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Desafio de Escrita

Tema #2.2 - Ana Catarina

09
Fev20

O Sr. Esteves era muito preocupado, já tinha perto de 75 anos e não era casado. Andava cheio de dores, muito atormentado. Ultimamente até lhe pesava a bexiga e andava sempre enjoado.

Foi um dia ao médico e disseram-lhe que era da alimentação. Que ele já não tinha idade para comer tantos doces, nem tanto pão. Passaram-lhe umas análises para fazer e uma caixa de medicação.

Das análises o sr. Esteves não fez caso nenhum, sabia bem que o pão não lhe fazia mal, jamais em tempo algum.
Depois de muito se queixar e sem diagnostico concreto, foi pesquisar então no google, para ver se encontrava algo mais certo. Apoquentado com o que logo leu, foi outra vez para o médico e ele a pronto o recebeu:

“Viva Sr. Esteves o que o traz aqui novamente?” Disse o Dr. Santana.

“Oh Sr. Doutor você nem sabe o mal que fez. Passou-me a medicação errada. É que fui pesquisar e na internet dizia que os meus sintomas são de uma ciese muito avançada. E isto já lá vão 3 dias! Posso estar já para aqui a morrer.”

“O Sr Esteves está com uma cirrose?” Inquiriu o doutor.

“Não doutor na internet dizia ciese, até pedi ao meu sobrinho que imprimisse! Olhe diz aqui que os meus sintomas são de 3-4 meses. O que é que eu faço doutor? Não sei se aguento um diagnóstico destes."

O médico começou-se então a rir:

“Tenha calma sr. Esteves está tudo controlado.”

“Controlado? Eu sabia que vocês não eram de fiar, estou aqui quase a morrer e o doutor nada de me ajudar. E o pior é que ainda se ri de mim. Este país é uma vergonha. Onde já se viu tratarem um doente assim?

“Calma senhor Esteves, eu vou acompanhá-lo durante estes nove meses.”

“Nove meses doutor?”

“Sim segundo a sua pesquisa está há 4 meses grávido e os próximos 5 meses passam muito rápido.”

“Ora? Grávido?” perguntou o senhor Esteves, muito atrapalhado.

“Sim senhor, ciese e gravidez têm o mesmo significado, abriu com certeza uma página pré-natal e nem deve ter reparado.”

“Ai doutor desculpe lá o mau jeito. Então afinal estou bem, não é este o meu leito?”

“Não senhor, nós podemos até nos enganar. Mas o Dr. Google esse é que não é mesmo de fiar!”

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Ana Catarina escreve aqui

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Tema #2.2 - Alice Barcellos

09
Fev20

O armário de medicamentos de Laís mete inveja a qualquer farmácia. Ela adora arrumar os compartimentos. Ver se falta algum item ao setor dos primeiros socorros, se os comprimidos estão na data de validade, se ainda há anti-inflamatórios. “Não passo sem estes aqui”, diz-me, enquanto separa as cartelas de medicamentos com as pontas dos dedos delicados, unhas curtas, mãos impecavelmente limpas.

Laís é aquela pessoa que tem sempre um comprimido na bolsa para desenrascar uma amiga com dores de cabeça ou cólicas. Apesar de disfarçar, vejo nos seus olhos a satisfação de ir buscar a pastilha ao seu nécessaire, que vai com ela para todo o lado, e entregá-la à amiga, acompanhada de um comentário sobre o suposto problema de saúde. “Joana, tens de ver estas dores de cabeça, li que podem ser sintoma de alguma doença grave, um tumor ou um aneurisma”, diz, com ar de sabichona, a olhar por cima dos óculos.

As amigas riem dos seus diagnósticos. “Ai sim, Laís, foste consultar-te com o Doutor Google?”, pergunta Joana. E Laís responde. “Sim, eu informo-me antes de ir a correr ao centro de saúde. Informação é poder. Bem sei o que já passei nas mãos de médicos, com aquele olhar de desdém, nunca nos dão uma explicação razoável dos nossos problemas e nos mandam para a casa com o tratamento menos indicado. Não, minhas amigas, isso de médicos, nunca fiando. Confio mais no Doutor Google...”

Há dias que não a vejo e sinto um aperto no peito. Tenho tentado tirá-la de casa, mas sem sucesso. “Laís, anda dar uma caminhada à beira mar, estão temperaturas de primavera”, escrevi na última mensagem que lhe mandei no domingo. Sei que ficar fechada em casa só vai piorar a sua doença, nunca assumida, mas tolerada por todos. Também eu já fui perguntar ao Doutor Google o que era hipocondria e o que poderia fazer para ajudá-la. Mas Laís não quer ser ajudada. Eu que gosto tanto daqueles olhos verdes e consigo ver a mulher linda, além daquela paranoia toda. Queria tanto ajudá-la. É frustrante. Ao menos, vai respondendo às mensagens.

“Marta, já viste a epidemia que por aí anda? Sair de casa só para o estritamente necessário. Vê lá se compras uma máscara e evitas andar de transportes públicos. Ah, e faz reforço do sistema imunitário com aqueles suplementos que te dei. Cuida-te, querida. Beijinhos, Laís”.

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Alice Barcellos escreve aqui

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Tema #2.2 - Mami

09
Fev20

penso já o ter dito anteriormente, algures neste meu aconchego das palavras: nunca tive tantas dúvidas, nem tantas certezas, como quando me tornei mãe.

as certezas dominam o campo afetivo, as dúvidas, todos os outros. o receio de tomar a decisão errada, de não fazer a coisa certa, de prejudicar aquele pequeno ser que em tudo depende de mim… rouba-me o sono e enche a minha cabeça de macaquinhos saltitantes e ruidosos.

numa das primeiras consultas com o médico de família (a catraia teria quanto muito um mês), o sr. doutor disse-me que a menina não deveria ser exposta ao sol, visto ter uma pele muito sensível. explicando que deveria, por isso, tomar vitamina d. confesso que fiquei presa na expressão “não deve ser exposta ao sol”. questionei: não deve como? nunca? nem nas horas menos nocivas? o médico foi perentório: não deve ser exposta! sendo ela um bebé de inverno, insisti: nem no verão, em que já está mais “velhinha”? novamente um seco “não”. eu que amo o sol fiquei logo de coração pequenino. mas pronto se tem de ser, que seja. tudo pelo bem da minha pequena flor.

tempos depois optei por arranjar um pediatra para a pequena. depois de muita reflexão conclui que para os primeiros tempos seria importante ter alguém especializado que a acompanhasse. quando no meio da avaliação o médico questionou se ela estava a tomar vitamina d, respondi que sim, e ele anuiu. aproveitei e contei o que foi dito pelo médico de família a propósito da exposição ao sol. o pediatra ficou em choque. depois deu-me uma seca de 10 minutos a explicar a importância dos banhos de sol defendidos e praticados nos países da américa latina e pediu-me autorização para usar este exemplo quando tivesse de recorrer a situações  práticas para demonstrar aos seus alunos a falta de conhecimento de alguns médicos sobre determinadas temáticas.

concluindo: o sol dá saúde. em tempo ameno é de fazer banhos de sol nos horários mais saudáveis, ou seja, entre as 9h00 e as 10h00 ou as 17h00 e 18h00 (mais coisa menos coisa). é mesmo para dizer “é que isto de médicos, nunca fiando” e por isso, agarro-me a versão que mais me agrada e, vamos lá assumir, de sol os da américa latina percebem mais do que nós!

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Mami escreve aqui

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Tema #2.2 - Charneca em Flor

09
Fev20

- Sabe, sôtora, a minha médica agora nem olha para mim. Uma pessoa entra no consultório e ela nem tira os olhos do coputador.

E a átensão? Já não me tira a átenção há mais de 2 anos. Nem me dá a credencial para as análazas. Ando com uma dor aqui nas cruzes desde 1980 mas ela não me manda tirar uma chapa. É o que lhe digo, sôtora, a médica não me liga nenhuma.
Se não fossem as meninas aqui na farmácia… Aqui é que me ajudam muito.

Razão tinha o meu falecido em não querer ir ao médico. Assim que foi lá a primeira vez, apareceram-lhe logo diabretescastrol, próstata e átensão alta. Antes de ir à médica, o meu hôme nunca andava doente. Olhe começou a tomar aqueles remédios todos, como a sôtora se deve lembrar, e nunca mais foi o mesmo.

Não se pode acreditar nos médicos, digo-lhe eu. É só apanharem-nos lá que nos inventam logo uma série de doenças. E é só receitarem, receitarem… E operações, então? O meu hôme foi aberto umas 5 vezes e os médicos só conseguiram que ele ficasse cada vez pior. Foi desfinhandodesfinhando, até abalar de vez. Coitadinho. Já lá vão 15 anos.

Faz-me tanta falta. É verdade que ele me dava umas chapadas de vez em quando mas não era mau hôme. Nunca me faltou com nada, nem a mim nem aos filhos. Tinha aquela fraqueza de ir à taberna do Ti Chico ao domingo e quando vinha com o grão na asa… mas era muito meu amigo. Agora para ali estou sozinha.

Os meus filhos telefonam, de quando em vez, mas eu começo-me a queixar das minhas dores e ficam logo cheios de pressa para desligar. Só sabem dizer: “ – Então e a mãe já se queixou à médica?”

Queixar-me para quê?! Ela só me sabe receitar BanaronBanaron. Aquilo não me faz nada.

Então, sôtora, estou a falar, a falar. Se calhar, estou a atrapalhar o seu trabalho mas só aqui é que me ouvem. A médica assim que entro à porta já me está a pôr as receitas na mão. Só me quer ver pelas costas. Vossemecês têm sempre paciência para me ouvir. As meninas são umas santas.

Quanto lhe devo, sôtora?

P.S. – Esta é uma singela homenagem aos meus utentes. Em 20 anos de experiência, já ouvi muitos monólogos destes.

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Charneca em Flor escreve aqui

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Tema #2.2 - Inês Pereira

09
Fev20
Ora aqui está uma frase que tem muito que se lhe diga. Bem, pensando melhor, isso até é algo habitual nos temas propostos pelos pássaros, não é verdade? Que isto são pessoas com uma imaginação muito fértil e que encontram sempre assuntos cabeludos e complexos. É o caso do tema desta semana, que falar de médicos e de saúde pode ser muito polémico. 
 
Se bem que do modo como a sociedade está, até falar que o céu é azul pode gerar uma polémica nas redes sociais e no mundo em geral. Que anda toda a gente muito preocupada com o que um determinado grupo de haters decide destilar pelos Facebooks desta vida. Mas não é dessa malta que vamos falar hoje, mas de médicos. 
 
Confesso que não sou muito adepta de visitas a médicos e afins. Talvez seja das que diria a frase do título desta semana, que prefere evitá-los sempre que possível e que defende que quem procura, acha. Tirando as obrigações de rotina, dificilmente irei para o médico porque me dói alguma coisa. Aliás, nem tomo medicamentos para essas coisas, a menos que seja uma dor mesmo insuportável, tipo as de dentes e as de ouvidos. 
 
Não é que não acredite nas qualidades dos nossos profissionais de saúde, mas não tendo a dramatizar. Pelo contrário, desvalorizo a maioria dos sintomas e acredito que a maioria dessas pequenas coisas passa por si própria, sem ser necessário ingerir químicos que, depois de tanto usar, deixam de fazer efeito quando é mesmo necessário. 
 
No entanto, não sigas o meu exemplo e visita o teu médico com regularidade e sempre que aches necessário. Afinal de contas, mais vale prevenir do que remediar, não é? 
 

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Inês Pereira escreve aqui

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Tema #2.2 - Isabel Silva

09
Fev20

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Sentia-se vazia, triste, ansiosa e sozinha, mas não chorava. Sentia-se à beira de qualquer coisa, mas não sabia explicar que coisa era essa. Sentia-se nada. Como se o mundo não soubesse da sua existência, do seu nome, do que já tinha chorado e rido, do que já tinha caminhado, do que já tinha sonhado. Como se o mundo não soubesse do que ela já tinha visto, os pássaros, as flores, as árvores e os seus frutos, que ela também tinha desfrutado e degustado. O sol quando nascia nos montes por detrás da casa da avó, e quando o sol se punha lá ao longe e se escondia dentro do mar. Das cores que essas ocasiões punham em todo o céu, e como pareciam pintadas por anjos travessos. Ela tinha visto e sentido tudo isso, mas era como se não o tivesse feito.

Era nada, ninguém, um fantasma que se assombrava a si próprio. Mas ela queria ser alguém, queria ser alguma coisa, queria que a vissem, que a amassem, que a quisessem e por isso não chorava.

Diziam-lhe que não era assim, que a amavam, que a queriam e ofereciam-lhe ajuda, ajuda que ela recusava, por ter a convicção de que lhe mentiam, que só queriam levá-la ao homem que diziam que era médico, e que dizia que era maluca, que o seu lugar era lá na casa grande, onde as pessoas dormiam e dormiam, ou gritavam e gritavam, mas não viviam.

Lembrava-se da avó e das suas palavras sobre o tio, aquele tio com quem brincou e a quem a sua avó tratou sempre com o maior dos carinhos, o maior dos cuidados, dizendo sempre que não queria os médicos a dar palpites e opiniões, com os quais ela não concordava - É que isso de médicos, nunca fiando - E foram essas as palavras que nunca esqueceu, porque foi o amor da avó que deu vida ao tio, e fez com que ele tivesse sido uma pessoa feliz.

Mas, ela já não tem a avó, nem o tio. Só tem quem não a quer, quem não a ama. E ela sentia-se nada, porque no nada ela vivia, e por isso não chorava.

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

Isabel Silva escreve aqui

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Tema #2.2 - João Lopes

09
Fev20

O som da música que crescia do rádio aos meus ouvidos, trouxe-me de volta, ao fundo a obscuridade da sala ainda permitia visualizar um azul desmaiado, tingido na parede fria. Até ali chegar percorri corredores indiferentes, deitado numa maca empurrado por alguém, onde só a cabeça e ombros se destacavam aos meus olhos. Vultos trajando vestimentas inteiriças da cor da parede, trazendo ao pescoço estetoscópios, não se cansavam de andar para lá e para cá. Mais consciente, pressuponho o cochicho de vozes femininas atrás da minha cabeça, fico a perceber que comentam as notícias de uma revista onde os assuntos destacados são as vidas de outras pessoas. Não estava assim tão ruim, para estarem assim relaxadas, abro os olhos, fechando-os rapidamente de seguida. O feixe de luz intensivo proveniente de um lampadário feriu-me a vista de tal maneira que não me atrevi abri-los de novo. Mas uma coisa não determinada chamou-me a atenção, vi o meu corpo nu, reflectido no quebra-luz, ali estava exposto, se tivesse intenção de escapar, não podia fazer nada, não sentia as pernas, tinha o tronco cheio de ventosas às quais se uniam fios, no braço entrava um líquido através dum tubo de plástico. Ao meu redor de cara tapada, homens e mulheres usando uma toca na cabeça e luvas nas mãos que seguravam objectos cortantes. Não era o matadouro, mas cortavam a minha carne, sentia o bisturi a rasgar, mas não tinha dor. É que isso de médicos, nunca fiando, acabei por expressar a minha dúvida. O espanto generalizou-se à equipa, prontamente resolvido com a abertura da pequena torneira presa ao tubo de plástico. Voltei ao torpor inicial, sem deixar de os ouvir, alguns impropérios eram proferidos quando algo não corria como queriam. Novamente os meus olhos se fixaram no quebra-luz, mexiam, puxavam, tornavam a cortar mais abaixo, a carne era de um vermelho rosado, não conseguia desviar os olhos. Só quando o som semelhante ao de agrafos a espetarem-se na carne é que desisti de olhar. Aquele som metálico torturava-me um pouco, tive de o suportar umas quantas vezes ainda. No final deram-me os parabéns, a intervenção tinha corrido bem, colocaram-me na maca que me trouxe, ficaram preparados para o próximo. Eu permaneci expectante que as minhas pernas voltassem a ter vida outra vez. É que isso de médicos, nunca fiando!

Tema da semana: É que isto de médicos, nunca fiando

João Lopes escreve aqui

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