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Desafio de Escrita

Tema #10 Ana Neves

19
Nov19

Que raio de pergunta, é claro que já chegámos ao desafio 10. E tem sido um desafio incrível e muito desafiante, principalmente pelos temas que são autênticos enigmas.

Vamos lá  relembrar o percurso até aqui:

Tema 1 “Problemas, só problemas” – e quem não os tem que atire a primeira pedra a estes pássaros. Problemas é o que nos têm criado com estes temas tão ambíguos e caricatos.

Tema 2 “ O amor e um estalo” – quanto mais me bates mais eu gosto de vocês meus queridos pássaros, ou seja, quanto mais difíceis são os temas, mais eu gosto da passarada.

Tema 3 “ uma aventura/momento que te tenha marcado” – sem dúvida ter tido a feliz ideia de participar nesta passarada. ;)

Tema 4 “A Beatriz disse que não. E agora?” – A Beatriz é que fez bem e não entrou na vossa passarada. Ela é que foi esperta. Agora só lê os posts às sextas e, com tanta palhaçada, fica bem disposta para o fim de semana.

Tema 5 “Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo.” – Eu quero lá saber para onde  o bigodito vai e se não o querem lá? Eu quero é saber o que eu vou escrever para sexta-feira.

Tema 6 “Escreve uma história romântica baseada no clássico "O Amor, uma cabana… e um frigorífico" – isso era mesmo aquilo que vocês pássaros deviam oferecer a cada um de nós no fim deste desafio. Precisaremos de descansar os neurónios, sem dúvida nenhuma...

Tema 7 “A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abóbora com amêndoa. Convence-a  a escolher a compota para usar” – ó meus queridos, o pássaro que teve a ideia para este tema só podia estar com comichão na cabeça enquanto se refestelava com uma fatia de pão de centeio com doce de abóbora. É que só pode!

Tema 8 “Escreve uma carta para a criança que foste”- para a criança que foste, para a criança que és e para a criança de hás-de ser. Isso sim, era um grande tema...

Tema 9 “Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta” – é para onde eu quero ir já, para uma ilha deserta, com calor e água quentinha. Pagam os pássaros, claro está!!!

Tema 10 “Já chegámos? Já chegámos” – sim, chegámos ao 10 e parece impossível. Já andamos aqui há 10 semanas e ainda não me saiu nada de jeito. Só asneiras e tontices, mas posso-vos dizer que estou a adorar escrever estes temas malucos e ainda estou a adorar mais ler o que os outros maluquinhos como eu escreveram... 

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Ana Sofia Neves escreve aqui

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Tema #10 3ª face

19
Nov19

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crédito da imagem 

Será aquilo a que chamamos destino o simples resultado da nossa predisposição genética para agir?

Serei eu responsável pela impulsividade que não consigo controlar?

A Ilha do Pessegueiro não fica assim tão longe de Porto Covo.

Mas apenas quando estamos do lado de cá, a contemplar aquele pedaço de terra teimosa, enquanto trauteamos a canção do Rui Veloso.

Na maré alta e com corrente forte, não é bem assim.

Sobretudo quando nem sequer se sabe remar…

Ao fim de uns minutos a tentar controlar o barquinho, cedi à força da corrente.

Já nem sentia os braços.

Deixei-me ir…tinha sede.

Tanta sede!

O sol queimava quando fechei os olhos. 

Subitamente, debaixo de um oleado amarelo, saiu uma figura robusta, que me sacudiu:

- Não durma, menina, não pode! Estamos quase a chegar…

Mas eu, ressequida e exausta, entreabria os olhos e voltava a fechar.

Por diversas vezes…

Era um homem novo, vestido com roupas estranhas: um turbante vermelho e uma túnica larga e comprida, apertada elegantemente com um cinto, cujo brilho da fivela me ardia nos olhos.

É o vizir! O vizir de Odemira!

Que por amor se matou novo

Aqui, no lugar de Porto Covo!

É o seu fantasma que me transporta na barca para o purgatório, como descrevia Gil Vicente!

Morri!

Porém, continuava com aquela sensação de queimadura que me dilacerava o corpo todo, por dentro e por fora!

Tomara já sentir a frescura do paraíso!

- Já chegámos? Já chegámos? - perguntei.

- Está quase, menina, não durma, mantenha os olhos abertos.

De vez em quando, mesmo através das pálpebras semicerradas, eu via a luz.

Aquela luz que dizem existir quando morremos.

É forte.

É azul.

- Já chegámos? Já chegámos, Vizir?

- Calma menina! Há muito trânsito com o pessoal que está a sair das praias e sabe que esta estrada é estreita. A ambulância está com as luzes de emergência mas, ainda assim, é difícil.

Logo, logo, chegaremos ao Hospital. 

Com esforço, arregalei os olhos.

O manto do vizir era vermelho e tinha o nome bordado:

Bacalhau da Silva, Bombeiro de 2ª

Ainda o ouvi perguntar, antes de voltar a perder os sentidos:

- E como é que se chama a menina? Como foi parar dentro de um barco na zona das rochas, onde se apanha o mexilhão? É que estava completamente nua e nem sequer tem documento de identificação…

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

3ª Face escreve aqui

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Tema #8 Outra

18
Nov19

Fecha os olhos. Relaxa. Imagina que tens à tua frente um caminho estreito, ladeado de árvores. Vais caminhando, absorvendo o ar puro, apreciando as cores da natureza à tua volta, a beleza da copa das árvores e sente os raios de sol que te vão acarinhando ao longo deste passeio. O trilho é de terra batida e está coberto de ervas. Quanto mais avanças, mais te embrenhas nesta floresta, onde sem saber bem porquê te sentes tranquila…

No fim do trilho há uma clareira. Ao te aproximares percebes que está lá alguém, que pelo tamanho só pode ser uma criança. Ela vira-se para ti. O seu rosto é familiar, estás a ver-te pequenina, criança. O que é que dirias àquela criança?

Primeiro, sorrio. Depois volto lá, àquele tempo em que, pequena, já me sentia pouco merecedora de coisas boas…O sorriso dá lugar às lágrimas, e não consigo parar. Digo(-me): mereces ser feliz, mereces coisas boas! Gosta de ti. E sorri. És especial, como cada indivíduo e nunca penses merecer menos, ser menos. Gosta de ti, e Sorri. A vida vai dar-te coisas boas.

 

*Este post é a transcrição pequena de uma meditação que fiz há tempos, portanto é real…

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Outra escreve aqui

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Tema #10 Inês Pereira

18
Nov19

Memórias que todos partilhamos de viagens intermináveis, no banco de trás do carro do pai, onde o destino não era assim tão importante, porque a diversão acontecia no trajecto. Ainda que infernizássemos a vida dos adultos com este «já chegamos?», repetido até à exaustão, o melhor acontecia enquanto inventávamos jogos para passar o tempo ou brincadeiras parvas com coisa nenhuma que não a fértil imaginação das crianças que fomos.

Talvez esta seja a metáfora perfeita para as nossas vidas. Afinal, mais importante do que o destino é o caminho que percorremos para lá chegar. É nessa viagem que crescemos, aprendemos e nos tornamos em pessoas melhores. Isto, claro, quando percebemos e aceitamos essa verdade.

É evidente que alcançar os sonhos e objectivos é fantástico e provoca uma sensação de realização e nos faz sentir o sabor do sucesso. No entanto, quanto mais longa e difícil for a jornada, melhor será esse sabor, maior o prazer obtido.

Assim sendo, só me resta dizer-te para aproveitares a viagem da vida, saboreando cada momento com a consciência da sua unicidade, e retirando o máximo de proveito desta jornada tumultuosa mas divertida que é viver. E se ainda não tens filhos, aproveita enquanto podes porque não irás escapar ao clássico «já chegamos?», podes ter a certeza.

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Inês Pereira escreve aqui

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Tema #10 Sarin

18
Nov19

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Entre a missão e o destino

Os primeiros chegaram apressados. Entraram velozes, cegos pela claridade depois de escuros e intermináveis túneis de fuga. Durante a evacuação poderiam talvez usufruir da paisagem que se avistava do lado de lá da barreira de plástico; por agora, teriam de preparar o espaço para o pelotão que não tardaria. Não tardou. Na pressa da chegada, alguns soldados houve que, de tão ansiosos, chocaram contra a barreira e ali ficaram, como que tapetes para os que neles tropeçaram uma e outra vez até se indistinguirem na confusão de corpos. E continuaram a chegar, atropelando-se numa algazarra feliz de quem corre para o seu destino. Quando os últimos apareceram, arquejantes e a espaços, ouviu-se alguém perguntar, talvez o das comunicações, Já chegamos? Já chegamos? É que, não sei se têm noção, mas isto aqui não é muito confortável, e ainda vamos a meio da missão… A resposta não tardou, Não, não chegamos! É preciso mandar vir mais um contingente!

Os do segundo contingente entraram mais lentamente, acomodando-se com força onde cabiam. Olharam em volta e, perante a desorganização, não puderam deixar de pensar nos riscos que corriam. Sabiam que o ataque seria pouco ortodoxo, mas, ainda assim, temiam que os houvessem enganado no Gabinete de Voluntários.

Chegada a ordem de marcha, todos sentiram estar feito o mais fácil - dali em diante a missão seria tão árdua como delicada e, apesar de irmãos de armas, no terreno teriam de trabalhar cada um por si. Voaram votos de boa sorte, o pelotão concentrado no embalo do transporte. De repente, sentiram-se girar, uma avaria, talvez, a rotação a todos deixando lívidos. Quando pensavam não aguentar, o transporte imobilizou-se, as pernas embatendo-se na inércia mas todos vivos.

Ainda zonzos, perceberam sombras e silvos na distância. Um dos mais resistentes perguntou afoito, Já chegámos? Já chegámos? nada mais perturbando a apreensão que os calava. Mesmo assim maltratados, contavam ser lançados em pequenos grupos que atacariam por fases, cada soldado tentando anular as defesas do objectivo até que algum conseguisse entrar no sistema e daí dominar as instalações. Nisto pensavam todos, preparando-se para o seu melhor, quando avistaram o cano de aço a eles apontado. Suspiraram, irmanados também no reconhecimento do fim. Os movimentos com que os haviam enfraquecido tinham sido propositados: não os queriam para ataque. Não. Na ânsia de saírem em missão, haviam-se afinal oferecido para um teste de fertilidade sem óvulos no horizonte.

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Sarin escreve aqui

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Tema #10 Silvana

18
Nov19

Elisa aproximou-se da porta e bateu. Foi um baque tímido e hesitante. Afinal, o que é que a esperaria por detrás daquela porta? Voltou a bater. Desta vez com mais força e confiança. Do outro lado, chegaram-lhe os sons de uma voz entusiasmada de passos firmes.

– Já chegaram? Já chegaram? – ouviu-se do interior.

Elisa respirou fundo, preparando-se para entrar.

Um homem de sorriso no rosto veio recebê-la:

– Querida sobrinha! – abriu os braços para a receber. – Como estás? – sem responder, Elisa deixou-se envolver naquele abraço. – Vieste sozinha, minha querida?

– Sim, tiooooo…

– Óscar, Alice. Tio Óscar. – Agora Elisa seria a Alice que sorria ao suposto tio. – Estavas dizer-me o motivo que fez com que nos visitasses sem companhia.

– Bem…. Tio, como sabe o Edgar, o meu marido não me pode acompanhar porque…

Óscar aproxima-se mais da sobrinha. Coloca-lhe a mão no ombro, fazendo com que ela parasse de falar. Ele assumiu logo o protagonismo.

– Edgar deverá andar muito ocupado com os negócios? – olhou a sobrinha nos olhos, ao – Espera, não me digas que o teu Edgar foi para a frente de batalha…  Que se sacrificou pela pátria! O nosso valente está na Flandres?

– Pai, pare. Não vê que está a deixar a minha prima constrangida e ainda mais triste?

­­Óscar olhou para a filha, sorriu de forma nostálgica e disse: – Tens razão, querida filha – move o olhar em direção à sobrinha e continua, agora para ela. – A tua prima Justina é sempre mais sensível às dores dos outros…

– PAREM!! – O grito chegou da plateia.

Afonso o encenador interrompe o exercício de improvisação que Elisa, Rodrigo e Eduarda tinham estado a fazer.

– Porra, Rodrigo! Não estás a deixar a Eduarda falar. Toda a história está a ser condicionada por ti. Assim o exercício perde o interesse. O objetivo é que todos interfiram para a construção da história.

Rodrigo assentiu e Afonso continuou.

– Elisa, estás com um ar demasiado perdido. Não entraste no espírito da dramatização nem do improviso. Tens de fazer valer a tua visão e ser mais interventiva na história. Eduarda, qual foi o papel que te calhou?

– O de uma jovem com doença mental grave!

– Pois, eu ainda não vi nada disso!! Foquem-se nos vossos papéis, dramatizem!! Às vossas posições, vamos recomeçar.

Elisa sai da sala, fecha a porta da parede improvisada e bate novamente. Lá dentro os gritos histéricos de Justina chegaram aos ouvidos de Elisa:

– Já chegaram? Já chegaram?

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Silvana escreve aqui

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Tema #10 Isabel Silva

18
Nov19

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Éramos três

Já chegamos?

A viagem era de 12 horas

Tenho fome...

Quero ir à casa de banho...

 Vou vomitar...

Já chegamos?

Ainda não, durmam

Fechávamos os olhos e começávamos a dormitar com o trepidar dum automóvel dos anos 70, era o cheiro, eram os amortecedores, eram as estradas, tão diferentes do que são hoje. Era a grande paciência duns pais que 2 vezes por ano, aventuravam-se nesta louca viagem com 3 crianças no banco de trás.

Agora parávamos para comer, umas sandes, uns ovos cozidos, uns pastéis, que curiosamente deixaram saudades, depois parávamos para ir à casa de banho, que como por magia apareciam atrás duns arbustos ou árvores, e volta e meia para vomitar, e isso era em qualquer lugar à beira da estrada, e lá iam as sandes, os ovos e os pastéis.

Eram as férias de quem vivia fora do país, e fazia questão de voltar todos os Verões à terra natal, para matar saudades da família e dos amigos. Eram duas semanas que se tornavam curtas, perante o sacrifício daquela viagem.

Houve avarias impossíveis de arranjar longe de casa com 3 filhos pendurados, houve caminhos e estradas trilhadas a passo de caracol, rezando à Nossa Sra de Fátima pendurada no retrovisor do carro, e a uma Sta Teresinha que vinha na mala do carro, oferecida pela minha avó. Aqui contou muito a fé da minha mãe. E chegamos vivinhos da Silva ao destino, demoramos foi um bocadinho mais.

Mas o ponto alto foi sempre a chegada à nossa santa terrinha em território português. De vez em quando, ouvia-se a pergunta "já chegamos?" "está quase, dorme mais um bocadinho" e finalmente éramos acordados para vermos o sinal de chegada, um moinho, "o moinho" que nos dava a indicação de estarmos quase lá. Mais uns minutos e...já chegamos, já chegamos!!! 

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Isabel Silva escreve aqui

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Tema #10 Lara Monteiro

18
Nov19

Faltava pouco. Muito pouco.

Estavam em viagem há mais de dez horas. Filipe, o marido, vinha agora a dormir enquanto Laura conduzia mais uns quilómetros. O dia estava a amanhecer. Tinham saído da Suíça depois de jantar, para ser mais fácil de fazer a viagem com os miúdos.

Estavam a pouco mais de 50 quilómetros de casa. A sua verdadeira casa. Dizem que a nossa casa é onde está o nosso coração, e o deles pertenceria para sempre ali.

Tinham emigrado há mais de 15 anos. Mas esta seria a última viagem antes do regresso definitivo. As saudades dos pais e de toda a família, a saudade das pessoas, da comida, dos costumes… por muito que até vivessem bem lá, eram emigrantes. Não era ali a casa deles. Não era ali que pertenciam. Não era ali que se sentiam verdadeiramente felizes. E tinham sido os miúdos, Constança e Francisco, que tinham falado aos pais que queriam viver em Portugal. Que queriam estar sempre com os avós e com os primos , porque era isso que mais gostavam… E isso deixara-os a pensar. E perceberam que eles tinham razão...

- Já chegámos? Já chegámos mamã? - Francisco acabara de acordar. Apesar de ser o mais pequeno do clã, era o que mais expressava as saudades e a vontade de vir.

- Não Francisco… mas já estamos muito muito perto!

- Mana, mana! Acorda! Estamos a chegar! - disse Francisco ao fazer umas festinhas na cara da irmã.

- Francisco deixa a tua irmã dormir!

- Oh mãe mas ela vai ficar feliz quando perceber que estamos finalmente a chegar!!

O Francisco tinha razão. Ansiavam todo o ano pelas férias para voltar um mês que fosse a casa. Mas era um mês que passava tão rápido que ficavam sempre com a sensação de que tinha ficado tanto por dizer, tanto por fazer.

Felizmente, isso estava prestes a mudar. Já tinham comprado uma casa ali, na sua cidade. Já tinham também conseguido emprego. Voltavam hoje para organizar as últimas coisas e depois só iriam buscar e organizar as mudanças.

Agora, voltavam para onde eram felizes. E não havia dinheiro nenhum no mundo que pagasse o brilho no olhar que todos eles, mesmo dos que ainda dormiam. Porque quando estamos felizes, nunca conseguimos esconder!

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Lara Monteiro escreve aqui

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Tema #10 Charneca em Flor

18
Nov19

A viagem só tinha começado há 5 minutos e já ela estava a perguntar:
- Falta muito? Falta muito?
- Sim, querida, ainda falta muito. Tenta aguentar a ansiedade.
Continuei a conduzir pelas estradas secundárias ladeadas por árvores frondosas. A bonita paisagem que se via para lá do vidro do carro atenuava ligeiramente o tumulto que eu sentia dentro de mim.
Eu amava muito a mulher que ia a meu lado mas era cada vez mais difícil ouvir a sua voz aflitiva:
- Já chegámos? Já chegámos?
- Só andámos uns 10 kms desde a última vez que perguntaste. Sabes que estamos muito longe do nosso destino. Tens que ter paciência.
O carro continuava a rolar à velocidade possível. E a voz dela voltava-se a ouvir:
- Ai, que eu não aguento estas dores. Vai mais depressa. As contracções estão cada vez mais próximas.
- Não consigo ir mais depressa, minha querida. - apertei-lhe a mão tentando transmitir-lhe a minha força.
Eu ia seguindo o caminho, curva após curva. Parei num cruzamento.
- Já chegámos? Já estamos no hospital?
- Ainda não. Sossega. Fecha os olhos que estamos lá em menos de nada.
Finalmente ela fechou os olhos e adormeceu. Continuei a conduzir para garantir que ela permanecia adormecida. Assim que me foi possível voltei para trás para regressar a casa. A mulher que dormia ao meu lado era a minha mãe. Adorava-a mas era cada vez mais difícil acompanhá-la. Ela sofria de Alzheimer e já não me conhecia. Ela pensava que eu sou o seu marido, o meu pai que já falecera há muitos anos. De vez em quando a mente dela recuava até ao dia mais feliz da sua vida, o dia do meu nascimento. A minha mãe voltava a “sentir" os sinais do parto como se eu estivesse prestes a nascer e só se acalmava com um passeio de carro como se fôssemos a caminho da maternidade. Ao fim de algum tempo, adormecia e quando acordava era, de novo, uma mulher de 80 anos.
Com o coração cada vez mais apertado, imobilizei o carro à porta de casa.
- Mãe, acorda. Já chegámos. Estamos em casa.
- Hã?! Quem é o senhor? Onde é que estou?
- Sou eu, o teu filho.
- Não sei quem és mas pareces simpático. – e a minha mãe brindou-me com um sorriso que me aqueceu o coração.

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Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Charneca em Flor escreve aqui

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tema #8 Miluem

17
Nov19

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Tico & Teco à conversa

Miluem, tens andado armada em carapau de corrida a falar da Tradição do Pão por Deus e até puseste uns versos para ajudar os iniciados na Arte da Pedinchice, mas quando eras pequena, encaravas a tradição de outra forma.

Ajudavas a fazer o bolinho porque eras obrigada, achavas que dava muito trabalho e levava muito tempo a fazer (eras uma pessoa muito ocupada, com muitos afazeres…) mas quando se tratava de comer a massa crua e de os comeres quando saiam do forno quentinhos, os afazeres iam todos para as couves!

No dia 1 de Novembro, nem era preciso dizerem-te que eram horas de levantar, nesse dia o colchão tinha picos.

Logo cedinho com a saca do pão (de pano e de retalhos, pois está claro!) pendurada no braço ias ter com os miúdos da vizinhança ao local previamente combinado, já não eram amadores, tinham uma rota e sistema!

Começavam cedo a bater às portas com a cantilena do costume,

Ó Tia, dá Bolinho?

Ó Tio, dá Bolinho?

Nas casas onde sabiam que as pessoas não davam bolinho, divertiam-se a bater à porta e a fugir, depois ficavam a rir e a espreitar as pessoas a virem à porta ainda em pijama.

Lembras-te das Estaladas de Amor? Algumas foram porque as pessoas te viram e contaram aos teus pais …

Miluem, como criança que eras, não entendias que uma Tradição, não é a mesma coisa que uma Obrigação.

As pessoas não eram obrigadas a darem-te bolinhos, além disso existem pessoas que não tinham e continuam a não ter, possibilidades para gastar dinheiro em coisas extra.

Pelo facto de ser Tradição, não quer dizer que as pessoas gostem ou concordem com ela.

Se as pessoas não gostam e não concordam com certas tradições nós temos que respeitar a postura delas da mesma forma que gostamos que elas nos respeitem.

Agora já adulta consegues refletir sobre coisas que em criança não conseguias, sabes porquê?

Nós (Tico & Teco) amadurecemos.

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Miluem escreve aqui

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