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Desafio de Escrita

Tema #14 Fátima Cordeiro

18
Dez19

Intervenção da narradora-autora: Passou-se uma semana. Matilde estava em coma na “Cidade dos Arcebispos”. Depois de dois dias a morar num quarto sem casa de banho, barato e malcheiroso, com Constante, Guilherme decidiu regressar àquela cidade do Litoral que muita gente pensa que fica no Interior. Já Guillaume arrumou nesses dias as malas para voltar para França. Arrumou e desarrumou: havia alguma coisa que o fazia voltar mais um pouco. Provavelmente esperava voltar a encontrar Guilherme, o que realmente aconteceu nessa Sexta-feira.
Tudo aconteceu como da primeira vez: Guillaume ia de carro, a contar passar o dia na Cidade dos Estudantes, quando viu Guilherme no passeio. Perguntou-lhe como estava. Mas o carro parado no meio da estrada causou confusão (de novo) e ele teve de o ir estacionar. Então Guilherme convidou-o para tomar umas cervejas – que seriam mais uma vez pagas por Guillaume, claro. Entraram no café e pediram as primeiras duas. Guilherme então desabafou:
Guilherme: A minha esposa! Está na “Cidade dos Arcebispos” em coma depois de termos estado envolvidos num assalto. Raio de fim-de-semana romântico! Tenho um cão glutão que só me mete em sarilhos. Estou só. Não nasci para isto! Preciso de ter uma mulher para me preparar a vida. Não tenho jeito para cuidar dos outros, só para ser cuidado. Percebe-me?!
Intervenção da narradora-autora: E mais uma vez, a confusão de línguas e significados se interpôs no diálogo entre os dois homens. Guilherme precisou de repetir devagarinho, por duas vezes, até que Guillaume percebesse que ele tinha a esposa em coma e não sabia tratar de si nem de ninguém.

Tema da semana: Não nasci para isto

 Fátima Cordeiro escreve aqui

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Tema #14 Alexandra

18
Dez19
O relógio toca todos os dias às 7 da manhã.
Não nasci para isto.
 
Há quem diga que o dia devia ter mais do que 24 horas, eu concordo, mas só na parte da noite, aquela noite em que se está mesmo a dormir,  mais 4 ou 5 horitas era o ideal.
 
 
Levanto-me, preparo-me e vou trabalhar.
Não nasci para isto.
 
Há quem diga que adora trabalhar, eu não, não o escondo. Nem é o trabalho em si, que não adoro mas faz-se, é os horários, os prazos, os chefes, alguns colegas... 
 
 
Em casa também há trabalho a fazer.
Não nasci para isto.
 
Gosto de cozinhar, até consigo passar a ferro sem sacrifício, mas o resto... Aspirar, lavar, limpar pó, tratar da louça, da roupa... 
 
 
A vida tem muitas coisas aborrecidas
Não nasci para isto.
 
Ele é impostos, obrigações, deveres... até socializar com algumas pessoas é um custo.
Depois há imensas coisas más a acontecer por todo o lado e as menos más são poucas. Boas acontecem algumas, mas não chegam para compensar o mal das outras.
 
 
Podia continuar aqui a chorar a minha vida desgraçada, mas...
Não nasci para isto.
 
Prefiro reter só o lado bom, e se tenho que conviver com o mal, não lhe permito que ocupe mais tempo do que o estritamente necessário.
 
 
 
Declaração de interesses.
Almas aladas mal intencionados dirão que a culpa deste tema é minha, mas eu somente lamentava a minha sorte por me ter metido neste desafio com o desabafo "Eu não nasci para isto", quando alguém soltou um "olha, isso é um bom tema". 
E pronto, cá estamos.

Tema da semana: Não nasci para isto

Alexandra escreve aqui

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Tema #14 Sónia Figueiredo

18
Dez19

Dando continuação ao desafio anterior

Lady não queria acreditar naquilo que estava a acontecer e olhou para mim e perguntou:

- E agora?

- Vou ver um filme, depois decido

Depois de ver um filme acabei por adormecer, afinal tinha sido um dia cansativo. Quando acordei parecia que tinha tido um sonho em que teria colocado numa gaiola um bando de pássaros e quando olho para a Lady, percebo que ela olha para mim com os olhos muito abertos e lembro-me que não foi um sonho. Eu tranquei literalmente aquela malta toda numa gaiola. 

E porque fiz isto?

As coisas começaram logo com problemas, só problemas, porque alguém se lembrou de me dar um estalo por amor para que esse momento me marcasse para a vida ou na minha cara. Ainda não descobri.

Depois veio a Beatriz e diz que não, que não foi bem assim, mas então em que ficamos?

Diz que me mandaram para trás do Hitler, e ainda achavam que podíamos ter uma história de um amor e uma cabana, mas o homem era o frigorífico em pessoa e com aquele bigodinho, não dava.

Depois veio a Constança, impingir-me compota de abobora e eu sempre a dizer que precisava era de uma máscara capilar, mas se não comprasse o raio do doce, mandava-me de castigo para escrever uma carta à minha criança e lá comprei a compota.

Comi a compota e acordo numa ilha sem memória e nua. Que tinha a compota? Aqueles pássaros, sempre eles. Vá que se arrependeram e lá me foram socorrer e me acalmaram e um só perguntava: já chegámos, já chegamos? E eu, só queria chegar a casa e parar de o ouvir.

Mas quando chego novamente a casa, a gata começa a falar comigo, a contar-me como tinham sido os dias que estivera na ilha, para me por a par de tudo, visto eu ter ficado sem memória. Mas depois percebi, para meu espanto que a gata falava. Os gatos falam? Será por causa da amnésia que não sei? E só se queixava que os pássaros não se calavam durante todo o tempo que estive na ilha deserta até chegar a casa.

Diz que estavam a escrever um novo final do meu filme favorito, e fiquei furiosa, porque ninguém muda o final daquele filme e foi então que os tranquei a todos numa gaiola.

E agora estão lá e não sei o que lhes fazer. 

Sabes que mais Lady? Vamos fazer as malas, e vamos passar uns dias à Lapónia e eles ficam onde estão e quando voltarmos logo se vê.

É que não nasci para isto, definitivamente. Vamos, vamos e para a semana logo decido de cabeça fria o que lhes faça.

Laponia.jpg

Tema da semana: Não nasci para isto

Sónia Figueiredo escreve aqui

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Tema #14 Miss X

17
Dez19

Nasci para ser mulher

E não para servir até cair

Serviçal, escrava, talher,

Sacrificada até no sorrir.

 

Não nasci para estar

Quieta, submissa, calada,

Nasci para lutar

Não fazer parte da manada.

 

Não nasci para isto

Para esta condição de mulher

Que nos reduz a um imprevisto

Objecto, flor, malmequer.

 

A desordem dos conceitos

Que nos atiram para lermos

Há que despir preconceitos

Não nascemos para ser menos

 

As asas não me prenderão

Sou livre, estrela, universo

Simetria de amor, razão

Astronauta, o meu inverso.

 

Vou para onde quero estar

Seja no Verão ou no Inverno,

Pela terra ou pelo mar, 

Sou mulher no meu eterno.

 

Neste silêncio ergo a voz

Que sempre quiseram calar

Contra a desigualdade feroz

Nasci para contra ela marchar.

 

Tema da semana: Não nasci para isto

 Miss X escreve aqui

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Tema #14 Catarina Reis

17
Dez19

Entrei no elevador com os meus gémeos e a minha tia de canadianas. O elevador estava relativamente cheio e ficamos logo à porta. Ao lado um par de jarras a impossibilitar o acesso aos botões. Pedi ao Santiago para pressionar o andar em que iriamos sair. O rapaz tentou mas como as duas senhoras nem se mexeram um centímetro não conseguiu. A minha tia que era a pessoa mais próxima tentou alcançar o botão. Com o movimento uma das canadiana fugiu-lhe das mãos. Aterrou bem perto do pé de uma das ditas senhoras que nos lançou um olhar bastante reprovador. Não fez qualquer movimento para ajudar a apanhar o objeto embora tivesse espaço de sobra para o fazer. O Santiago baixou-se e lá agarrou na parte metálica para a voltar a colocar de pé. Eu desejei que sem querer acertasse em cheio na senhora. Sinceramente desejei.

 

Sei que vão pensar que sou má mas a verdade é que fico possessa com esta sociedade em que vivemos atualmente. Parece que a humanidade está a desaparecer. Olho em volta e vejo pessoas que só pensam no próprio umbigo sem qualquer preocupação por terceiros. Não existe respeito por ninguém, pisam-se uns aos outros por um lugar melhor. Vendem a sua integridade por truta e meia. Insultam outros só porque sim.

 

São pessoas maravilhosas nas redes sociais com correntes de solidariedade para aqui e para ali mas na vida real viram a cara a quem realmente precisa.

 

Vejo tudo isto todos os dias. Pais que não aceitam que os filhos tenham um colega diferente. Outros que não aceitam que os filhos não são uns anjos. Colegas que sobem à custa de denegrir os outros.

 

Assisto a tudo isto a fervilhar por dentro. Sinceramente não nasci para isto.

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Catarina Reis escreve aqui

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Tema #14 Ana Sofia Neves

17
Dez19

Sempre achei que tinha nascido para isto, mas com tudo o que se tem passado, cada vez me convenço mais que se calhar não...

Ser Professor

Ser professor é ser artista,

malabarista, pintor, escultor, doutor,

musicólogo, psicólogo...

É ser mãe, pai, irmã e avó,

é ser palhaço, estilhaço.

É ser ciência, paciência...

É ser informação, 

é ser ação.

É ser bússola, é ser farol.

É ser luz, é ser sol.

Incompreendido?... Muito.

Defendido?... Nunca.

O seu filho passou?...

Claro, é um génio.

Não passou?...

O professor não ensinou.

Ser professor...

é um vício ou vocação?

É outra coisa...

É ter nas mãos o mundo de 

AMANHÃ.

AMANHÃ

os alunos vão-se...

e ele, o mestre, de mãos vazias,

fica com o coração partido.

Recebe novas turmas,

novos olhinhos ávidos de

Cultura

e ele,  o professor, 

vai despejando

com toda a ternura,

o saber, o orientação,

nas cabecinhas novas que 

amanhã

luzirão no firmamento da Pátria.

Fica a saudade...

a amizade. 

O pagamento real?

Só na eternidade... 

 

Autor desconhecido

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Ana Sofia Neves escreve aqui

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Tema #14 Triptofano

17
Dez19

Tossiu compulsivamente enquanto apagava furiosamente mais um cigarro no cinzeiro.

O médico já o tinha avisado que devia parar de fumar, porque a sua saúde tinha-se degradado bastante nos últimos tempos, apesar de ter apenas cinquenta e poucos anos.

Além da tosse havia uma dor de cabeça persistente que o acompanhava e uma sensação de estar sempre enjoado. Até a pele estava diferente, mais húmida e avermelhada. Se não soubesse que tal era impossível ainda consideraria a hipótese de poder estar grávido.

É do tabaco dizia o médico, mas ele sabia que o verdadeiro culpado eram os nervos que o consumiam desde a misteriosa doença da mulher.

Um par de anos mais nova que ele, era uma mulher insossa, sem graça, completamente subjugada e incapaz de dar um passo sozinha. Tinha-se casado com ela porque os pais o convenceram que uma mulher de boas famílias era um óptimo cartão de visita e iria-lhe trazer alguma estabilidade, mas desde o início que ele percebeu que não tinha nascido para aquilo.

Antes de celebrarem o primeiro ano de casamento já ele se tinha envolvido com mais de uma dúzia de prostitutas com quem fazia coisas que a mulher nem imaginava existirem. Gostava especialmente de urinar dentro delas depois de se vir. Nem a todas agradava essa prática, mas ele era o cliente e se ele pagava elas só tinham que obedecer.

Os anos passaram e ele continuou a envolver-se com mulheres, cada vez mais frequentemente, chegando ao cúmulo de um dia, num estado de bebedeira e tesão descomunal, ter levado uma para casa e fornicado-a no quarto de hóspedes, enquanto a mulher dormia placidamente, a estúpida!

Há cinco meses atrás começou a desconfiar que algo de estranho se passava com a esposa.

Ela começou a esquecer-se de lhe fazer o jantar, de lhe lavar a roupa, de comprar os maços de cigarros que fumava diariamente. Primeiro pensou que pudesse estar a orquestrar algum tipo de greve doméstica, mas quando ela por alegado esquecimento deixou um bico do fogão aceso e quase mandou a cozinha pelos ares percebeu que a situação era mais séria do que uma simples birra.

Passou a chamá-lo pelo nome do pai, que tinha falecido há mais de uma década, e mais que uma vez chegou-se a esquecer de quem ela própria era.

Nenhum médico conseguiu perceber qual era a doença de que ela sofria. Uns falavam de demência, outros de Alzheimer, uma neurologista franzina até chegou a colocar em cima da mesa a possibilidade de uma doença auto-imune que devorava neurónios e sinapses.

E ali estava ele, a tratar dela, daquela mosca-morta, daquele pedaço de merda que lhe estava agarrado ao sapato há tantos anos. Só não a deixava porque dependia financeiramente dela, e não fosse a mãezinha que ligava todos os domingos para saber da filhinha coitadinha já a tinha espetado num lar. Ele não tinha nascido para ser um mártir do casamento.

A mulher estendeu-lhe um café com os olhos vazios.

O médico tinha recomendado que ela fizesse ao máximo as rotinas a que estava habituada, de forma a que o cérebro não se desligasse completamente. E algo que ela ainda era capaz de fazer todas as manhãs era o café preto que ele bebia acompanhado de três cigarros.

Naquele dia sentia-se com mais frio do que o habitual. Talvez estivesse a chocar uma gripe. Sorveu um grande gole do líquido castanho na esperança de se aquecer, mas ao invés da temperatura corporal aumentar começou a sentir uma dor forte no peito.

Uma dor que começou a irradiar para o braço, uma dor gigantesca, opressiva, como se um elefante o estivesse a esmagar. Com a mão no peito tentou-se levantar mas as pernas falharam-lhe e caiu no chão.

Olhou para a mulher que o mirava inexpressivamente e arfou desesperado:

Liga para o 112, rápido!

Ela olhou para ele e quase num sussurro respondeu-lhe:

Desculpa amor, mas não me lembro do número!

Enquanto observava os últimos resquícios de vida a abandonarem o corpo do marido sorriu timidamente. Tirou do bolso do avental o frasco de cianeto com que nos últimos meses lhe tinha envenenado pacientemente o café e reviu mentalmente o plano.

Esquecer-se convenientemente do telemóvel em casa para nenhum satélite maluco descobrir por onde tinha andado. Apanhar um autocarro pagando o bilhete com moedas e ir até ao centro comercial da periferia da cidade. Ir a uma das casas de banho e despejar na sanita o resto do cianeto e colocar num dos baldes do lixo o frasco. Voltar para casa e "descobrir" o marido morto, ligando apavorada para o 112.

Um arrepio de prazer percorreu-lhe todo o corpo perante a antecipação do que ia fazer.

Ela tinha nascido para aquilo!

 

Tema da semana: Não nasci para isto

Triptofano escreve aqui

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Tema #14 Lara Monteiro

17
Dez19

Não nasci para isto.

Não nasci para sofrer.

Não nasci para ser mal tratada pelos meus pais toda a minha infância e ser ignorada por eles toda a vida.

Não nasci para perder a minha avó quando mais precisava de uma mãe como ela era.

Não nasci para sofrer a perda da minha irmã com apenas 10anos de idade, levada pelo maldito cancro.

Não nasci para ser espancada pelo meu primeiro namorado.

Não nasci para ser torturada pelo meu primeiro marido, depois de me ter conseguido libertar do primeiro homem que me tinha tratado mal.

Não nasci para o meu patrão me assediar, me chantagear quase todos os dias.

Não nasci para ter medo de andar na rua, ter medo de me encontrar com os homens que têm restrição de se aproximarem de mim mas que a justiça nada faz se isso acontecer.

Não nasci para ter o desgosto de não conseguir ser mãe.

 

Não nasci para isto. Mas é só isto que tenho.

Tema da semana: Não nasci para isto

Lara Monteiro escreve aqui

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Tema #14 Peixe Frito

17
Dez19

Posso aparentar ser desastrada, distraída, tótó por vezes e loira não só por fora mas também por dentro, com as partilhas que habitualmente faço com os meus leitores. Brincalhona para com terceiros e constantemente na paródia, aparentemente não levando nada a sério. Mas se querem saber, eu sou muito fora dos moldes da sociedade. E não digo isto porque é moda ou da boca para fora. Quem me observa, pareço desenxabida, ar de quem não parte um prato e de sonsa sem sal, mal sabe que quem vê caras não vê corações e que, por detrás desta cara de anjo, na verdade é uma pele de diabo, mente observadora e perspicaz que está constantemente a fervilhar de ideias – boas ou más, isso depende para onde pende a parvoeira – de paladar refinado acerca de tudo na vida. Não nasci para enquadrar em uma sociedade onde o outro é oprimido, constantemente têm de provar o seu valor ou acha que têm de se enquadrar, não vendo que é prisioneiro pelo seu próprio pé e vontade, com medo de arriscar a ser ele verdadeiro e esticar as asas e voando para longe, onde os outros fiquem em raios que os partam.

Primo pelo meu sentido de humor sem maldade mas extremamente sarcástico, e optei por me rir invés de chorar, embora isso incomode. E eu não me ralo com isso. Luto para ser autêntica comigo mesma, seguir as minhas vontades e trilhar o meu caminho pelos meus ideais, valores e objectivos. Se ao me expor, contando parvoeiras do dia-a-dia, que muitos também vivem mas não ligam, por estarem ligados à tomada e de cérebro dormente – sem julgamentos, são escolhas das pessoas – corro o risco de ser rotulada de coisas menos verdadeiras, é algo que não me assiste, pois nada tenho a provar. Gosto de incutir a minha visão de humor em coisas corriqueiras, pois tristezas, já tive a minha dose.

E esta sou eu. Franca. Honesta. Directa. Crua mas de coração quente e sempre pronta a ajudar. Não nasci para não ser eu e viver pelas expectativas de terceiros, mas nasci para Ser. Se isso faz de mim a ovelha loira ou negra do rebanho, não faz mal.

Sejamos autênticos e não portadores de ilusões e formatações externas, mas sim internas.

Nascemos para viver e não para usarmos véus na alma, cosidos pelas mãos de outros.00

Tema da semana: Não nasci para isto

Peixe Frito escreve aqui

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Tema #14 3ª Face

16
Dez19

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Sem dúvida que entre uma loja e uma unidade de psiquiatria, não há grande diferença.

Cada cliente que entra na loja dos meus padrinhos parece ter uma pancada. Ora são demasiado simpáticos, ora nem abrem um sorriso. Ora se mostram indecisos sobre o que escolher, ora são tão teimosos que não admitem uma pequena sugestão.

 

Não me sai da cabeça a D. Mariana. Quando subiu o poial, já trazia a birra do filho presa pelo braço.

Vinha esbaforida com os gritos do miúdo. De tanto o levantar do chão, já tinha uma manga do casaco de malha quase pelo dobro.

Dentro da loja, a cena piorou. O fedelho esperneou, gritou e acabou por derrubar a caixa das gomas.

Até eu já estava a ferver!

 

A D. Mariana, vira-se e grita!

- Chega! Estou farta! Fica aí que vou desaparecer para não te aturar mais! Não nasci para isto!

 

O resto eu não me recordo!

Desde que vim para o Alentejo que não voltara a ter uma crise. Daquelas que chegam de rompante, sem sintomas prévios…

Até abandonei a medicação.

 

Quem estava na praça diz que voei e só não a matei porque rapidamente acudiram à porradaria.

 

Da urgência passei para a enfermaria da psiquiatria e aqui continuo.

O psiquiatra chamou-lhe detonador.

Numa das nossas sessões, revelei que as palavras da D. Mariana foram iguais às últimas que ouvi da minha mãe.

Com a diferença que eu chorava por causa de uma otite.

Ela, sem conseguir dormir, levantou-se, vestiu-se e gritou-me:

-  Chega! Estou farta! Fica aí que vou desaparecer para não te aturar mais! Não nasci para isto!

 

 Não regressou.

Mas as suas palavras ficaram para sempre comigo, apesar de me garantirem que fugiu com um namorado e não por minha causa.

 

Há mulheres que não nascem para ser mães, só que o descobrem tarde demais.

Os filhos, esses, ficam nascidos. Com demasiado peso para uma infância abandonada.

Muitos deles são clientes de lojas, como a minha.

Outros estão atrás do balcão.

Como eu.

 

Entre uma unidade de psiquiatria e uma loja não há grande diferença, garanto!

 Qualquer um lá pode frequentar.

Até porque a doença mental nunca precisou de convite para trespassar qualquer porta.

 

Tema da semana: Não nasci para isto

 3ª Face escreve aqui

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