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Desafio de Escrita

Tema #2.4 - Alice Barcellos

24
Fev20

Iniciava-se mais uma aula de história, os alunos consultavam os seus hologramas interativos, enquanto a professora tentava controlar a agitação da turma.

- Atenção, meninos, acabou-se a confusão. Vamos lá começar a aula! – exclamou Maria Augusta, do alto dos seus 60 anos, enquanto apontava na agenda o tema da aula. "Já estamos a 20 de fevereiro de 2030, como este mês passou rápido", pensava, enquanto escrevia com uma caligrafia cuidada.

Era uma mulher madura, inteligente, que adorava o que fazia, embora houvesse dias em que se sentia quase vencida pelo ritmo acelerado com o qual os miúdos chegavam às aulas.

Tinha saudades da época em que se ensinava ao ritmo do giz a traçar as letras no quadro negro e do folhear das páginas dos livros. Havia mais tempo para pensar.

Olhava para aquelas crianças e sabia que elas nunca iriam conhecer o mundo a.G. – antes do Google –, como ela costumava dizer, em tom de brincadeira, embora os miúdos nunca apanhassem o sentido da expressão.

Como ensinar história numa época em que o passado não era valorizado, tampouco conhecido? Como explicar o peso dos acontecimentos a miúdos que só se preocupavam com as reações geradas nas redes sociais e as polémicas que circulavam à velocidade da luz na internet? Não era fácil, mas ela não ia desistir. Não queria que a História entrasse para o rol das disciplinas extintas, como já havia acontecido com a Filosofia ou com o Latim.

Estavam a falar sobre a Revolução Industrial e a professora pediu aos alunos para mostrarem imagens de ícones da época. João foi o primeiro a projetar a sua imagem, seguindo-se da explicação:

- A Torre Eiffel em Paris simboliza a era industrial.

No momento em que a imagem foi projetada, Maria Augusta teve a certeza de que aquela não era a Torre Eiffel.

- Um bom exemplo, João. No entanto, a tua pesquisa está errada. A imagem apresentada não corresponde à verdadeira torre – disse a professora.

- Como assim? É o resultado da pesquisa do Google, não é possível estar errado! – respondeu João, indignado.

O burburinho começou a crescer na turma. Os miúdos não acreditavam como o Google poderia ter errado.

A professora, apaziguadora, disse que a imagem em questão era de uma réplica da Torre Eiffel construída em Paris, Texas, nos Estados Unidos. Portanto, a máquina não estava, de todo, errada, mas o João, sim, pois não fez a pesquisa com atenção. Para chamar os miúdos à terra, puxou do seu bom e velho Atlas Histórico e saltou até ao capítulo da Revolução Industrial. Ver livros em papel era uma raridade e, para as crianças, era um objeto que surpreendia. Parece que só de sentir o cheiro e o peso dos livros já ficavam mais calmas.

- Meninos, venham cá e vejam.

Naquele instante, as crianças esqueciam os aparelhos eletrónicos e as pesquisas feitas à pressa, só observando a forma compenetrada como a professora contava aquela história. Um momento sublime que fazia Maria Augusta ganhar um novo ânimo para não desistir da sua missão neste mundo.

Tema da semana: O Google está errado

Alice Barcellos escreve aqui

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Tema #2.4 - Gabi

24
Fev20

O Google está errado

 

Como o Google está errado???

 

O horror toma posse de mim.

Em choque e incrédula continuo a escrever.

 

Errado, o Mago super sapiente a quem recorro sempre em primeira e última instância?!!!

Quando quero saber mais sobre algum facto histórico, cinema, músicas, pinturas, livros, ter a certeza sobre como se escreve uma palavra – antes e após acordo ortográfico – traduzir de outra língua uma palavra ou um texto, dicas sobre receitas de cozinha, lavagem de roupa, doenças e medicamentos, perder tempo com notícias que não interessem a ninguém, encontrar o endereço para blogues, etc. etc. errado?!!!

Mas, Ele sabe sempre tudo!

 

Pequena pausa porque me ocorreu grande ideia, vou perguntar ao Google o que é Ele acha disto e já volto (…).

 

De volta e já mais tranquila: pode ter havido erros, mas o Google corrigiu-os e corrige-os.

Estamos salvos. Posso respirar de alivio de novo.

O Google pode errar de vez em quando, sublinhe-se, muito de vez em quando, de certeza, mas Ele corrige! Merece que continue a confiarmos Nele, a deixar-nos guiar por Ele!

Tema da semana: O Google está errado

Gabi escreve aqui

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Tema #2.4 - Daniela Maciel

23
Fev20
Vais ser despedida, sussurrou o diabo ao meu ouvido.

Sinto as mãos suadas enquanto atravesso o corredor que separa a minha sala de trabalho do escritório do meu patrão. Três palavras ecoam na minha mente: vais ser despedida.

O mais irónico é que eu não fiz nada. Ainda.

O erro foi do meu patrão e eu estou a caminho do seu escritório para lho comunicar.

Acredito que vou bater o recorde: ser despedida do meu emprego de sonho apenas três meses após ter sido contratada.

Quando cheguei ao escritório, esta manhã, encontrei os meus colegas num alvoroço. Sussurravam desesperadamente, como se estivessem a decidir qual deles deveria sacrificar-se e entrar na câmara de gás.

Tinham descoberto um erro num processo mediático em que estávamos a trabalhar. Era um pormenor mínimo, quase insignificante, mas fora cometido pelo patrão.

E ninguém se atrevia a dirigir-lhe a palavra para lhe apontar o erro.

Ninguém se atrevia a contrariá-lo.

Ninguém se atrevia sequer a respirar junto dele.

Por isso, duas horas depois e farta de assistir ao desespero dos meus colegas, levantei-me da cadeira e voluntariei-me para a morte:

— Eu vou.

Fez-se silêncio na sala.

Todos olharam para mim, de olhos esbugalhados.

E cá estou eu, a preparar-me para dizer ao meu patrão que está errado. E prestes a ser despedida.

Junto à porta, engulo em seco e bato três vezes.

Oiço a sua voz de trovão a dizer-me para entrar.

Entro de cabeça erguida, tentando demonstrar confiança. Se vou morrer, ao menos morro de pé.

Lá está ele, sentado à secretária como um rei no seu trono.

Jonathan Google, o homem que faz tremer até as paredes do edifício.

O homem que seria perfeito, não fosse o azar de ter recebido aquele apelido.

Imaginem que tinham o nome de um motor de pesquisa. Provavelmente teriam sofrido de bullying durante toda a vida.

Inspiro fundo e encho-me de coragem para falar.

Ele ouve-me sem pestanejar e, em seguida, levanta-se e dirige-se à janela interior, baixando a persiana. Agradeço-lhe mentalmente por impedir que os meus colegas assistam à descompostura que estou prestes a receber.

E, por fim, fala.

Duas eternidades depois, saio do seu escritório e arrasto-me até à minha secretária. O meu relógio indica que apenas passaram oito minutos.

Começo a reunir os meus pertences, incrédula com o que acontecera.

Afinal, isto não foi um erro, mas sim um teste. O patrão queria perceber qual de nós teria a coragem suficiente para o enfrentar, uma vez que precisa de uma advogada com fibra para representar um novo cliente.

Vou mudar-me para um novo gabinete.

Acabei de ser promovida.

Tema da semana: O Google está errado

Daniela Maciel escreve aqui

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Tema #2.4 - Charneca em Flor

23
Fev20

Talvez se lembrem da D. Mirandolina, a minha utente que não se fiava nos médicos. A neta dela, a Vanessa, também frequenta a farmácia onde trabalho. A Vanessa padece de um caso grave de hipocondria intensificada por googlite. Nunca ouviram falar em googlite? É uma inflamação generalizada do raciocínio provocada por pesquisas intensivas no Google.
Bom, adiante. Este padecimento da Vanessa dá origem a longos atendimentos para esclarecer as dúvidas, ou as “certezas", que a assaltam sempre que vai consultar o Dr. Google. Só a toleramos porque ela é uma grande consumidora de suplementos nutricionais os quais utiliza para reforçar o seu sistema imunitário e prevenir o aparecimento de doenças. E também temos a obrigação ética de a esclarecer, obviamente.
Aqui há umas semanas reparei que a jovem vinha mais acabrunhada do que é costume. Quando chegou a vez dela, indaguei sobre o motivo da preocupação que era patente no seu rosto:
- Ai, Dra Charneca em Flor, nem queira saber. Estou muito mal. Tenho um cancro na cabeça.
- O quê? Mas como… quando é que soube?
- Tenho todos os sintomas. Vi no Google. Dores de cabeça muito fortes, alterações da visão e ontem senti-me tão mal que ia desmaiando. Só tive tempo de me sentar no sofá para não desfalecer no chão.
- Então, Vanessa, já lhe tenho dito que não se podem fazer diagnósticos baseados no que se lê na internet. De certeza que há uma explicação bem mais simples para esses sintomas.
Depois de muita conversa lá a convenci a marcar uma consulta com o médico assistente.
De quando em vez, ela passava pela farmácia para eu me inteirar do progresso da situação. Com muita insistência, a Vanessa conseguiu convencer o médico a prescrever uma série de exames e a encaminhá-la para um neurologista.
Fiquei umas boas semanas sem a atender. Eis senão quando ela me entra pela farmácia com uns modernos óculos novos.
- Então, Vanessa, como está? O que é que o neurologista lhe disse?
- Nem sabe, Sra. Dra. O neurologista era muito antipático. Riu-se na minha cara quando lhe disse que desconfiava que tinha um tumor na cabeça. Depois enviou-me para um colega oftalmologista. Afinal, o Google estava errado. O problema está na visão. O oftalmologista diz que foi provocado por passar muitas horas na internet. Agora tenho que usar óculos e estou proibida de consultar o Google. Dá para acreditar?

Tema da semana: O Google está errado

Charneca em Flor escreve aqui

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Tema #2.4 - Tótó

23
Fev20

-Então Sr. Eustáquio. D.Lurdinhas, como vão? Trazem uma moça convosco hoje, é? Alguma parente?

-É Sr. Agente. Esta é a filha da nossa prima que vive em Lesboa. Veio ver a vida du campo. Sabe cumu é, meninos da cidadi que pensam que o leiti vem dos pacotis. Ahahah.

-Você tem muita graça. Ahahah. Então e como se chama ela?

-Há pois... (Eustáquio e Lurdinhas olham um para o outro aterrorizados. "inda na sabemos o nome dela") 

-Carmo Trindade, muito gosto. Vim conhecer a vossa aldeia. Vou fazer um documentário para uma disciplina da faculdade. Com certeza que irei pedir-lhe uma entrevista mas não hoje. Aqui os primos quiseram que fosse falar com o padre.

-Então não vos masso mais. Vão lá, antes que o Sr. Padre Serafim queira dormir.

-Carmo Trindade, moça? É memo assim que te chamas? E tu Eustáquio, por que é que na disseste ao agente da guarda pra levá-la pra casa? 

-Não D. Lurdinhas. Chamo-me Joana mas já que sou de Lisboa e isto está a ficar uma embrulhada acho que esse nome me assenta na perfeição. Vamos despachar isto. Quero voltar para casa e já lhe disse que é com música, não com a GNR. 

 

-Sô Padri Serafim, a sua bênção. Aqui a nossa prima Carmo Trindade cria ver o órgão, mas cumu na sabe tocari, será ca nha Lurdinhas podia tocar pra ela?

-Mas com certeza. Estejam à vontade. É sempre tão rejuvenescedor ouvir o som do órgão e tocada pela D. Lurdinhas ainda melhor. 

-Bom, bom. Vamo masé despachar isto Eustáquio. 

 

- Ó nãaaaooo! Porquê? Porquê?

- Olá! Está tudo bem? Sou a Sofia, ajudo o Padre Serafim aqui na Igreja.

- Que susto! Eu sou a Joana e antes que perguntes, a minha história é muito estranha, precisas só de saber que eu preciso de uma música e não é esta, definitivamente. Olha, tens um telemóvel. Tens internet? Podes emprestar-me? Assim posso mostrar-te qual é a música que eu preciso U-R-G-E-N-T-E-M-E-N-T-E.

- Está bem. Podes usar. Mas acho que não funciona bem como lá na cidade.

O Google está errado!! Como assim a minha música não existe??

- Eu disse-te. Isto aqui na aldeia é um bocadinho diferente mas vais-te habituando.

- Como assim? Agora estou a ver que tu não tens aquele sotaque camponês. Tu não és daqui?

- Amanhã às 10 horas aparece na Filarmónica para me conheceres melhor!

Tema da semana: O Google está errado

Tótó escreve aqui

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Tema #2.4 - Biiyue

23
Fev20

"Será que o google enganou-se no local?? Era suposto ir ver um show, não ir fazer parte de um!"
Estava em estado de choque, a tentar assimilar tudo o que se passava à sua volta. A brasileira estava a fazer-lhe uma maquilhagem simples, mas carregada no iluminador, enquanto falava com um sorriso enorme.

Não conseguia fazer o seu corpo reagir, mas quando é levada a escolher a roupa, grita "PARÁ, ISTO E UM ENGANO! NÃO SOU CAPAZ!". Naquele momento a brasileira olha para ela, e pela primeira vez dá-lhe espaço e tempo para se explicar... E ela tinha razão, já que ela porque não experimentar, o que é que podia correr malGanha coragem e entusiasmo, e escolhe a roupa que quer usar: Meias pretas acima do joelho, uns calções de ganga que se ajustavam perfeitamente ao formato do seu rabo, um top prateado de brilhantes, uns saltos de 5 cm e um lenço branco. "Miúda, pareces uma outra pessoa, estas maravilhosa! Já pensaste que nome queres que te apresentem?" "Moon, esta noite sou a Moon!"

Quando se olha ao espelho, não conseguia acreditar no reflexo, sentia-se poderosa, corajosa, linda e mesmo boa. 1 minuto para entrar em palco, não fazia a mínima do que iria fazer, mas a adrenalina estava a fluir e ia deixar-se levar por isso...

A cortina abre-se, as luzes a batem nela, só via sombras de pessoas. O palco era pequeno com uma cadeira no meio. Entra, já a sentir o ritmo da música e tenta caminhar de maneira sexy até a cadeira. Mesmo movimentando-se lentamente, ia caindo por duas vezes sendo que felizmente consegue manter a postura. Senta-se na cadeira, descalça os saltos e a partir desse momento solta-se, perde toda a vergonha e é a sua verdadeira essência, sexy, doce, rebelde, misteriosa e sem tabus.
Por esta altura já estava habituada as luzes e consegue ver minimamente as pessoas mais próximas, homens, mas também mulheres estavam vidrados nela. Na forma como se movia, como provocava usando o lenço para cativar e deixar algum suspense no ar e a cadeira como suporte para se movimentar e dançar. Isso fazia com que fosse ainda mais ousada!

A música acaba, as luzes desligam-se. Ela estava ofegante, mas com um sorriso enorme e um sentimento de poder incrível. Ouve os aplausos e assobios e não era capaz de acreditar no que tinha acontecido.

Tema da semana: O Google está errado

Biiyue escreve aqui

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Tema #2.4 - Miss Lollipop

23
Fev20

Viciada confessa sem qualquer pejo na internet, ela pautava o desenrolar da sua vida pelos conselhos do Doutor Google como gostava de apelidar carinhosamente o seu motor de pesquisa favorito que lhe indicava a direcção certa para cada passo que desse, para o seu dia correr na perfeição.

 Simples constipações ou gripes mais fortes eram curadas com xaropes de cebola com dentes de alho, limão e mel, dores de cabeça intensas passavam como num passe de magia com rodelas de batata na sua testa, pois isso de médicos nunca fiando.

Analisou a fundo manuais para iniciar relacionamentos, embeiçou-se pelo seu homem, somou os dígitos das suas datas e horas de nascimento para ver se encaixavam, fez todos os testes de compatibilidade que Doutor Google lhe indicou.

O seu casamento teve que ser numa 6ª feira de lua cheia do mês de Maio, cujas previsões meteorológicas apontavam para chuva naquela hora, não sem antes ter ofertado 1 dúzia de ovos a Santa Clara.

Com o desejo latente de aumentar a família feliz, fez preces e promessas aos Santos Cosme e Damião, dormiu com uma rosa vermelha seca na cabeceira, e panos de fralda debaixo da almofada, amarrou sapatinhos de bebé com doces a todas as árvores do jardim do lugarejo, que resultaram na gravidez tão desejada.

Das ecografias que fez, nunca quis saber qual o sexo do rebento, apenas se preocupando com a localização da placenta que se soube estar do lado esquerdo do seu útero.

Passou a gravidez com um humor abaixo de cão, a sua mama esquerda aumentou muito mais do que a direita, as unhas partiram-se, a pele ficou com borbulhas e manchas, o nariz inchou, a barriga estava tão redonda como uma melancia madura, deixou de lhe apetecer comer as pontas dos pães que tanto gostava, só lhe apetecia comer doces e frutas menos de manhã que não aguentava o raio dos enjoos que não a largavam, sinais mais do que evidentes que vinha a caminho a sua Ana Letícia, a Graciosa, a que traz Felicidade.

O quartinho com o tema das princesas todo em tons rosados, albergou roupa, sapatos, lençóis, xailes e tudo o que mais houvesse numa extensa paleta de cores rosáceas.

Quando ecoou o choro potente e vigoroso do seu recém nascido, ouviu que tinha um lindo menino cheio de força, e só então percebeu que afinal o Google também erra.

Tema da semana: O Google está errado

Miss Lollipop escreve aqui

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Tema #2.4 - Silvergirl

23
Fev20

Maria das Dores, meretriz afamada, com clientela fidedigna mas pouco digna, e a quem muitos preferiam chamar Maria dos Prazeres, saiu de casa apressada. Lábios vermelhos, decote vincado no peito roliço, cabelo apanhado no cocuruto, ancas delineadas pela saia justa demais, atravessou a avenida a correr e entrou num táxi que a levaria à consulta.

Maria sentia-se cansada mas, achando que não era doença, acreditava que havia naquela canseira mau olhado. Tinha ouvido falar que em Caminhos Tortos, pequena aldeia na serra, tudo se endireitava em casa do doutor. Não lhe sabia o nome mas parecia que o homem era santo ou adivinho mas sem bola de cristal. Deitará as cartas, pensou. Ou falará com os espíritos, sabe-se lá.

Deu ao motorista a morada e o homem, useiro e vezeiro naquele trajeto, arrancou.

A casa do doutor ficava no terreiro, perto da torre da igreja onde o sino marcava as horas a compasso. Eram 16h35 quando Maria das Dores tocou à campainha. Sem cerimónia, abriram-lhe a porta e levaram-na até à salinha onde o doutor a esperava. Em cima da mesa redonda de pé de galo, nem cartas, nem velinhas para chamar os mortos. Apenas um computador.

- C’um caraças, - pensou Maria das Dores - até parece que estou na Segurança Social.

- O que a traz por cá? - inquiriu o doutor.

Maria das Dores explicou o cansaço, as aflições, as noites mal dormidas com sonhos mal amanhados. As vozes que ouvia e não a deixavam sossegar, o medo de não acordar por culpa dos pecados cometidos. O doutor esticou-se na cadeira e aproximando-se da mesa começou a escrever no teclado do computador. A impressora cuspiu uma folha com letras miudinhas que o doutor lhe entregou.

- Maria, está na hora de mudar de vida. Siga as instruções que estão aqui nesta folhinha e vai ver que daqui a um mesito se sentirá como nova.

Ela levantou-se, pagou a consulta e saiu mais ligeira do que tinha entrado.

No táxi, de regresso a casa, leu de viés a folha com as instruções que o doutor lhe entregou. Procurou o nome do doutor e encontrou-o em letras pequeninas no rodapé da folha - Google.

- Ai Jesus, com este nome não admira que saiba menos do que eu!

E chorando o dinheiro gasto, abriu a janela e atirou o papel borda fora, rogando pragas à puta da vida.

Tema da semana: O Google está errado

Silvergirl escreve aqui

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Tema #2.4 - Maria Araújo

23
Fev20

Num domingo de chuva em que nada apetece fazer senão dormir uma sesta, depois de a fazer, fui para o computador pôr algumas leituras em dia.
Entrei no primeiro link de blogues da lista deste desafio de escrita, fui lendo os últimos posts até que num deles, soltei uma gargalhada .

Tratava ele de um almoço de aniversário de um familiar (uma idade linda, parabéns), e da variedade de ementas que os restaurantes oferecem de molde a satisfazerem os gostos dos clientes.
E eis que nesta frase leio: "Ao consultar a ementa, percebo que têm oferta para…canibais!Disfarçadamente, no meio do marisco, há carne humana. E não qualquer uma: é de mulher, fazedora de sapatos (provavelmente marinada em couro)!, seguida de uma imagem, a que me fez dar a gargalhada.
A sapateira é uma das variedades de marisco desta ementa. Ora estando ela traduzida para inglês e como nem todas as pessoas têm conhecimento da língua, o pessoal ( eu também) trata de ir ao google tradutor para encontrar a palavra correspondente. Estava, então, a sapateira traduzida como shoemaker ( sapateiro, homem/mulher que faz sapatos).

Mas foi o bom humor dos comentários, e a minha curiosidade, o mote para este texto do desafio de escrita.
Queria encontrar a tradução certa para esta espécie de marisco. Confirmei no google tadutor e lá estava shoemaker. De seguida, fui pesquisar por "sapateira, marisco" o google traduziu como seafood shoe rack, ah,ah,ah!
Num dos comentários que li, um anónimo referiu que encontrara na wikipedia o nome científico: " edible crab ou brown crab é este o resultado ao pesquisar pelo nome científico do "bicho" .
Não satisfeita, continuei a pesquisa, cheguei à palavra " stuffed crab" (caranguejo recheado) mas não era a tradução que eu achava ser correcta.
Como sabemos, o google diz-nos o que a palavra quer dizer, não vê o seu contexto e foi então que pelo nome científico, cancer pagurus, cheguei a um site onde aparece uma ficha ( ver imagem abaixo) com o nome científico, o nome comercial, e classificação do produto.

Temos, assim, o nome comercial de sapateira em inglês "toothed rock crab".

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O google ajuda-nos a encontrar e ler muita coisa boa, e menos boa, mas no caso das traduções, está errado. Cuidado, não vão comer gato por lebre! Ups! A 3ª Face diz:  "Marinada em couro por sapateira."
Agradeço à 3ª Face o momento de humor que me proporcionou, e porque estava sem ideias para o tema desta semana.

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Tema da semana: O Google está errado

Maria Araújo escreve aqui

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Tema #2.4 - Mula

22
Fev20

Continuação da história de D. Albertina, que podem ler aqui.

 

 

Após D. Albertina ter ido para Tomar,

Em busca fervorosa pelo seu antigo amor,

Finalmente percebeu o errado que é googlar

No Google as doenças, como um rumor!

 

Porque já se sabe, o Google não sabe tudo,

Apesar do que possam por aí defender.

E alertou D. Albertina como um som agudo...

D. Albertina achou que ia morrer!

 

"E vai D. Albertina, e vai", disse-lhe o Doutor,

Porque já se sabe que é a única verdade certa,

Mas D. Albertina olhou-o como a um impostor,

Logo agora que tinha o coração em descoberta.

 

Mas D. Albertina reconheceu-lhe o mérito,

Da paciência, da capcidade de a aturar,

E pediu-lhe apenas mais um remédio,

Para mais uns anos durar.

 

Porque agora D. Albertina apaixonada,

Queria para sempre viver,

E prometia não mais ao Google procurar.

Não mais a morte queria antever!

 

D. Albertina reencontrou o amor, 

Não em Tomar, mas no Barreiro,

Que o google também se enganou na localização,

Do seu amor único. O derradeiro.

 

Mas o google estava realmente errado,

D. Albertina não padecia de nenhuma doença,

E foi viver com o seu amor recém encontrado,

Lá para os lados de Fervença!

 

E nós muitos anos de vida lhe desejamos,

D. Albertina seja muito feliz,

Que não há idade para encontrarmos,

O amor que nos condiz!

 

 

Tema da semana: O Google está errado

A Mula escreve aqui

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