Bla Bla Bla escreve aqui

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Tema #14 Maria

19
Dez19

Manuela está outra vez a ter um surto psicótico. E é mesmo como o Doutor diz. Contado ninguém acredita, só mesmo quem passa por elas sabe o quanto isto é difícil de lidar.

A carta para entregar nas urgências de psiquiatria era explícita "está com uma crise de surtos psicóticos e tem que ser analisada pela especialidade".

Foram horas de espera numa ala com tantos outros doentes do mesmo e em que quem lá está se depara com uma realidade que, provavelmente se nunca passarem por ela, imaginam que possa existir. 

"Não pode ficar internada, vai ter que ir para casa e analisarem os próximos passos" - foi só o que o médico disse.

Manuela estava agora sossegada devido à medicação administrada. Sossegada demais até para os dias agitados que passou.

E agora, vai para casa de quem? Já não pode ficar mais sozinha. Tem que estar em permanente vigilância. Vai para onde? Questiona Joana que é quem tem menos condições para ficar com ela, mas é quem tem ficado nestes dias.

Aurora diz logo que não pode. Assim como Fernando também não quer.

Temos que nos ajudar uns aos outros - diz Joana - e neste momento ela precisa de todos.

Mas eu não posso, refere novamente Aurora.

No dia seguinte Joana volta a encontrar-se com todos para resolverem a situação.

Aurora é a primeira a manter a posição - Eu não posso!

Eu não nasci para isto - diz Joana... As pessoas estão lá quando não precisas, quando estás bem, quando um Olá e Adeus chega. Mas quando é preciso mais que isso, quando é preciso que se ajude. Quando já não têm idade e capacidade para estar só, quem está lá? Os velhos não vão de férias. Os velhos não são descartáveis. A família não é família só quando estão bem! Eu não nasci mesmo para isto. Eu não sou isto. Eu não sou como vocês. Isto não está certo.

Mas eu não posso - repete Aurora.

Podemos sempre metê-la num lar - atira Fernando!

Joana, cabisbaixa, não se identifica com aquilo e diz: é de lamentar que se ela morresse agora todos lhe vinham chorar a morte, mas neste momento ninguém lhe quer ajudar a melhorar a vida.

Eu não posso, volta a referir Aurora.

Manuela assiste à discussão sem uma única palavra. Sem deixar perceber se está a entender o que se passa se não. Terá Manuela nascido para isto?!

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Maria escreve aqui

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Tema #14 Osapo

19
Dez19

Eu nasci numa sexta-feira, 13 (1) 

Jacinto (repórter de televisão por cabo 5G) entrevista médica cardiologista (2), a propósito das doenças do coração.

Dr.ª Rita, deve-se evitar comer carne e ingerir mais frutas e vegetais?

Entenda o processo. O que come a vaca? Erva e palha. Vegetais. Os frangos milho. Comer bife, frango, qualquer carne é ingerir vegetais que melhoram o funcionamento do organismo.

E reduzir o consumo de álcool?

Não nasci por isto. O vinho é feito da uva. O brandy é vinho destilado. O gin de cereais. O whisky de cevada de malte. A tequila de uma planta parecida com o abacaxi. Para o bom funcionamento do organismo coma fruta, seja sólida, líquida ou gasosa. Mas muita.

Mas comer fritos é prejudicial?

Socorro, tirem-me daqui. Os fritos são feitos com óleo vegetal. E quanto mais gorduroso mais saboroso. Como é que um vegetal, ainda que óleo, pode prejudicar a saúde? É ao contrário.

E doces?

Ouve bem? Não percebeu nada do que disse. O chocolate é extraído do cacau. Um vegetal. O açúcar é refinado de uma planta. Ingerir muitos vegetais faz bem ao corpo. Seja qual for o seu formato.

Doutora, os exercícios cardiovasculares prolongam a vida?

Deus, que mal fiz eu. Não é verdade. O coração foi feito para bater uma quantidade fixa de vezes. Fazendo exercícios acelera as batidas do coração e isso não faz com que viva mais. Conduzir um carro a alta velocidade vai prolongar a sua vida? Não desperdice as batidas porque tudo se gasta. Quer viver mais anos? Reduza o ritmo sempre que puder. E quando não puder também.

Mas não há vantagens em fazer exercício físico regularmente?

Oh pah, vou soletrar.  Po-de  des-de  que  não  a-ce-le-re  o  co-ra-ção,  não  te-nha  do-rees e não  su-ee (3). Assim, pode fazer várias vezes por semana. Exercitar músculos nem sempre o aumenta de tamanho (muitos risos???). Se caminhar fosse saudável, os carteiros seriam imortais?

Dr.ª Rita, que conselhos finais para os nossos telespectadores?

Eu (não) nasci para isto. Pensem comigo. A baleia nada o dia todo, só come peixe, bebe imensa água. E? Gordíssima. O coelho anda sempre aos saltos. E? Vive 15 anos. A tartaruga não faz puto! E? Vive 450 anos. Quantos séculos acham que vão viver os mentores do desafio de escrita dos pássaros(4)

Não desista se não encontrar a metade da sua laranja. Procure rodelas de limão, meta-lhe sal, muita tequila e beba de gole! 

E se algo correr pior, saibam que gosto de atender pacientes novos todos os dias … desafios sempre desafios!!! (5) 

 

Notas do Sapo:
(1)
 Foi a uma terça-feira, mas dá jeito para pôr aqui (faz de conta, prontos)
(2) Rita Almeida, cardiologista, 40 anos, loira e magra, vestida de forma clássica, sobre a qual baila uma bata impecavelmente branca e engomada, com o seu nome bordado a azul no topo do bolso superior esquerdo, recebe Jacinto Alves no seu consultório, com o objetivo de partilhar conhecimentos e informações que possibilitem ao povo evitar doenças do foro do coração. O jornalista resolveu partilhar a entrevista na íntegra, sem perder espaço e tempo com os pormenores
(3) A médica é uma gaja do norte
(4) 17! Tantos? E sem fazer puto não é?
(5) 17 é também o número de palavras que ultrapassei face ao limite imposto pelos mentores. Corte, por favor, onde lhe der mais jeito. (Não, aí não pf) Apenas pode cortar no texto. Obrigado

Tema da semana: Não nasci para isto

Osapo escreve aqui

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Tema #14 Belinha Fernandes

19
Dez19

Miss Parker, corpo negro, macio ao toque, adornado a ouro, possuía uma beleza intemporal. Fria e distante, ainda assim, HB admirava-a. Ela gabava-se frequentemente da sua rica história. Que descendia de linhagem importante. Quando a rendição alemã foi assinada, estavam lá. Tinham lugar em museus. Hemingway dizia-se inspirado por uma quando escrevera um livro. Privavam com os membros da família real britânica. Eram disputadas por coleccionadores. Já HB tinha um jeito modesto embora ambicioso. As suas origens perdiam-se no tempo, talvez um escriba egípcio que raspara com um estilete num papiro. Não nasci para isto, queria sempre dizer-lhe quando a via olhá-lo com desdém. Mas seria inútil. Ela estava-se nas tintas para ele.

Miss Parker recolhia-se a um estojo de veludo nas horas vagas. Ele dormia em pé, misturado com outros num copo de estanho, numa promiscuidade colorida. Enquanto ela era chamada a escrever cartas de amor, a ele cabia listar as compras da mercearia, fazer maçadoras contas, e, ocasionalmente, esboços em folhas brancas que acabavam no lixo. Durante estes devaneios criativos HB temia pelo seu corpo que via encurtar-se a olhos vistos. Alto e esguio, aproximava-se rapidamente da altura de Miss Parker. Mas nem assim poderia considerar falar-lhe de igual para igual. Também a cada queda o seu coração de grafite se partia um pouco. E mais vezes era aparado. A sua esperança de vida reduzia-se a cada volta. Uma doce tontura sempre anestesiava o corte da lâmina mas não a sensação do tempo a fugir-lhe. Não nasci para isto. Eu sei, eu sinto no mais íntimo da minha negritude, que há algo maior. Todavia, o seu momento não chegava.

Um dia a criança que corria pela casa foi ao escritório e o pai deu-lhe aquele lápis. Foi com ele que começou a ensaiar o a,b,c num caderno de duas linhas. O HB passou a dormir num estojo com a divertida Miss Bic Cristal. Transparente, despretensiosa, ainda que por dentro dela corresse sangue azul, a química entre os dois foi imediata. Viram, orgulhosos, as primeiras palavras escritas pela miúda feliz. Depois, na escola, Miss Bic Cristal escreveu-lhe a primeira redacção e ele fez-lhe uma última ilustração. A professora classificou com Muito Bom.

Hoje o velho estojo escolar, a esferográfica vazia e um lápis HB de 4 cm fazem parte do museu pessoal da minha infância. Da caneta Parker 51, possivelmente adormecida em alguma loja de antiguidades, perdeu-se o rasto.

Tema da semana: Não nasci para isto

 Belinha Fernandes escreve aqui

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Tema #14 Inês Norton

18
Dez19

Não nasci para isto

Grita-me o cérebro

Cansado de pensar sobre os

Desafios que me lançam

Os possuídos dos pássaros

 

Não nasci para isto

Gritam-me os olhos

Fartos das 20000 páginas lidas

Em 66 livros só neste ano

 

Não nasci para isto

Gritam me os ombros, as costas

Do peso de calhamaços de mais de 700 páginas

 

Não nasci para isto

Grita-me o sapo

Que lhe dei um blog de livros

Onde muitos aguardam a critica

E onde ninguém participa no desafio

Que criei de leituras invernais

 

Não nasci para isto

Grito em silencio eu ao mundo

Que queria ter vida para ler todos

Os livros bons do mundo

E nem metade deles os posso comprar

É a minha vida

Mas definitivamente eu não nasci para isto..

Tema da semana: Não nasci para isto

 Inês Norton escreve aqui

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Tema #14 Insensato

18
Dez19

A violência entre menores está a aumentar nas Escolas.
A sociedade continua a desrespeitar os seus professores. Como epicentro, o Ministério da Educação.

 

Durante décadas, as condições de habitação dos professores foram desconhecidas ou abnegadas. Provavelmente, por uma questão de orgulho. Nos nossos tempos, não obstante, as injustiças de vária ordem, estar provido no quadro de uma Escola não significa proximidade de casa. Na generalidade, muitas das despesas duplicam, de que são exemplos a eletricidade, a água, o gás e a alimentação. Muito raramente, um docente consegue arrendar um espaço cujo senhorio forneça fatura para dedução no IRS. O que dizer de um sofá?

Cartoon de Paulo Serra

De referir que esta realidade não se observa somente nos grandes centros urbanos, ao contrário do que têm tentado feito crer.

Entretanto, dissemina-se a ideia de que há falta de preparação dos docentes portugueses para lecionar. Vivemos tempos conturbados, durante os quais é preciso filtrar as informações que nos são feitas chegar. Muitos são os pássaros conturbados e maquiavélicos que dominam os média. Não, não nasci para isto.

Tema da semana: Não nasci para isto

 Insensato escreve aqui

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Tema #14 Sarin

18
Dez19

nazaré.jpg

A vida faz-se

A primeira memória que tenho é a do corpo em dor, excruciante. Senti a pele repuxada, os músculos truncados, os membros doendo a cada bater do meu fraco coração. Com o tempo a dor foi diminuindo, ou talvez que me tenha habituado... mas um dia deixou de doer. Penso que foi quando percebi que me amavam. Ou talvez tenha sido da água, sei agora que a hidroterapia é benfazeja; mas não o sabia então, e limitei-me a usufruir os momentos que me foram oferecidos. A música era indistinta, mas era música. Entranhou-se-me na alma, o corpo movendo-se suavemente no embalo, música e dança elevando-me acima de qualquer memória. Beethoven e Mozart, claro, como não?

O tempo passou, a memória esmaecida e a dor olvidada, e comecei a sentir quem me rodeava, intentei reagir às tentativas de comunicação - eu, que até ali me mantivera inconsciente dos outros, buscava agora o seu contacto.

Um dia atrevi-me a sair pelo meu pé, sem auxílio. Atirei-me de cabeça, ignorando a reprimenda de quem dizia ser cedo. Estava cansada, a escuridão nada mais tinha para mim - ansiava a luz, mesmo que apenas ao fundo do túnel. Não importava se estava bem ou estava mal, não havia sido feita para ficar parada. E assim me lancei de corpo inteiro. Mas o mundo, inclemente, acolheu-me com violência.

Caramba! Sete meses e meio num útero e recebem-me com uma palmada?! Não! Não nasci para isto! Vou em busca de outras memórias! Onde os braços de quem me embalou?!

 

Nota da autora: Depois do Aviso, o parto. Não foi a ferros, mas quase... o do texto. O meu foi rápido, diz quem sabe.

Nota à roda: o AO90 não nasceu para isto. Nem para nada.

imagem recolhida no West Side

Vídeo: Fala do Homem Nascido

Adriano Correia de Oliveira (1970)

Letra de António Gedeão, Música de José Niza

Tema da semana: Não nasci para isto

 Sarin escreve aqui

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