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Desafio de Escrita

Tema #8 Belinha

07
Nov19

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Poupa - Upupa epops

Estávamos as duas sentadas frente ao mar, eu e a folha branca de papel. Ansiosa sem saber. Macia. Pura. Original. À espera do risco que lhe ia acontecer.

Era uma vez uma maçã talvez. E um traço. E outro. Um telhado? E um ovo deitado. Dois gomos de laranja, mais um triângulo bem afiado. Duas linhas de pé.

– O que é?

– Um pássaro.

– E voa?

– É pequeno ainda!

– Deixa-o tentar...

– E se cai da folha e fica magoado? E se tomba ao chão e deixa de cantar? E se morre de desgosto por não saber voar?

– Amanhã, então.

– Ajudas-me?

– Tens de ser tu.

Grande é a vontade de voar! Toca a recomeçar. Cabeça e coração alinhados no lugar. Mas aquela mão desobediente, sem mãe nem pai nem Deus que a oriente. Uma. Duas. Três, toca a riscar. Ai Mão-Cega, ai que jogo mais difícil de jogar! Quatro, cinco, seis, vai de apagar. Rasga-se a folha infernal. Voa a bola de papel amassado em vez. Faz ninho do cesto onde pousou. E o pássaro que havia de ser? Hibernou.

Eis o Inverno já passado. A Primavera a passear. Já corre de novo o risco.

Revisão: A de Asas. B de Bico. C de Cabeça. D de Desafio...

– Mãe, quem desenhou a linha do tempo? Como posso apagar um mau momento?

– Porque não vais brincar?

– Depois...

Cresce um dia igual aos outros de uma semana habitual. A folha de papel levanta voo finalmente. Tímida, primeiro. Quase um segredo para se guardar. Depois, aberta de par em par.

– Olha, mãe!

O pássaro subiu, subiu até ao sol e desceu até ao mar.

– O que foi que lhe deu? Caiu? Morreu? Não aguentou sonhar?

– Não sei, meu amor. Não sei.

– Que mal fiz eu? A cabeça. O bico. Um corpo de pássaro. Um par de asas. A cauda. Duas patas e pernas na perpendicular. Estava tudo no seu lugar. NÃO QUERO MAIS DESENHAR.

– Não chores. O momento ideal há-de chegar. Olha, amor, lá longe!

– Onde? Onde?

– Ali. No futuro!

Um V de Vontade fugia pelo canto da folha azul sem nuvens, em breve apenas um ponto preto no horizonte. Estava vivo o pássaro afinal!

– Onde está ele agora, mãe?

– Na tua Imaginação.

Estávamos as duas sentadas junto ao mar, eu e a criança que fui. E então desenhei-lhe esta carta na areia e assinei com G de Gratidão.

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Belinha Fernandes escreve aqui

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Tema #8 Gabi

06
Nov19

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Está-me cá a parecer que o melhor é não te dizer muito, mesmo quase nada, porque acho que até foste mais ou menos feliz, não quereria estragar isso.

O que é que eu te poderia dizer?

Para teres menos receio, ousares mais…mas depois ainda ousas demais, cais dentro de um buraco e não chegas a adolescente.

Abraça mais o presente e aqueles que estão aí contigo, mas sei que à tua maneira o estás a fazer. Lembro-me da intensidade com que vivia quase tudo, como do centro do universo um pequeno problema me poderia reduzir à minha real insignificância. Poderia dizer‑te que tudo isso passará, não era assim tão mau, um dia não irás recordar nem metade desses dramas.

Talvez o único conselho que te poderia dar é: quando receberes de prenda aquele diário com chave, que ainda tenho por aqui, pensares um pouco melhor no que vais lá escrever, porque aquilo a nível dos temas está uma desgraça, e para teres cuidado com os erros, uma vergonha, afinal já tinhas dez anos, deverias ser capaz de escrever melhor (nem com o acordo ortográfico lá ias).

Pronto, seria só isto. Aproveita os bons momentos, vive-os, sê só um pouco mais corajosa, se conseguires, e se quiseres escrever naquele Diário, esquece, ou adia por um ano ou dois, ou cinco…

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Gabi escreve aqui e aqui

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Tema #8 Triptofano

06
Nov19

Desafio de Escrita dos Pássaros #8 - Uma carta para o Mini Triptofano

(os leitores mais atentos devem ter reparado que esta foto já foi usada neste post!)

Querido Mini Triptofano:

Minha jóia, minha lindeza, meu pedaço de céu, dá-me a permissão para te revelar alguns segredos dos anos que te esperam de forma a que o teu percurso neste mundo louco e instável seja mais fácil e harmonioso.

Deixa-te de merdas, tu não gostas de mamas nem nunca gostarás!

O facto de por vezes ficares a olhar para elas obcecado deve-se a um centro gravitacional específico do tecido mamário, mas nos teus anos vindouros irás mamar sim, mas de pilas, algumas pequenas, outras grandes, e ocasionalmente irás deparar-te com uma de tamanho colossal. Nada temas, foste abençoado com uma total ausência de reflexo de vómito.

Se estás preocupado em se vais ter jeito ou não na nobre arte de chupar pila, deixa-me dizer-te que só tens que te lembrar em colocar os dentes para dentro, como se sofresses de uma retracção gengival manhosa. Isso e de deixá-la bastante babada, mais ou menos como deixas a flauta nas aulas de música, quando tentas inutilmente conseguir extrair alguma melodia do instrumento e não apenas um apito estridente que faz golfinhos morrerem a quilómetros de distância (sim, também não tens jeito para a música).

Ficas também já a saber outro segredo, sexo oral não é quando duas pessoas dizem coisas porcas ao telefone e há uma linha de valor acrescentado envolvida pelo meio. Assim já não vais precisar de perguntar isso à tua professora de português e evitas que ela quase que tenha um aneurisma no meio da sala. Sim, no teu tempo não vão ainda existir aulas de educação sexual.

Quando chegar a altura de seres penetrado analmente pela primeira vez - vulgo levares no cu - sei que irás ter algumas dúvidas! (e não, não te vou dizer quando isso vai ser para não estragar a surpresa) Um cu vai ser sempre um cú, por isso é normal que não cheire maravilhosamente bem. Não te stresses, desde que não tenhas comido uma feijoada no dia anterior e tenhas feito um cocózito antes de ires por-te de frango assado, não há grande perigo. Mas sejamos honestos, uma pila borrada também nunca matou ninguém.

Agora um conselho profissional, se quiseres encantar alguém, besunta-te com um creme qualquer e no rabiosque esfrega um outro com cheiro diferente. Não precisas de me agradecer, pode ser que consigas engatar um velho rico e agora eu não precise de estar a trabalhar na farmácia a levar com os gafanhotos cheios de vírus da gripe dos utentes.

Antes de me despedir de ti quero-te dizer só mais uma coisa!

A penicilina que te vão injectar no rabo por causa da gonorreia que vais apanhar no acampamento de Verão em Porto Covo vai doer horrores, como se fossem vidros a rasgarem-te os músculos desse cu inexistente.

Eu sei que vais dizer que a culpa foi da casa-de-banho pública, mas ambos sabemos que és uma grande puta!

Com muito carinho

Triptofano.

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Triptofano escreve aqui

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Tema #8 3ª Face

06
Nov19

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A casa dos padrinhos já foi a minha.

Pertence à família há gerações e cresci lá até que, sob chantagens e ameaças, convenci os meus avós a mudarmo-nos para Lisboa.

 

Hoje, a madrinha pediu-me para ir ao sótão procurar frascos de vidro para a compota de abóbora, que os CTT não entregaram a encomenda a tempo.

Num canto, coberta de pó, encontrei a arca que costumava estar no meu quarto e onde guardava os brinquedos e as relíquias.

Abri-a e um turbilhão de memórias rodopiou e ganhou vida.

Por lá, encontrei o meu antigo diário e abri-o ao calhas:

Querido diário

Estou muito triste e ninguém me compreende.

Viver aqui, no meio do nada, sempre a ver as mesmas pessoas, está a matar-me.

Hoje, o avô ralhou-me, quando me descobriu no seu quarto a usar as joias da avó. Disse-me que valiam muito dinheiro e poderias parti-las ou perdê-las.

Eu só queria fingir que vivia numa casa grande, numa família rica, como aquelas das novelas que vejo à noite.

Decidi desaparecer para assustá-lo e escondi-me na casa do fumeiro, entre as enormes talhas de azeite.

Entre soluços, acabei por adormecer e abri os olhos já era quase noite.

Por esta altura, o meu avô já deveria estar desesperado. Benfeita!

Iria ficar ali toda a noite (…)

 

Como me recordo desse dia!

Retirei a caneta que pertencia ao diário e resolvi escrever uma carta à criança que fui, como resposta a este episódio.

 

“Cara miúda,

Se te disser o quão errada estavas, não acredites.

Foi preciso sair do Alentejo e viver o sonho, para aprender que nem todas as nuvens são de algodão. Por vezes, desfazem-se em água e desaparecem…

Viver em Lisboa não é assim tão bom.

O horizonte do mundo não se perde de vista como numa seara de trigo e torna-se muito mais pequenino. E nunca tens tempo para ver o por do sol alaranjado, espelhado na água do rio.

No dia em que te escondeste, aprendi uma grande lição.

Ficaste lá só mais alguns minutos. Depois, o cheiro a pão quente acabado de sair do forno de lenha, hipnotizou-te e correste para a avó, a pedir uma tiborna.

Na azáfama do dia, ninguém notou a tua falta.

 

E descobri que, na vida, mesmo nos momentos maus, há sempre o cheiro de um pão quente a sair do forno, que chama por nós.

Só temos que saber inspirar.  

 

(continua...)

 

Tiborna: fatia de pão quente regada com azeite e polvilhada com açúcar e canela

Foto: Euzinha, p'raí com 3 anos

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

3ª Face escreve aqui

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Tema #8 Maria

06
Nov19

Maria,

Permite que te chame assim.

Esse teu gosto pela comida só vai apurar com o passar dos anos. E esse constrangimento de toda a criança gostar de leite e tu não o suportares também te vai passar. Vão querer derrubar-te por seres muito amiga de outros assim como quando te empurraram abaixo do muro da escola por ciumes, mas tu vais levantar-te a cada tombo e vais seguir com a tua vidinha só porque não papas grupos e tens uma vontade própria afinada.

Continua com essa força e vontade de querer levar a tua adiante. Continua a chorar no lugar certo e a perceber que as tuas dores ninguém tas vai tirar por tu as levares em estandarte. Mas acredita que às vezes podes desabafar com os outros para as diminuir. Percebes o que te digo? Acredita sempre nos teus e eles vão lá estar sempre que precisares. Sempre.

Quando te dizem que pareces uma tolinha por estar sempre a rir, ri. Ri muito. Sorri ainda mais. E partilha essas tuas gargalhadas. 

Joga muito futebol. Aproveita esse teu gosto e não te importes que as meninas gostem mais de brincar com bonecas.

Ama a tua família e aproveita todos os momentos juntos. Nem sempre será assim. E no final é daí que te vão sair os valores. Aqueles maiores. Sentidos. E necessários para enfrentares o mundo.

Confia em ti. E gosta muito de ti. Mesmo quando te chamam Olívia Palito, Pau de virar tripas, Coelha, Maria Rapaz... Aprende a gostar de ti.

Cuida das tuas amizades, algumas ficarão para a vida.

Tenta aprender a lidar com esse nervozinho que te caracteriza. Vais ter uma vida para viver com ele.

Diverte-te. E aproveita muito. Ouve a avó quando te aperta a mão e diz "tem juízo rapariga e sê feliz".

Vê mesmo se tens mais juízo nas tuas aventuras,  só para não ficares pendurada nos portões ou presa nas silvas, ou para não andares sempre aos tombos e ficares toda esmurrada nos joelhos! Quando fores maior vais gostar de andar de saia e os teus joelhos vão ter marcas dessas traquinices.

Um dia vais gostar que te chamem pelo primeiro nome. Por razões óbvias ou porque vais deixar de escrever em diários e escrever noutro lado qualquer que não te roube as asas e te impeça de voar.  Nas palavras.

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

A Maria escreve aqui

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Tema #8 A Gorda

06
Nov19

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Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

 

 

Custóidinha meu amor, nada temas na vida minha joia.

Eu sei que já nessa altura eras moçoila pouco arreliada com os problemas da vida, a arrear lamparinas nos gaiatos que apalpavam forte os entrefolhos das tuas amigas, mas quero dizer-te que tudo se irá compor.

Tem cuidado e não dês aquela dentada na Valentina, a gaja é cabeluda e vais ficar cinco dias a cuspir os cavelos que se te ficam agarrados ao aparelho.

Vais tornar-te uma m’lher com um valente par de mamas e isso, minha foca manca, vale mais que uma tromba bem amanhada. Verdade venha à luz, quando um par de tetas imponentes se apresentem perto das beiças de um grunho, ele nem sabe se a gaija tem dentes.

Cuida delas que te vão orientar a vida.

Aquela perna mai curta vai crescer para acompanhar a outra e os maganos vão-sa-ficar aturdidos da mona quando passas pa ir ao pão com as tuas saias curtas e saltos altos de verniz.

Vais perceber que o amor é verde e fica com uma decoração muito mais interessante com um cartão de crédito gold ou em notas.

Manda dar uma volta ao raio que os parta os rapazes que não te pagam o café. É falta de etiqueta e um cheiro a pobre que ninguém suporta.

A Amélia do 6º A vai ficar gorda como uma porca, daquelas mesmo gordurosas e com os dentes a querer cair. Vai casar com o Alfredo Cagaitas, aquele garanhão do 7º D. Afinal o gaijo cresceu para ser um camurço que até apela à regurgitação.

Vais casar com um homem de “H” grande mas baixa estatura. Não te aflijas, deitados temos todos a mesma altura e quando ele paga as contas cresce uns vinte centímetres.

A tua maior amiga é uma palerma do catano mas é boa rapariga e criou um império com compotas que ninguém consegue engolir. Aquela caca tem mais jeito para colar cimente que pa barrar uma carcaça, valha-me nossa Senhora!

És uma m’lher mal instruída pós livros, mas com um conhecimente dos contornes da vida que pouca gente agrega.

Ser coxa agora até tem vantagens, podes estacionar mais perte dos supermercades e do shopping em vez de fazeres o parque todo a parecer que estás sempre a pôr o pé num buraco. Tu vê lá!

Desde miúda que sempre tiveste olho para a vida.

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

A Gorda escreve aqui

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Tema #8 - Catarina Reis

06
Nov19

Catarina escrevo-te do nosso local. Olho para a levada e vejo-te a brincar nela. Vejo as casas de xisto e recordo do tempo que passavas a raspar a argamassa de entre as suas pedras. Que belos bolos de terra eram feitos com aquele pequeno truque.
Oiço a ribeira a correr e lá estás tu a nadar nela até seres incapaz de parar de bater o dente. Recordo as tuas pernas eternamente arranhadas pelas silvas a quem roubavas amoras silvestres.
É lá estás tu a fazer malabarismo nos telhados das casas, só para chegar aos ramos da figueira em buscas dos seus maravilhosos frutos.
Fecho os olhos e vejo uma criança cheia de vida e imensamente contente. Gostava que conseguisse manter essa alegria para sempre. Que o crescimento não te trouxesse uma sensação de diferença em relação aos outros. Que não metesses na cabeça que o peso era o culpado dessa diferença. Seres mais ou menos magra não te trará mais felicidade. Tenta aceitar o teu corpo, a tua mente. Aceita que és diferente. Não o vejas como uma maldição mas sim como uma bênção.
Aceita o teu ser e pode ser que passes ao lado daquela anorexia que tanto sofrimento te trouxe.
Não penses que sou infeliz, porque tal não podia estar mais longe da verdade. No entanto a doença, embora vencida, deixou marcas profundas em mim.
Uma vida sem essa bagagem é o melhor presente que te posso dar, ou talvez não. É o percurso que faz a pessoa e se o meu tivesse sido diferente está não seria eu.

Obrigada
Catarina Reis

ema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Catarina Reis escreve aqui

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Tema #8 - Dona Pavlova

05
Nov19

Olá, tudo bem?

Quero começar esta carta por te dar os parabéns por todas as tuas  conquistas ao longo destes anos. Tudo podia ter sido muito diferente e corrido mal, muito mal, mas acabou por correr tudo bem, muito bem.

Foste uma criança saudável e feliz. Com alguns contratempos, mas que acabaram por se  resolver com o tempo.

Brincaste muito, com um grupo de crianças fenomenal, onde todos eram amigos e foi uma lição para a vida. Sempre foste “maria rapaz” e jogaste muito futebol, jogaste às escondidas, andaste de bicicleta e de skate, jogaste às cartas, ao berlinde e ao prego. Caíste muitas vezes, mas levantaste-te sempre.  Que infância feliz que tiveste e que belo começo de vida, rodeada da família e dos amigos.

 

Nunca ligaste muito à escola, o que ouvias chegava para ires passando, mas acabaste por tirar uma licenciatura naquilo que sempre quiseste  e com a média que desejaste. Neste momento, tens o emprego que sempre quiseste e sonhaste. Custou, mas sem esforço e dedicação nada vale a pena...

 

Sempre me disseram que  na vida, fazer o que se gosta é caminho andado para se ser feliz. É o que tenho tentado fazer e digo-te que és uma adulta satisfeita e feliz com a vida. Quem diria!!!

Não me arrependo de nada do que fiz e poucas coisas fazia de diferente, por isso, continua  esta longa jornada a divertir-te e a sorrir (como sempre fizeste).

 

Beijos grandes,

Da tua  “eu quarentona”

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Dona Pavlova escreve aqui

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Tema #8 - A Caracol

05
Nov19

Querida Daniela, 

Não tenhas medo. 

Não tenhas medo de ser desengonçada, que gozem contigo por teres três pés esquerdos ou que se riam da tua passada enquanto corres. 

Ninguém é perfeito, ninguém faz tudo bem e ninguém quer que sejas perfeita. Vais descobrir que o humor é um forte aliado e, antes que gozem contigo, serás tu a fazê-lo. Vais rir muito de ti e isso vai dar-te a altura que não tens e encobrir a coragem que te falta. 

Nunca te envergonhes de ti, das tuas tropelias e das tuas asneiras: a genuidade é coisa rara nos dias que correm e ser ainda algo que muito boa gente não aprendeu. 

Deixa-me, contudo, alertar-te: nem toda a gente vai gostar de ti. Não fiques triste e não tentes bater no ceguinho para ele ver como és fixe. Isso é ser parvo e perder tempo. Não sejas parva e não percas tempo. Quem estiver contigo, vai fazê-lo porque gosta genuinamente de ti não porque te quer agradar. 

Da mesma forma, não estejas do lado de alguém só para lhe agradar ou porque não gostas de ser desagradável. Não faças com os outros o que não gostavas que fizessem contigo, mesmo que isso te afagasse o ego. 

Vais aprender muito ao longo da tua curta vida. Como num prato de degustação, guarda o melhor para ti. À informações que nem toda a gente precisa de saber, por vezes basta a superficialidade e só ela já será suficientemente difícil de engolir para quem a ouve. 

Não duvides de ti. Nunca. És mais forte do que aparentas, mais inteligente do que te julgam e com mais estofo do que o teu estômago julga. Se algum dia duvidares disso, volta atrás no tempo e lembra-te dos papões que transformaste em pilhas de roupa lavada e cheirosa, devidamente arrumada nas gavetas da memória. Não foi um trabalho fácil, mas será algo que te permitirá, no futuro, consultar o passado sem grande dor e sem o peso da revolta. 

Não compres guerras que não são tuas. Não herdes quesilías que não te envolveram. Não culpes ações por situações que não viveste. 

Mantém sempre presente que o passado e as memórias fazem parte de cada personalidade e que dores, por muito que nos doa, não se comparam nem se medem como farinhas para um bolo. 

Por fim, minha querida, o teu pior medo, aquele que guardas só para ti e que insistes em nunca verbalizar, vai tornar-se  real. Não o temas, não lhe faças frente, não culpes ninguém. Ele vai levar-te tudo o que tens como certo, mas vai também ensinar-te a desenvecilhar sozinha. Vais ficar sozinha, mas vais perceber que não tens que estar sozinha e que há muros em que um pequeno empurrão para passar o outro lado é bem vindo.  

Não negues ajuda quando precisares dela. Não queiras levar a carga toda sozinha, deixa os super heróis para a Marvel. Não é vergonha cair e precisar de ajuda até conseguir equilibrar os joelhos. 

Sê grata, não sempre, mas para sempre. Por quem tens contigo, porque tem ensina todos os dias, pelo que ja aprendeste, por tudo o que te ainda te falta descobrir. 

Acima de tudo, lembra-te: mesmo no meio do caos é possível encontrar resteas de felicidade, humor e motivos para rir. Não tenhas medo de rastejar para os encontrar, são eles que vão valer a pena. 

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Sê feliz, nem que seja só um bocadinho, todos os dias. 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

A Caracol escreve aqui

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Tema #8 Inês Norton

05
Nov19

Sou a do meio com franja esta foto foi da primária no Colégio Feminino Françês em Lisboa ,algures nos anos 80

Sou a do meio com franja esta foto foi da primária no Colégio Feminino Francês em Lisboa ,algures nos anos 80

Minha querida,

Há tanto tanto que te quero dizer que nem em 400 páginas caberia, quanto mais 400 palavras,por isso vou tentar resumir ao máximo aquilo que é fundamental que saibas desde já.

1º) Tu és muito mais inteligente do que te dás crédito, por isso pára já de te achares menos que os outros, e ainda que não fiques agarrada ao sucesso académico, aproveita o gosto pela leitura e não dependas de gostar ou não do professor para conseguires bom aproveitamento, cria o teu sucesso investiga a matéria que não compreendas para seres capaz de fazer tudo o que quiseres, tu provaste isso na faculdade, por isso tu és capaz provaste-o a ti mesma, mas para que não seja tudo tão esforçado começa agora a provar-te que és capaz.

2º ) Mantém esse coração generoso e empático porque é das maiores qualidades que tens mantido nesta tua vida. Não acredites cegamente nas palavras mas vê os sentimentos das pessoas pelas acções, protege esse teu coração de lágrimas amargas que já chorámos, mas não te percas nem te envenenes.

3º) Nem tudo o que parece é, e por muito duro que seja esta verdade, aprende desde já que a tua força, o teu pilar, a única pessoa com quem podes contar és tu mesma, porque assim evitas tantas desilusões e rasteiras pregadas pela vida, e não estranhes às vezes quem mais amamos são quem mais nos desilude.

Por isso não te esqueças tu és um ser humano muito especial, és forte, guerreira, compassiva, inteligente, culta e sociável, não te menosprezes e quando a vida te abalar lembra-te do que te levou 42 anos a descobrir. E mais importante, ama-te ama-te muito sempre.

Beijos, do teu eu maduro,

Inês d’Eça

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

Inês Norton escreve aqui

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