Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desafio de Escrita

Tema #10 Sónia Figueiredo

20
Nov19

Depois daquele sonho que estava a ter na ilha, o despertador levou a melhor e levantei-me, como todos os dias a rotina era a mesma, tomar duche, vestir-me, pequeno almoço e rua.

Lá em baixo já estava o meu colega de trabalho e de boleias à minha espera.

Contei-lhe o sonho que tinha tido...como julgava ter estado no filme a Lagoa Azul.

Ele ouvia atentamente as minhas descrições e disse que eu tinha era que fazer uma viagem.

Eu disse que não me sentia preparada para viajar sozinha.

Chegamos ao trabalho, o dia foi passando…e quando chego a casa vejo junto à porta no chão, uma caixa.

Estranho, a caixa não tem remetente...apenas o meu nome...ainda coloquei o ouvido para ver se ouvia alguma coisa...não fosse ser uma bomba.

Abri cuidadosamente a caixa e lá dentro estavam quatro envelopes numerados e uma venda. O envelope com o número um dizia começa por aqui e abre.

Abri, e lá dentro estava um cartão e dizia o seguinte:

Queres Viajar? Se sim, passa para o envelope seguinte

Não resisti e abri o segundo, que dizia:

Comigo? Pensa quem te falou hoje em viajar...Sim, sou eu, não te assustes. 

Mas porque quer ele viajar comigo?

A resposta a esta pergunta estava no envelope número três:

Gostaria de te surpreender e proponho-te um exercício de confiança. Aceitas? Se sim abre o envelope número quatro.

Abri o último envelope que dizia:

Se aceitares este desafio, amanhã, apesar de ser Sábado, estarei à hora do costume à tua porta. Só te peço que não faças perguntas. Se tiveres algum tipo de receio, fica em casa, mas a partir do momento que entrares no carro e colocares a venda, terás de ir até ao fim, ou não terá valido a pena o desafio que te proponho.

Fiquei perplexa a olhar para os envelopes e para a venda e não sabia o que dizer, pensar ou sequer fazer. Mas que pássaro mais louco me saiu.

Ele não dizia para levar mala, logo não seria para passar a noite, também não deveria ser muito longe pois iríamos de carro, o que seria?

Mal dormi essa noite, sem saber o que fazer...Mas à hora habitual estava de saída, sendo que desta vez levava uma venda na mão.

Entrei no carro e ele disse: Boa escolha, não te irás arrepender, mas aquele sorriso malicioso, não me tranquilizou assim tanto.

Senti o carro a arrancar e ele disse para explorar todos os sentidos que não a visão e assim fiz. Tentando perceber para onde estava a ir...mas não sabia…não fazia ideia, até que o carro parou e eu perguntei:

Já Chegámos? Já chegamos?

Sim, mas ainda não podes tirar a venda.

Porquê  

Tens que esperar pelo tema do próximo desafio 

Maldita passarada

 

Continua…próximo desafio…

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Sónia Figueiredo escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

Tema #10 Catarina Reis

20
Nov19

Um pai e uma mãe tem a magnifica ideia de fazer um passeio de carro com os seus pequenos. Na sua cabeça idealizam uma viagem épica, daquelas que ficam na nossa memória para todo o sempre. Os pais anseiam por tempo de qualidade em família e estão certos que a viagem será óptima para este propósito.  O dia chega finalmente. O pai faz malabarismos para enfiar as três malas, duas mochilas, um saco de calçado, um caso de brinquedos, jogos de tabuleiro, o carrinho, chapéus de chuva, capas para a chuva na bagageira. Finalmente consegue mas sabe que terá que ter cuidado na hora de abrir o porta bagagem para não ficar soterrado. 

Começa a colocar os rapazes nos carro enquanto a mãe tenta partilhar o seu lugar no carro com sacos e sacos de comida. Finalmente estão todos dentro do carro, com cintos postos e iniciam a viagem da sua vida. Dez minutos depois:

- Ainda falta muito?

- Ainda agora saímos de casa. Vamos demorar um pouco.

- Ainda falta muito? - diz passados mais uns cinco minutos

- Eu disse que ia demorar muito.

- Tenho fome.

- Toma uma banana.

- Eu também quero.

- Eu também.

- Continuo com fome.

- Tenho pão.

- Eu quero - dizem todos ao mesmo tempo

- Posso comer mais alguma coisa.

- Agora não.

- Ainda falta muito.

- SIM - dizem os pais 

- A que horas vamos chegar.

- Ainda faltam mais de duas horas. 

- Duas horas!!!! Isso é muito tempo.

- Vamos jogar ao jogo do silêncio.

- Não isso é uma seca.

- Então vamos procurar carros.

- Eu escolho vermelho.

- Eu preto. Está ali um, e outro...

- O mano está a ganhar... - choraminga um

- Acabou o jogo. Que tal tentarem dormir.

- Estamos quase?

- NÃO! Durmam um pouco e chegamos num instante.

- O mano encostou a cabeça na minha.

- Não, não.

- Sim, sim.

- Não, não.

- SILÊNCIO. Se eu oiço mais um pio ficam de castigo até terem barba.

Silêncio durante dez minutos. A mãe olha para trás e vê que os rapazes adormeceram. Suspira de alivio sabendo que o resto da viagem será calma.

- Mãe já chegamos?

- Não.

-Mas tu disseste que se eu dormisse chegávamos.

- Isso era se tivesses dormido mais tempo.

- Tenho fome.

- Eu preciso de uma casa de banho.

- A sério?

- Estou aflito. Já chegamos.

- Aguenta um pouco.

- Ainda falta muito. Estou mesmo aflito.

- Eu também.

- Eu tenho muita fome.

Pai e mãe trocam olhares e prometem nunca mais tentar tamanha façanha.

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Catarina Reis escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

Tema #10 Bla Bla Bla

19
Nov19

Já chegámos? Já chegámos?

A SÉRIO QUE JÁ CHEGÁMOS??? É mesmo isto o INFERNO???

Eu sabia que ia encontrar toda a gente quando chegasse aqui mas não esperava encontrar mesmo toda a gente...

Sim, são vocês! Estão cá TODOS!!!

Ainda mal lá tinha posto os pés e já vos estava a reconhecer a todos.

O Hitler andava a fugir da malta que tinha ficado passada por ter ficado uma eternidade à espera no purgatório graças à fila que ele havia provocado.

Miluem continuava a barafustar que queria o livro de reclamações já que ainda não tinha chegado a hora dela.

IMSilva e a Catarina Reis estavam eternamente aflitas para ir à casa de banho mas a casa de banho estava sempre ocupada pelo Triptofano que se masturbava no chuveiro embora volta e meia lá escorregasse no sabonete.

A Gorda estava mesmo balofa e era com dificuldade que andava a fugir da Custódia e da Clotilde que não paravam de lhe atazanar o juízo.

A Peixe Frito tinha sido literalmente transformada em peixe e estava a ser assada pelo tio do Sapo, o Tio Jacinto.

A sobrevoar o Inferno andavam oito abutres... eram a Alexandra, a Caracol, a Drama Queen, a FatiaMor, a Just Smile, a Magda L. Pais, a Mula e o Coiso, que até no Inferno adotaram a forma de PÁSSAROS necrófagos para nos bicarem até na morte.

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Bla Bla Bla escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

Tema #10 Miluem

19
Nov19

Como bons portugueses que somos, vamos ao um casamento de família nem que seja onde judas perdeu as botas, vamos nós e metade da casa, não vá o diabo tecê-las!

Para os casamentos deste ano resolvemos alugar uma carrinha de 9 lugares (temos ido em dois carros mas passamos o tempo à procura uns dos outros, assim ao menos perdemos-nos todos juntos).

Quando começaram a chegar as malas para carregar é que o pessoal se apercebeu do sentido da lógica na matemática, se numa carrinha do tamanho das outras, há mais lugares para passageiros, significa que há menos lugar para a tralha!

Felizmente o tio Arménio homem com prática em viagens, tem um “malão” daqueles de por em cima dos carros.

A tia Luísa tratou da organização, a “bucha”, a mala térmica e o garrafão na 2.ª fila por baixo o “ovo” do Ruizinho, o resto tudo para dentro do “malão”. O Lucas e a Amélia na fila de trás com a Miluem o Ruca e a Fifi, a Avó Maria à frente com os tios Arménio e Jordão, ao lado do Ruizinho ela e a tia Marisa.

Parecíamos uma lata de atum daquelas especiais com sabores, tal a mixórdia dentro e fora da carrinha.

O Ruizinho, tem ido muito sossegado a dormir, mas inicia um concerto de 10 minutos que Ruca e Fifi acompanham com entusiasmo fazendo os coros!

Ainda não chegámos, mas tivemos que parar, barulho e pivete, não dá! O pobre do Ruizinho estava com a fralda demasiado almofadada, daí a reclamação.

O GPS diz: “chegou ao seu destino”

O tio Jordão olha e diz:   JÁ CHEGÁMOS?!    JÁ CHEGÁMOS?!

Ó Arménio, vê lá se esta m###d@ está bem!!!!

A Avó Maria dispara, isto é um pardieiro seu burro! Ai o meu António, vosso pai, que Deus o tenha no eterno descanso, é que era um homem a sério!!!!

Tínhamos mesmo chegado ….

O tio Jordão, que tinha arrendado uma vivenda rural modesta por 3 dias, estava estarrecido a olhar para as fotos que tinha na mão enquanto telefonava e as chamadas iam de imediato para o atendedor automático…

Tinha feito o pagamento todo antecipado e o que tinha à frente era mesmo um pardieiro…

Já tinha ouvido falar neste tipo de burlas, mas nunca tinha pensado, que pudesse ser vítima de uma...

 

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Miluem escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #10 Gabi

19
Nov19

- Já chegamos, já chegamos?

- Ainda não, mas não perguntaram ainda há pouco? Respondia pacientemente a minha mãe.

Olho pela janela. Sabia que ainda não tínhamos chegado, que faltava ainda muito, tanto! Uma das minhas irmãs dormia, a outra também parecia que ia adormecer, mas eu permanecia acordada (ao meu lado, a minha boneca Joaninha, que levava para todo o lado, e tinha inclusive uma pequena mala improvisada, com um pijama e dois vestidos: um azul feito pela minha avó e um com bolinhas amarelas, feito pela costureira de um retalho de tecido). Pela janela do lado direito via ora a estrada, ora os carros com que nos cruzávamos, pela do lado esquerdo, árvores, erva, monte. A paisagem ia mudando. Primeiro, muitos edifícios, depois só algumas casas, árvores altas e verdes, depois também rareavam as árvores, via mais erva e monte, espaçadas as oliveiras, e restos de incêndios, chagas castanhas e despidas no meio dos montes.

Os meus pais pareciam concentrados na viagem, o meu pai na condução, a minha mãe em mil e uma coisas para que tudo corresse bem.

Mais perto, sentíamos o cheiro das estevas – não havia ar condicionado, pelas janelas entreabertas entrava calor.

Sabia que quando chegássemos à aldeia, iria reencontrar os meus avós, alguns primos e primas que não reconhecia, e o meu pai iria rejuvenescer no papel de filho.

Por lá estava também a burrinha, que a minha irmã mais nova iria querer logo ver, os biscoitos em argola, o pão de trigo, a lareira, o chão da casa com tabuas compridas e não muito direitas, o silêncio à noite, e o cantar do galo de madrugada.

Queria hoje poder fazer essa viagem, o durante, enquanto não chegamos e o depois, vivo nas recordações.

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Gabi escreve aqui e aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

Tema #10 Maria

19
Nov19

O relógio marcava meio dia e recebi uma mensagem:

"não combines nada com ninguém, logo não estamos".

Estava tão ocupada que li aquela mensagem sorri mas nem respondi. Por volta das cinco da tarde recebo outra mensagem: "já pensaste no vestido para logo? Capricha. Será uma noite para não esquecer. Levo chocolates".

Fiquei empolgada "vamos só os dois?" respondi, mas não obtive resposta.

Estava a jantar quando o telefone toca, era ele. Disse só que às nove passava para me apanhar.

Os meus pais saíram e eu fiquei à espera que ele chegasse. Faltavam uns cinco minutos para as nove estava eu acabar de me arranjar e recebo a mensagem "já estou em baixo à espera amor".

Eu desci as escadas, enquanto ele saiu do carro dirigiu-se à outra porta e abriu-a enquanto me esticou a mão e me surpreendeu com um beijo. Apaixonado.

Onde vamos? - perguntei. "Vamos acabar o ano da melhor maneira" - respondeu-me só.

Era o ultimo dia do ano. Noite de passagem de ano e eu tinha acabado de me esquivar a todos os convites de amigos que recebi.

Chegamos ao hotel que ele reservou onde nos esperava um baile e uma festa espectacular. As pessoas estavam vestidas a rigor e tudo parecia de sonho. Dançamos muito. E pouco faltava para a meia noite quando ele me estendeu a mão e puxou-me "vamos rápido que as badaladas estão já aí", subimos até um quarto, onde nos esperavam os bombons de chocolate e o champanhe. Enquanto se ouviam as doze badaladas, ele de joelhos a pegar-me na mão perguntou "queres casar comigo?"

Acho que bebi o champanhe que tinha na mão sem conseguir perceber muito bem o que se estava ali a passar! E pufff... aterrei no chão.

Enquanto ele me tentava acordar... "já chegamos, já chegamos?" - digo eu abrindo os olhos sobressaltada e apercebo-me que aquilo não tinha sido um sonho.

Já chegamos há muito - diz ele enquanto me aconchegava junto a ele.

- estava a sonhar que me pediste...

E pedi - interrompendo-me enquanto me acarinhava o rosto e a sorrir continua - "Isto não foi um sonho, coração. Eu pedi, mas tu desmaiaste antes mesmo de me responderes."

- Eu quero muito. Mas belisca-me a sério. Só para eu não pensar que estou a sonhar outra vez!

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Maria escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

Tema #10 Ana Neves

19
Nov19

Que raio de pergunta, é claro que já chegámos ao desafio 10. E tem sido um desafio incrível e muito desafiante, principalmente pelos temas que são autênticos enigmas.

Vamos lá  relembrar o percurso até aqui:

Tema 1 “Problemas, só problemas” – e quem não os tem que atire a primeira pedra a estes pássaros. Problemas é o que nos têm criado com estes temas tão ambíguos e caricatos.

Tema 2 “ O amor e um estalo” – quanto mais me bates mais eu gosto de vocês meus queridos pássaros, ou seja, quanto mais difíceis são os temas, mais eu gosto da passarada.

Tema 3 “ uma aventura/momento que te tenha marcado” – sem dúvida ter tido a feliz ideia de participar nesta passarada. ;)

Tema 4 “A Beatriz disse que não. E agora?” – A Beatriz é que fez bem e não entrou na vossa passarada. Ela é que foi esperta. Agora só lê os posts às sextas e, com tanta palhaçada, fica bem disposta para o fim de semana.

Tema 5 “Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo.” – Eu quero lá saber para onde  o bigodito vai e se não o querem lá? Eu quero é saber o que eu vou escrever para sexta-feira.

Tema 6 “Escreve uma história romântica baseada no clássico "O Amor, uma cabana… e um frigorífico" – isso era mesmo aquilo que vocês pássaros deviam oferecer a cada um de nós no fim deste desafio. Precisaremos de descansar os neurónios, sem dúvida nenhuma...

Tema 7 “A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abóbora com amêndoa. Convence-a  a escolher a compota para usar” – ó meus queridos, o pássaro que teve a ideia para este tema só podia estar com comichão na cabeça enquanto se refestelava com uma fatia de pão de centeio com doce de abóbora. É que só pode!

Tema 8 “Escreve uma carta para a criança que foste”- para a criança que foste, para a criança que és e para a criança de hás-de ser. Isso sim, era um grande tema...

Tema 9 “Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta” – é para onde eu quero ir já, para uma ilha deserta, com calor e água quentinha. Pagam os pássaros, claro está!!!

Tema 10 “Já chegámos? Já chegámos” – sim, chegámos ao 10 e parece impossível. Já andamos aqui há 10 semanas e ainda não me saiu nada de jeito. Só asneiras e tontices, mas posso-vos dizer que estou a adorar escrever estes temas malucos e ainda estou a adorar mais ler o que os outros maluquinhos como eu escreveram... 

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

Ana Sofia Neves escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #10 3ª face

19
Nov19

unnamed(1).jpg

crédito da imagem 

Será aquilo a que chamamos destino o simples resultado da nossa predisposição genética para agir?

Serei eu responsável pela impulsividade que não consigo controlar?

A Ilha do Pessegueiro não fica assim tão longe de Porto Covo.

Mas apenas quando estamos do lado de cá, a contemplar aquele pedaço de terra teimosa, enquanto trauteamos a canção do Rui Veloso.

Na maré alta e com corrente forte, não é bem assim.

Sobretudo quando nem sequer se sabe remar…

Ao fim de uns minutos a tentar controlar o barquinho, cedi à força da corrente.

Já nem sentia os braços.

Deixei-me ir…tinha sede.

Tanta sede!

O sol queimava quando fechei os olhos. 

Subitamente, debaixo de um oleado amarelo, saiu uma figura robusta, que me sacudiu:

- Não durma, menina, não pode! Estamos quase a chegar…

Mas eu, ressequida e exausta, entreabria os olhos e voltava a fechar.

Por diversas vezes…

Era um homem novo, vestido com roupas estranhas: um turbante vermelho e uma túnica larga e comprida, apertada elegantemente com um cinto, cujo brilho da fivela me ardia nos olhos.

É o vizir! O vizir de Odemira!

Que por amor se matou novo

Aqui, no lugar de Porto Covo!

É o seu fantasma que me transporta na barca para o purgatório, como descrevia Gil Vicente!

Morri!

Porém, continuava com aquela sensação de queimadura que me dilacerava o corpo todo, por dentro e por fora!

Tomara já sentir a frescura do paraíso!

- Já chegámos? Já chegámos? - perguntei.

- Está quase, menina, não durma, mantenha os olhos abertos.

De vez em quando, mesmo através das pálpebras semicerradas, eu via a luz.

Aquela luz que dizem existir quando morremos.

É forte.

É azul.

- Já chegámos? Já chegámos, Vizir?

- Calma menina! Há muito trânsito com o pessoal que está a sair das praias e sabe que esta estrada é estreita. A ambulância está com as luzes de emergência mas, ainda assim, é difícil.

Logo, logo, chegaremos ao Hospital. 

Com esforço, arregalei os olhos.

O manto do vizir era vermelho e tinha o nome bordado:

Bacalhau da Silva, Bombeiro de 2ª

Ainda o ouvi perguntar, antes de voltar a perder os sentidos:

- E como é que se chama a menina? Como foi parar dentro de um barco na zona das rochas, onde se apanha o mexilhão? É que estava completamente nua e nem sequer tem documento de identificação…

 

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos?

3ª Face escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #10 Inês Pereira

18
Nov19

Memórias que todos partilhamos de viagens intermináveis, no banco de trás do carro do pai, onde o destino não era assim tão importante, porque a diversão acontecia no trajecto. Ainda que infernizássemos a vida dos adultos com este «já chegamos?», repetido até à exaustão, o melhor acontecia enquanto inventávamos jogos para passar o tempo ou brincadeiras parvas com coisa nenhuma que não a fértil imaginação das crianças que fomos.

Talvez esta seja a metáfora perfeita para as nossas vidas. Afinal, mais importante do que o destino é o caminho que percorremos para lá chegar. É nessa viagem que crescemos, aprendemos e nos tornamos em pessoas melhores. Isto, claro, quando percebemos e aceitamos essa verdade.

É evidente que alcançar os sonhos e objectivos é fantástico e provoca uma sensação de realização e nos faz sentir o sabor do sucesso. No entanto, quanto mais longa e difícil for a jornada, melhor será esse sabor, maior o prazer obtido.

Assim sendo, só me resta dizer-te para aproveitares a viagem da vida, saboreando cada momento com a consciência da sua unicidade, e retirando o máximo de proveito desta jornada tumultuosa mas divertida que é viver. E se ainda não tens filhos, aproveita enquanto podes porque não irás escapar ao clássico «já chegamos?», podes ter a certeza.

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Inês Pereira escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

Tema #10 Sarin

18
Nov19

soldier with twins.jpg

Entre a missão e o destino

Os primeiros chegaram apressados. Entraram velozes, cegos pela claridade depois de escuros e intermináveis túneis de fuga. Durante a evacuação poderiam talvez usufruir da paisagem que se avistava do lado de lá da barreira de plástico; por agora, teriam de preparar o espaço para o pelotão que não tardaria. Não tardou. Na pressa da chegada, alguns soldados houve que, de tão ansiosos, chocaram contra a barreira e ali ficaram, como que tapetes para os que neles tropeçaram uma e outra vez até se indistinguirem na confusão de corpos. E continuaram a chegar, atropelando-se numa algazarra feliz de quem corre para o seu destino. Quando os últimos apareceram, arquejantes e a espaços, ouviu-se alguém perguntar, talvez o das comunicações, Já chegamos? Já chegamos? É que, não sei se têm noção, mas isto aqui não é muito confortável, e ainda vamos a meio da missão… A resposta não tardou, Não, não chegamos! É preciso mandar vir mais um contingente!

Os do segundo contingente entraram mais lentamente, acomodando-se com força onde cabiam. Olharam em volta e, perante a desorganização, não puderam deixar de pensar nos riscos que corriam. Sabiam que o ataque seria pouco ortodoxo, mas, ainda assim, temiam que os houvessem enganado no Gabinete de Voluntários.

Chegada a ordem de marcha, todos sentiram estar feito o mais fácil - dali em diante a missão seria tão árdua como delicada e, apesar de irmãos de armas, no terreno teriam de trabalhar cada um por si. Voaram votos de boa sorte, o pelotão concentrado no embalo do transporte. De repente, sentiram-se girar, uma avaria, talvez, a rotação a todos deixando lívidos. Quando pensavam não aguentar, o transporte imobilizou-se, as pernas embatendo-se na inércia mas todos vivos.

Ainda zonzos, perceberam sombras e silvos na distância. Um dos mais resistentes perguntou afoito, Já chegámos? Já chegámos? nada mais perturbando a apreensão que os calava. Mesmo assim maltratados, contavam ser lançados em pequenos grupos que atacariam por fases, cada soldado tentando anular as defesas do objectivo até que algum conseguisse entrar no sistema e daí dominar as instalações. Nisto pensavam todos, preparando-se para o seu melhor, quando avistaram o cano de aço a eles apontado. Suspiraram, irmanados também no reconhecimento do fim. Os movimentos com que os haviam enfraquecido tinham sido propositados: não os queriam para ataque. Não. Na ânsia de saírem em missão, haviam-se afinal oferecido para um teste de fertilidade sem óvulos no horizonte.

Tema da semana: Já chegamos? Já chegamos? 

Sarin escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook