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Desafio de Escrita

Tema #2.3 - Fatia

20
Fev20

Pedi-lhe mais algumas indicações, que agora não vêm ao caso. Mandei-a sair apressadamente. Se metia o Barbosa, o problema seria maior do que ela pensava. Prometi-lhe que voltava a falar com ela, ainda naquele dia, mas para já tinha que fazer as minhas diligências.

Tranquei a porta. Emborquei mais um copo. Peguei no telemóvel e enchi-me de coragem. 

Tocou uma, duas, três vezes. Parte de mim desejava que do outro lado ninguém atendesse. Distraidamente, vejo no calendário que é dia 14 de Fevereiro. Ainda não me tinha apercebido da data e apercebo-me que vai trazer toda uma outra simbologia a este telefonema. Quase que desejo que aquele maldito trabalho não me tivesse batido à porta. O destino é cheio de curvas curiosas e esta mais parece uma inversão de marcha forçada. Mas não estou em condições de recusar um trabalho, por muito doloroso que seja.

Finalmente, alguém atende. Ambos demoramos a reagir. Ouço a respiração pesada do outro lado da linha. Em tempos, não seria assim.

- Pensei que não tivesses mais nada para me dizer. Que queres? -  a voz transparecia uma certa dor, uma amargura velha. Como as aguardentes, as mais antigas queimam mais. 

- E não tenho. Mas surgiste como referência num trabalho. Precisamos de falar pessoalmente. - mostro-me distante e inflexível.

Mais uns incomodativos segundos seguiram-se. 

- Hoje, às 17h, tenho um doente que desmarcou a consulta de seguimento. Encontramo-nos no meu consultório.

O som da chamada a terminar foi claramente um sinal de que não tinha hipótese de negociação. Em tempos idos, não teria sido assim.

Possivelmente, teria atendido a chamada a rir, a perguntar se queria conselhos amorosos para conquistar a Cláudia. Recordo-me do dia em que me ofereceu o "Manual para iniciar relacionamentos", com um conjunto de balelas de como agradar à mulher da nossa vida, em todos os campos. Tinha-o escrito ele, à mão, só para gozar comigo e com a minha incapacidade de lhe perguntar se queria ir jantar comigo um dia destes. Mas foi com base numa das suas ideias mirabolantes que a convenci a ir de fim-de-semana comigo para Vila Nova de Mil Fontes. Foi ele que lhe disse que eu era o homem da vida dela e que estaria parva se não dissesse que sim, ao meu tosco pedido de casamento, feito na torre dos clérigos (à falta de Paris, disse ele). Foi ele que esteve ao meu lado, no altar, quando me casei com ela. E era ele que estava de serviço na urgência, quando há 6 anos, ela deu entrada depois de despistar o carro, num dia dos namorados. 

 

(continua)

Tema da semana: Manual para iniciar relacionamentos

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Tema #2.2 - Fatia

20
Fev20

Ela voltou a sentar-se, limpou as lágrimas delicadamente com as pontas dos dedos. Sou um cavalheiro. Tirei o meu lenço do bolso, lavado, passado e dobrado pela minha senhoria, e estendo-lho. Aceita-o com alguma delicadeza e desfaz-se dele rapidamente.

- Se sabe quem sou, então saberá o que está em risco. Se isto se espalha pela comunicação social é o meu fim. 

As suas palavras são sinceras. Está visivelmente transtornada mas o meu instinto continua a insistir que algo não está bem naquele aparato todo. A começar porque fui eu o escolhido.

- Muito bem. Mas antes de sabermos ao que vamos, preciso de saber porque resolveu recorrer aos meus serviços...

- Não resolvi... - diz timidamente - confesso que nem sequer sei o seu nome.

A plausibilidade de todo aquele aparato caiu por terra. Ergo-me da cadeira, pronto a mandá-la sair, mas a curiosidade queimava-me os lábios. Ela estava suspensa nas palavras que apenas ousava pensar.

- Joaquim Pedrosa. Quim. Pode tratar-me por Quim. Fui inspector durante quinze anos até que... - hesitei - até que achei que precisava mudar de carreira. Sou investigador privado. Mas isso já a senhora sabe. O que eu preciso mesmo de saber, agora, é o que quer de mim.

Fita-me longamente.

- Preciso que descubra a origem destas... ameaças. Eu não tenho este dinheiro todo e não me posso arriscar que isto - e aponta para o telemóvel que jaz sobre a mesa - venha a lume.

- Para isso preciso que me diga tudo. Sem qualquer pejo.

- O que precisa de saber é que envolve um médico de renome. Cirurgião plástico. Dr. Francisco Santo e Barbosa. 

O nome congelou-me. A cor da minha cara esmaeceu ao ponto de ficar translúcido. 

- Sente-se bem inspector Joaquim?

- Quim. Só Quim. - afirmei enquanto me dirigia para a estante onde guardava o whiskey - Com médicos, sabe, nunca fiando - respondi-lhe enquanto emborcava a medida de um trago só.

(continua)

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

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