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Desafio de Escrita

Tema #2.2 - Silvergirl

10
Fev20

- Então, filha, já namoras? Vê lá se te despachas, não fiques para tia, se bem que no teu caso ficar para tia dava jeito a muita gente, os teus 6 sobrinhos até agradeciam e...
- Ai avó, não te chego eu, só assim, tua neta?
- Pois, chegarás... Mas companhia para aquecer os pés também faz falta. Ó Julinha, não me digas que gostas de mulheres. Se é isso, ó filha, eu também me habituo à ideia e assim como assim era ela quem te aquecia os pés.
- Prefiro homens, avó - ri-me. Há até um bem giro com quem me cruzo quando vou às consultas de dermatologia.
- Ah, conta-me tudo! Afinal há moiro na costa. Espera lá, ainda se pode dizer "moiro na costa"? É que com isto do politicamente correto eu nem me atrevo a dizer provérbios! Chiça, no outro dia a Laurinda dizia "pois, toda a gente acha que a vaca da vizinha é mais gorda que a minha" e foi logo um ai jesus, que ela tinha chamado vaca à que mora lá ao lado, já nem me lembro do nome... Mas e então, esse tal mocinho, é jeitoso, bonitinho? E o que faz da vida?
- É médico, avó.
- Ai cruzes, credo, filha. Mais vale só do que mal acompanhada! É que isso de médicos... nunca fiando. Acham sempre que sabem tudo e vai-se a ver e não sabem nada e lá andamos nós de cangalhas e quando damos por ela já temos um pé na cova e o outro quase lá a entrar. São os médicos e os padres – são cá uma raça!

- Então, mas desde quando é que os padres podem namorar?

- Pois, poderem não podem, mas vão namorando. Olha-se para eles, não partem um prato, é só água benta e o sinal da cruz, o tercinho na mão e o pai nosso na goela sempre pronto a debitar. Mas a verdade é que por um rabo de saias aquela batina já levantou mais vezes do que disseram a missa. Que tristeza…

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Silvergirl escreve aqui

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Tema #2.2 - Daniela Maciel

10
Fev20

  O cadáver

Se havia coisa de que a Doutora Lara se orgulhava era do seu trabalho. Vivia para compreender a morte e ajudar aqueles que não se podiam defender.
 
Aproximou-se do corpo que repousava na mesa de metal. Levantou respeitosamente a cobertura e dobrou-a para baixo até à zona da cintura.
 
Observou o corpo que tinha diante de si. Tratava-se de um jovem que não teria mais de 25 anos. Sentiu-se invadida por uma tristeza profunda. Não havia autópsias mais fáceis do que outras, mas era tão errado ter naquela mesa um jovem com a vida toda pela frente.
 
Através de uma rápida análise ao corpo, percebeu que não havia feridas visíveis. O jovem era muito bem-parecido e o corpo musculado indicava uma prática regular de exercício físico.
 
Segurou o bisturi na mão direita e, com segurança, aproximou a ponta afiada do peito do jovem.
 
― O que está a fazer?
 
A voz esganiçada assustou-a. Parou de imediato e voltou-se para trás. O seu assistente teria certamente chegado da pausa matinal.
 
Contudo, não havia ninguém na sala. Afastou-se da mesa de autópsia e deu uns passos em frente, apenas para constatar que ninguém entrara ali.
 
Sentiu um arrepio mesmo antes de se virar.
 
Nunca, em toda a sua vida profissional, assistira a um momento daqueles.
 
Atrás de si, o cadáver levantava-se da mesa, levando a mão direita ao cabelo para o compor, como se o facto de ter estado deitado tivesse arruinado a disposição dos seus cabelos castanhos.
 
― Oh meu Deus! ― A voz de Lara quase não se ouvia. ― Você está vivo!
 
― Vivo e de boa saúde.
 
Lara olhava-o estupefacta. Ele caminhava em direção a si. Ainda por cima todo nu!
 
― O que é que se passa?
 
― Isso pergunto eu. Você ia espetar-me um bisturi!
 
Ela quase gritou.
 
― Era suposto você estar morto!
 
Ele aproximava-se cada vez mais, parecendo procurar algo.
 
― O Rogério não tinha mencionado bisturis ― disse, enquanto agarrava um par de calças.
 
Como raio é que aquela roupa apareceu ali?, perguntou-se Lara.
 
― Desculpe? O que é que o Doutor Rogério tem a ver com isto?
 
Sentia agora a indignação a apoderar-se de si. Não podia ser coisa boa se vinha da parte do seu novo namorado, um cardiologista com pouca preocupação pela saúde das pessoas, uma vez que estava sempre a tentar provocar ataques cardíacos a toda a gente. Aquele médico não era de fiar.
 
― Ele queria fazer-lhe uma surpresa ― respondeu o jovem, já completamente vestido. Tirou um envelope do bolso e entregou-lho. ― Pediu que lhe entregasse esta mensagem.
 
Virou costas e foi-se embora, como se os últimos vinte minutos nunca tivessem acontecido.
 
Irritada, Lara abriu o envelope e leu a mensagem.
 
Olá querida! Feliz aniversário! Jantas comigo logo à noite? 
 

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Daniela Maciel escreve aqui

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Tema #2.2 - Tótó

10
Fev20

D. Lurdinhas e Sr. Eustáquio sentam-se à mesa para jantar.

<<"Ó Lurdinhas, na vais acreditari o caconteceu hoji na propriedadi. Ca coisa mai estranha.

-Atão homi quéquese passou?

-Fui pastar as cabras e levei a enxada comigo pra aproveitari e começari a preparar lá uma horta e avisto uma moça ao longi, a chigar-se perto daquela noguera muta grandi. Tu sabes qual é.  Pensei que fosse mais uma moça do riquinho. Mas a rapariga andava a meter-se cus pássuros e tu já sabes que nesta altura os pássuros pró lado da noiti gostam dir prá ali. A moça assustou-si com tante bicho e desatou a correri. Ai fartei-me de riri. A moça ia com tante medo que caiu no charco. Ah ah ah. Havias de ter visto.

-Ai home, tadita da moça. Ah ah ah. E tu ó menos fostes lá ver se ela tava bem?

-Pois claro que fui. Mas assim que maproximei, ela virou-se pra mim e começou a guinchar que nem um porco. Parecia maluca da cabeça. Até massustei. Perguntei se tava bem, se precisava dalguma coisa, mas ela só me dizia para na matá-la. Na percebi. Nesse mei tempe aparece o Jaquim jardinero, tinha óvido grites e veio acudir. Estava a podar as árvoris do riquinho ali perto, até veio com a tesoura na mão e tudo. E assim cu home chega ó pé, a moça guincha outra vez e a dizer para ná matarmos. Eu perguntei-lhe o quéque tava fazendo na propriedadi. Sera alguma amiga do riquinho. Mas a rapariga tava toda nervosa, cus olhos esbugalhados e a tremeri. Mas lembre-me daqueli moço da altura das festas da malta nova que veio pedir-nos canibais. Lembrasti? Ai o que me ri nesse dia. Fez-me lembrar esta moça. Até comentê cu Jaquim. Mas assim que eu falê na erva de canibais a moça desatou a fugiri outra vez e olha nunca maisa vi! Até disse ó Jaquim "Sa moça bebesse um chá daquilo na tava com tante nervoso. É que isso de médicos, nunca fiando. Ainda nos põem mais maluquinhos."

-Ai Eustáquio, e se a moça vai pró terreno dos toiros? ">>

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Tótó escreve aqui

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Tema #2.2 - Silvana

10
Fev20

—Sabes, acho que vou consultar uma taróloga!

—Estás louca? O que é que achas que uma taróloga poderá fazer por ti?

— Ei.. Ei! Para já aí! Por mim não! Por nós! O problema é comum. Eu não tenho um filho sozinha. Os meus óvulos precisam do teu espermatozoide. De preferência um dos bons.

Ele revirou os olhos. Já lhe faltava a paciência para o assunto. Andavam a tentar ter um filho há um ano. Até ao momento ainda não se tinha conseguido.

— Então? Não dizes mais nada?

— O que é que queres que eu te diga? Uauu… Bora lá ver o que é que as cartas têm a dizer relativamente ao nosso desempenho sexual. – Os olhos dela já quase saíam das órbitas, mas ele ignorou e continuou. – Não, espera! Vamos ver se as cartas atestam a saúde das nossas células reprodutoras, antes sequer de termos consultado um médico.

Ele ouvi-a respirar fundo umas três vezes antes de lhe dar uma resposta.

— Sabes que neste assunto, médicos, nunca fiando. Há uma certa aura mística no que toca à conceção de uma criança… Os ciclos lunares, o alinhamento dos astros… Já pensaste que podemos não estar a treinar no momento certo?

— Decididamente estás a ficar doida… Sim, podemos não estar a treeeiiiinar no momento certo, ou seja, não estamos a respeitar o teu período fértil. Ou os meus espermatozoides não estão com a pedalada suficiente para conquistar um óvulo dos teus. Mas querida, as respostas a estas questões não estão nas cartas de uma taróloga, estão nos exames que profissionais qualificados prescrevem e analisam.

— Puff…. Por que é que tens de ser tão científico? Por que é que não acreditas que conceber um filho é algo mágico.

Ele sorrio e foi sentar-se ao lado dela no sofá. Emoldurou-lhe o rosto com as mãos e falou-lhe de forma terna.

— Querida, conceber um filho é mágico, porque há amor. Mas nós precisamos de ir ao médico. Há médicos muito competentes nesta área. Só precisamos de procurar um que seja capaz de nos orientar.

Ela começou a chorar. Estava a tentar aligeirar algo que lhe estava a consumir a alma, mas não podia.

Ele beijou-a e fez amor com ela como se lhe quisesse aliviar a alma. Depois dessa noite já não precisaram de ir a tarólogas. Bastou o médico para fazer o acompanhamento pré-natal.

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Silvana escreve aqui

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Tema #2.2 - Ana de Deus

10
Fev20

esta manhã tive de ir ao hospital e uma amiga acompanhou-me. quando estávamos de saída ela aconselhou-me a procurar uma segunda opinião e concluiu: é que isso de médicos, nunca fiando. fiando! ou fiado? perguntou um médico, que seguia atrás de nós no corredor, de ouvido atento à nossa conversa. a minha amiga corou até às orelhas. eu ri-me. um riso nervoso de quem se sente desconfortável com a falta de privacidade. fiado? já na rua acabámos as duas a rir às gargalhadas. que bem que nos soube.

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Ana de Deus escreve aqui

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Tema #2.2 - Miss Lollipop

10
Fev20

Acordou tarde e a más horas, com o corpo dorido como se tivesse levado um enxerto de pancada e a cabeça a latejar como se no seu interior estivesse a tocar uma banda de heavy metal e hard rock em sonora sintonia

Mas a vida não se compadece com estados de alma decadentes e muito menos com corpos dilacerados, e toca de se fazer à vida, que custa a todos, embora mais a uns do que a outros.

E movido de uma força imaginária que nem ele conseguiu imaginar de onde saiu, rumou ao seu quotidiano atarefado, rezando a todos os santinhos que as tarefas do dia se tornassem leves como por magia.

Arrastando-se penosamente ao longo da sua jornada qual alma penada sem rumo definido, já em desespero de causa, tomou de um trago só uma mistura de sumo de laranja com água de coco com umas gotas de limão, polvilhado com bicabornato de sódio e pózinhos de gengibre com uma pitada de sal e colheradas de mel.

Já a vislumbrar uma luz muito ténue lá bem no fundo túnel, lembrou-se da noite passada do jantar da convenção de medicina e do sumo de pera com as 50 miligramas de vitamina B que todos os seus ingeriram logo de início para prevenir os previsíveis ataques nefastos do dia seguinte.

 Festa é festa, e se queres aguentar a noite toda sem te ires abaixo das canetas, fazer más figuras e ter uma ressaca monumental, não faças aquilo que dizes aos teus pacientes para fazerem, muito menos tomes o que lhes receitas.

É que isso de médicos nunca fiando…

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 Miss Lollipop escreve aqui

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Tema #2.2 - Joana Rita Sousa

10
Fev20

Não gostou do que ouviu

Maria não se sentia bem. era o corpo que lhe dizia que não se sentia bem. não sabia explicar o que sentia: o corpo é, por vezes, poupado em palavras. doía aqui, doía ali. havia um mal estar. tossia. dor? na cabeça. a perna está cansada. dormir? dorme mal. o jantar nem sempre lhe cai bem e já tem dado por si a vomitar.

Maria decidiu ir a um médico, mas não gostou do que ouviu. não ficou assustada com o volume de exames que lhe foi sugerido e com alguns cenários desenhados. não gostou do que ouviu, das palavras que o médico usou. foi muito técnico e parecia estar a falar de uma torradeira em vez da Maria.

Maria foi a outro médico. uma médica, para ser mais exacta. a senhora olhava-a por cima dos óculos e usava palavras muito compridas, incompreensíveis. Maria não gostou do que ouviu, sobretudo por não perceber nada. 

Maria decidiu ir a outro médico. na recepção da clínica pediu para marcar uma consulta com um poeta. a senhora da recepção ficou muito baralhada, pois por norma não pedem médicos com essa especialidade. a senhora da recepção, a Gertrudes, tem por missão não deixar um paciente sem resposta. e procurou um médico poeta. naquele dia não se falava de outra coisa: afinal, haveria médicos poetas? 

Maria recebeu um telefonema da Gertrudes com a indicação do dia e da hora para uma consulta com um médico poeta. Maria foi à consulta. e gostou do que ouviu. Maria está doente e sabe que vai falecer em breve, pois não tem muito tempo de vida. Maria recebeu essa notícia em forma de poema. 

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Joana Rita Sousa escreve aqui

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