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Desafio de Escrita

Tema #2.5 Lara Monteiro

02
Mar20

"- Miguel já estás pronto?

- Sim, vamos! Passamos primeiro na Guida e depois vamos para os meus avós?

- Sim, não vai ser fácil arrancar o Francisco de lá mas vamos tentar chegar a horas ao aniversário do teu avô!..."

 

E o meu texto acaba aqui. Porque aquilo com que mais sonho, era ter cá a Guida e o avô do M., as duas pessoas que mais nos marcaram na vida. As duas pessoas que sei que iam amar mais o Francisco do que a si próprias. As duas pessoas que mais falta nos fazem. As duas pessoas que, apesar dos poucos anos que tivemos com elas, nos marcaram irremediavelmente para sempre.

Podia fazer um texto floreado a dizer que acordei e que tinha acabado a guerra no mundo, que tinham conseguido a cura para o cancro, que já não havia crianças a ser maltratadas... Tudo isso era o que todos queríamos ter como notícia ao acordar.

Mas isto é aquilo que me dói mais. É mesmo que o Francisco não tenha conhecido estes dois seres fantásticos. Que não tenha a sorte de os ter na vida dele.

Apesar de ter. Porque enquanto quem os ama for vivo, vai sempre fazer questão de os lembrar, de não os deixar cair no esquecimento.

 

E talvez este não fosse o texto que fosse suposto escrever, mas foi o possivelmente o mais verdadeiro.

 

Tema da semana: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

Lara Monteiro escreve aqui

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Tema #2.5 - A 3ª face

02
Mar20

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Dizer que acordei não me parece bem.

Tenho a sensação de que não embalei no sono durante a noite inteira. A excitação e a antevisão do dia não deixaram Morfeu entrar no quarto.

Levanto-me, tomo banho, emborco meio frasco de perfume pelo tronco e começo a vestir-me. Os sapatos bicudos apertam. E a camisa branca, cheia de goma, revela-se áspera no pescoço.

Mas vai valer a pena. É o sonho da minha vida prestes a realizar-se!

Tento ajeitar o plastron dentro do colarinho mas é tarefa complicada.

Vou ao quarto da minha mãe e, para grande surpresa, também já está vestida.

A minha mãe é linda mas depois de penteada e maquilhada por uma profissional, parece uma bonequinha de porcelana.

Ajeita-me e aproveita para me colocar o raminho na lapela, a fazer pandant com o bouquet da noiva.

E para disfarçar o nervosismo e a responsabilidade, trauteio a canção que não me saiu da cabeça durante a noite inteira: ´Cause I’m happy…

Estamos prontos.

Entramos no carro e só paramos à porta da Igreja, onde os convidados nos aguardam.

A minha mãe vai serena, a passo lento, cumprimentando toda a gente, qual rainha com a tiara na cabeça.

E eu, Pontes Manuel, enlaço-lhe o braço enquanto tremo como uma taça de Jelly Já!

Curioso! Nunca percebi o quão comprido é o corredor da igreja!

Chegados ao altar, ela beija-me, desenlaça-me e junta-se ao meu pai.

 “O meu sonho realizou-se ”penso, enquanto ocupo o lugar.

O meu lugar de padrinho…

Os meus pais casaram à pressa, pelo civil, quando eu já vinha a caminho.

Quando tinha 10 anos e depois da minha mãe descobrir a causa de tanta avaria no carro da vizinha, que o meu pai se disponibilizava para arranjar, separaram-se.

Foi o meu maior desgosto e durante mais de um ano tive acompanhamento psicológico.

Pior ficou o meu pai, que se arrependeu no dia seguinte.

Depois de 4 anos a implorar perdão, a minha mãe achou que já era altura de lhe levantar o castigo e “se o pobre homem tinha aguentado 4 anos a tentar reatar o casamento, agora era para o resto da vida”.

Quis o casamento que nunca tivera.

E eu fui o padrinho.

Nunca pedi brinquedos no Natal. Pedia que os meus pais se reconciliassem.

Talvez o Pai Natal só agora tivesse arranjado tempo para ler as minhas cartas.

Não é Dezembro mas, neste momento, estou a contemplar o meu presente…

 

Tema da semana: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

3ª Face escreve aqui

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Tema 2.5 Ana Neves

02
Mar20

Acordo como gosto, cedo, por volta das 7h. Abro a janela, levo com a brisa fresca na cara e vou para a cozinha fazer a minha refeição preferida. Mexo uns ovos com umas “mistecas”, faço café e sento-me a relaxar na varanda a tomar o pequeno-almoço. Ouço o barulho das ondas e olho para o mar... como me faz sentir bem,  viva e em paz!

Visto-me confortavelmente e saio ainda antes das 8 para uma caminhada/corrida ao longo da costa. A maresia faz-me acordar e as endorfinas começam a saltitar. Que maravilha!

Por volta das 9h mando o meu mergulho neste mar gelado e revigorante e volto para casa. Tomo um banho quente e preparo, com muito amor, o pequeno almoço para os meus entes. Enquanto eles comem  acompanho-os com uma chávena de café e conversamos, rimos e brincamos.

A seguir, vamos os ler os jornais e eu com os meus livros, para o nosso cantinho predileto na praia. Já vos disse que adoro a praia de manhã? O sossego e a paz ... O G vai pescar com a cana o almoço. Desta vez saiu um robalo enorme que vai direto para a grelha. Que delícia, acompanhado com uma salada bem fresca e saudável.

O princípio da tarde é passado em casa, a relaxar e a descansarmos, seguido de um pouco de praia.

Ao fim da tarde uma volta de bicicleta sabe sempre bem, terminando com um mergulho no mar ao pôr do sol. Fantástico!!!

Voltamos a casa, jantamos e agradecemos a oportunidade de sermos felizes e termos saúde para aproveitar todos os momentos.

O serão é passado juntos, nas mais diversas atividades, como ver séries, filmes, ou apenas conversar acompanhados com um bom vinho tinto.

O dia a seguir é a cópia do anterior e assim sucessivamente.

 

Nota-se muito que sou uma pessoa com gostos  e sonhos simples e  e é assim que passo as férias, quando as tenho. Saliento apenas que o local a que me refiro é o meu paraíso e é em Portugal, mais propriamente no distrito de Leiria, em S. Pedro de Moel. Aqui sou sempre feliz!!!

 

Tema da semana: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

Ana Sofia Neves escreve aqui

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Tema #2.5 Miss Lollipop

02
Mar20

Os raios de sol por entre as persianas arrancaram-me do meu sono reparador, fazendo-me saltar da cama e aterrar directamente nos meus sapatos supersónicos.

Novo dia, novos desafios, novas vivências, novas experiências.

Pequenos almoços fumegantes distribuídos, cachorrinhas tratadas com tudo a que têm direito, casa mais ou menos em (des)ordem, distribuição escolar porta a porta.

Alongamento dos músculos no ginásio, braçadas na piscina, cafezada na esplanada com os colegas, jornada de trabalho ao rubro, emails, reuniões, processos, informações.

Hora de almoço na esplanada soalheira com as amigas, dar um jeito à peruca, tratar das unhecas, périplo pelas lojas da moda, retorno ao trabalho com os objectivos do dia concluídos, retomar o serviço de uber particular no sentido inverso, ida ao supermercado para as faltas, arrumação das compras, passeio com as cachorrinhas no parque enquanto a miudagem se diverte nos baloiços e escorregas e se toma uma ou mais bebidas frescas com os amigos na esplanada do jardim rematando com um delicioso gelado, casa arrumada, armários em ordem, roupa lavada, estendida e engomada, jantar em fase de execução, hora de banhos e manutenção, tempo para relaxar ao som de música enquanto se lê mais umas páginas de mais um livro.

Criançada despachada de deveres, mimalhices e brincadeiras, maridão conduz-te à beira mar para ver o pôr do sol e namorar, ida ao cinema com pipocas salgadas, jantar animado com o grupo de amigos, seguindo-se um pé de dança bem ritmado, chegar a casa a tempo de ver as séries favoritas, fazer amor louca e longamente antes de nos enroscarmos que nem gatos felpudos e adormecermos com um sorriso nos lábios.

Tudo o que eu mais desejava finalmente realizou-se.

O dia passou a ter 48 horas!!!

 

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Miss Lollipop escreve aqui

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Tema #2.5 Silvergirl

02
Mar20

A Matilde regressou hoje do outro lado do mundo. Sã e salva. E isso era tudo o que eu queria.

Quando ela me falou, pela primeira vez, na eventual ida, encolhi-me de medo. Ela já tão adulta e decidida e eu a sentir que era cedo demais. Nunca é o momento certo para as nossas crias partirem em aventuras arriscadas, verdade? Um aperto no coração e uma centena de "ses" a desassossegarem-me. E se adoece? E se é agredida? E se ela sofre? E se eu não a consigo ajudar? E se ela me falta? Um nó na garganta invadiu-me e não me largou durante 2 meses. Eu a tentar ser racional e positiva e a angústia a apoderar-se de mim.

A Matilde é médica e foi em missão salvar vidas. Vidas que valem tanto como as nossas, gente que tem os nossos medos e muitos outros que nem conseguimos imaginar. E eu, egoísta, com medo da segurança da Matilde. Se calhar o coração da Matilde é maior do que o meu, pensei. Se calhar, o meu coração devia ser tão grande como o da Matilde. Mas o meu coração está formatado para proteger todos os que do meu colo fazem casa. Eu sempre fui colo e sei que não quero ser o colo que sufoca, que não dá asas nem encoraja. E assim, contrariando os meus medos, dei-lhe um moleskin de folhas lisas para ela escrever as suas histórias, nesta viagem, que depressa se tornariam memórias de aprendizagem e de humildade.

Foi a experiência de uma vida - a repetir, diz ela.

O bloco regressou sem folhas em branco, o coração da Matilde regressou gigante e o meu... bem, o meu coração ficou muito orgulhoso por saber que a Matilde tem nela um pedacinho do colo que lhe dei.

 

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Silvergirl escreve aqui

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Tema #2.5 - Gabi

02
Mar20

Acordei e ouvi vozes, a minha avó a conversar com a minha mãe. Levantei-me e fui ter com elas.

Para que o Mundo possa permanecer quase tal como é, não me disseram como é o depois, apenas que existe um, mas não foi preciso dizerem-me para que ficasse então a saber, que não perdemos ninguém, permanecemos ainda que tenuemente ligados, e como haverá um reencontro, existe um sentido.

No resto do dia poderia fazer o que faço sempre, poderiam ter continuado comigo, ou poderia ter sido apenas uma visita breve, sem explicação, mas real.

A minha avó morreu quando eu tinha onze anos e depois dela houve outras perdas, mas aqui estou sobretudo a escrever sobre a primeira.

Quando acontece, o mundo vai ficando mais feio e vazio, e perco também os pedaços de mim de como era com eles, como deixei de ser neta quando deixei de ter avós.

O que mais desejava é esse reencontro ou enquanto estou viva, saber que é possível, que vai suceder, ter esperança ou fé.

Tema da semana: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

Gabi escreve aqui

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Tema #2.3 - Inês Pereira

01
Mar20
Foi só falar de relacionamentos para entrar em greve geral e não dar as caras por estas paragens por semanas. Dá para acreditar nisto? Pois não acredites que não foi essa a razão da minha ausência, o que não significa que tenha muita coisa para dizer sobre esta coisa de iniciar relacionamentos. Associando este tema com a "suposta" data para a publicação, parece-me óbvio que o objectivo seria falar de relações amorosas e esse não é um tema que domine tanto assim que tenha 400 palavras para aqui debitar. 
 
O único problema que encontro nisto de se ser solteiro é que a pessoa habitua-se e depois fica difícil abrir espaço para que pessoas ocupem um lugar de destaque ao nosso lado. É essa a razão pela qual tenho pouco a ensinar sobre como começar relacionamentos, tanto tempo passou desde que comecei o meu último. Assim sendo, vai ser difícil criar uma manual, muito embora tenha dúvidas que alguém consiga fazê-lo com sucesso. 
 
Nesta coisa de nos relacionarmos com pessoas não existem fórmulas mágicas que garantam o sucesso nem a felicidade eterna. Tudo se resumo a muita tentativa-erro, uma certa dose de sorte e imensa vontade e disposição para aceitar o desconhecido e com ele construir algo que acrescente. No entanto, se tens ou conheces algum truque infalível fica à vontade para partilhar, que conhecimento nunca fez mal a ninguém! 
 

Tema da semana: Manual para iniciar relacionamentos

Inês Pereira escreve aqui

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Tema #2.5 - Charneca em Flor

01
Mar20

“O aroma a café atravessa toda a casa e chega ao quarto onde eu ainda durmo. Aquele odor que tanto aprecio desperta-me e descubro-me sozinha na cama. Por momentos, sinto-me confusa. Sou invadida pela sensação de que este é um dia especial. De repente, o meu cérebro ilumina-se. Este será um dos dias mais especiais da minha vida. Ultrapasso a preguiça, levanto-me e caminho na direcção do aroma. Quando chego à cozinha, sou recebida pela luz difusa do dia que nasce e pelos sorrisos dos meus filhos gémeos. O pai deles tinha preparado, amorosamente, o meu pequeno-almoço preferido. As três pessoas que mais amo na vida tinham feito tudo para que eu me sentisse a mais adorada das mulheres. Tudo aquilo que alcancei a eles o devo. Para eu realizar o meu sonho, abdiquei de muitas horas em família. Nem o pai nem os filhos me cobraram a atenção que não lhes pude dispensar.
De seguida vou ultimar os preparativos para o meu grande momento. Vou cuidar de mim para que, mais logo, possa estar no meu melhor.
Sei que vou estar rodeada de amor. Toda a minha família estará comigo. Vai ser maravilhoso perder-me no abraço da minha avó já tão velhinha. Também poderei contar com o apoio incondicional dos meus pais. O caminho que percorri para chegar até aqui distanciou-se muito do percurso que o meu pai sonhou para mim. Mas cada um deve ser o dono da sua própria vida. Só eu sou responsável por aquilo que desejei. E sei que, dissimulado pela sua aparente desconfiança, ele sente um imenso orgulho da sua menina. A ponto de ter organizado um almoço para juntar a família na celebração deste acontecimento.
Nem nos meus maiores desvarios imaginei ser possível viver esta imensa alegria. Ainda me custa a acreditar. Hoje, ao fim da tarde, vou receber o Prémio Literário Raízes Profundas que premeia autores que publicam um primeiro romance depois dos 40 anos. O reconhecimento dos meus pare é extremamente motivador mas o prémio possibilita-me dar uma reviravolta à minha vida e dedicar-me à escrita a 100%.”
E depois acordei. Sim, foi um sonho feliz mas tratou-se apenas de uma fantasia do meu inconsciente. Aquela seria uma bela vida mas a que tenho também me faz sentir plena e abençoada. Nunca imaginei aquilo que tem sido a minha existência. Nem nos meus maiores sonhos. E ainda bem que é assim.

Tema da semana: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

Charneca em Flor escreve aqui

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Pregão alado

01
Mar20

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Suas Altezas Aladas,

A Passarada

 

Faz saber a toda a comunidade de blogueiros, bloguistas, e gente que escreve blogs, entradas, postais ou posts que, face à pandemia generalizado de medo, fobias e ansiedades e outras perturbações ansiosas, decorrentes do novel coronavírus, corona, covid-19, ou aquela coisa que veio da china, vem por este meio convidar todos quantos queiram, todos quanto arrisquem e que lavem as mãos, para participarem no excelentíssimo, magnífico e excepcional Desafio de Escrita Criativa dos Pássaros.

Assim, para aqueles que aceitem este desafio único, singular e exclusivo, claramente previsto por Nostredamus nas suas profecias sobre o fim do mundo, as regras são:

- Enviem um email para o desafiodospassaros@gmail.com a expressar, consentir e anuir a vossa participação nesta perigosa monta.

- Para os que enviarem o email, até quarta-feira dia 4 de Março, voará missiva com o tema desta semana.

- O texto deve ter, no máximo, 400 palavras.

- Deve ser publicado no próprio reino (como quem diz, blog), sexta-feira dia 6 de Março, pelas 15h.

- Deverá identificar o desafio de escrita criativa dos pássaros no título e nas áchetágues #desafios dos pássaros

 

E que os Pássaros estejam convosco!

Tema #2.5 - Daniela Maciel

01
Mar20
Mariana sentiu a água a molhar-lhe os pés antes mesmo de acordar.
 
Abriu devagarinho os olhos protegidos pelos óculos de sol. Sentia a pele a escaldar.
 
Doeu-lhe o corpo quando se ergueu da espreguiçadeira. Há quanto tempo estaria a dormir?
 
Deixou-se estar sentada e olhou em seu redor. A piscina à sua frente parecia não ter fim. A água era azul e límpida. Um autêntico paraíso.
 
Observou os pés molhados. Encontrava-se num local muito próximo da borda da piscina e certamente alguém a teria molhado ao atirar-se para a água. As gotículas que lhe cobriam a pele começavam já a desaparecer.
 
Mas que local era aquele? Não se recordava de como ali fora parar.
 
Tudo à sua volta era incrível. Até o céu era diferente. Decididamente não era português. Talvez estivesse num resort de luxo nas Maldivas!
 
Ouviu alguém chamar o seu nome. Virou a cabeça na direção da voz. Dentro de água, duas mulheres acenavam-lhe efusivamente. Reconheceu as suas melhores amigas.
 
Alguns pormenores começavam a assomar-lhe à mente. Tinha vindo de férias com as amigas para festejar o seu divórcio. Finalmente concretizara o seu maior desejo: livrar-se do marido.
 
Não havia problema se por vezes não se conseguia recordar das coisas. A medicação costumava deixá-la confusa.
 
Pegou no protetor solar pousado no chão junto aos chinelos e aplicou uma camada generosa no corpo. O tom do seu bronzeado sugeria que aquele devia ser o terceiro ou quarto dia que passava estendida ao sol.
 
A confusão voltou a apoderar-se dela. Não se lembrava sequer de ter andado de avião.
 
Estaria a sonhar?
 
Não! Os sonhos não transmitem este tipo de sensações. Não sentimos o calor na pele. Não sentimos a água a molhar-nos os pés. Não sentimos o cheiro dos cremes bronzeadores.
 
Ou será que sentimos?
 
Não. O mais certo era ter abusado do álcool na noite anterior, o que fora claramente um erro.
 
Levantou-se, decidida a dar um mergulho. Aquelas eram as suas férias de sonho, mais valia aproveitar ao máximo.
 
Caminhou devagar, tentando ignorar que as pessoas pudessem estar a olhar para ela. Era uma mulher atraente, embora tivesse de usar fato de banho para esconder as cicatrizes. Tinha sempre receio de que os outros fossem capazes de ver as marcas que o marido deixara nela.
 
Aproximou-se da borda da piscina, sorriu e atirou-se para a água fresca.
 
 
Acordou estremunhada. O sol desaparecera. Tudo à sua volta era cinzento e desinteressante.
 
Doíam-lhe as costas de ter estado deitada naquela cama de péssima qualidade.
 
Fitou as grades cinzentas à sua frente.
 
Agora recordava tudo com clareza. Em breve iria ser presente ao juiz.

Talvez não tivesse sido nada boa ideia esfaquear o marido sete vezes.
 

Tema da semana: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

Daniela Maciel escreve aqui

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