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Desafio de Escrita

Tema #2.1 - Fatia

06
Fev20

Pego no meu cigarro electrónico com algum desprezo e tristeza. O vício real deixei-o no passado, onde moram os arrependimentos, que se passeiam nas tristes alamedas da minha memória. Quando empurro uma baforada daquele ar quente para os meus pulmões, vejo o vulto que se aproxima da porta. O vidro fosco deixa antever umas pernas altas, umas ancas torneadas e uns cabelos compridos. A timidez com que bate à porta grita ao meu sexto sentido que algo não vai correr bem neste caso.

Ser detective privado foi uma escolha não voluntária. Depois de uma breve e meteórica passagem pela polícia, o meu ímpeto pôs-me a perder. A solução foi abrir um consultório discreto, numa cave bafienta, com uma senhoria de 80 anos que insiste em ver-me como o seu filho, há muito morto na guerra em África. 

Mas voltemos ao caso. A porta abriu-se e a luz contornou-lhe a silhueta, deixando-me intimidado. Num aceno de cabeça mandei-a entrar e sem demoras sentou-se à minha frente, com o telemóvel a saltitar entre mãos. Olhou de soslaio para o meu cigarro electrónico. Não a condenei. 

- Falaram-me que era o melhor do seu ramo - sinto-lhe a desconfiança na voz - preciso da sua ajuda.

- Talvez não seja o melhor, mas seguramente sou o mais empenhado. Se isso servir, diga-me que tipo de ajuda precisa.

Sem hesitar, estende-me o telemóvel e mostra-me uma mensagem com um pedido de resgate. Os meus olhos, habituados a bater mensagens de todo o tipo, sentiram a veracidade da ameaça e o cliché, bem representado, rematava com o "não chame a polícia". Tinha um link. Malditos hackers. Malditos links. Agora tudo tinha meio de pôr a nu a vida de uma pessoa. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Devolvi-lhe o telemóvel.

- Ninguém pode saber disto. Sabe quem eu sou?

Aquilo não era um concurso de a tua cara não me é estranha. Não controlei o esgar. 

- Sei. E por isso acho muito estranho que não seja o serviço de informações de segurança a receber isto. 

Levantou-se de rompante, bateu com os punhos na minha secretária do IKEA a imitar mogno e avançou para mim furiosamente:

- Está a brincar comigo? Não quer o caso, bato já a outra porta. - e neste perfeito teatro, agarrei-lho o pulso quando já se virava para sair, fazendo-a estacar: 

- Acho que a coisa não vai correr bem, mas estou ao ser dispor.

(continua)

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Fatia escreve aqui

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Tema #2.1 - Caracol

06
Fev20

Passo a vida a dizer isto. Não muito alto, não quero que outros ouçam a minha insegurança, mas digo-o silenciosamente, para mim. 

Digo-o quando desço as escadas molhadas em direção à lavandaria, sabendo de antemão o perigo de escorregar. 

Digo-o quando subo a uma cadeira para chegar a uma prateleira mais alta. 

Digo-o quando forço um bocadinho e sinto a lombar a picar. 

Digo-o todos os dias, quando olho para o meu filho mais velho adormecido: acho que a coisa não vai correr bem. 

Tenho medo. Muito medo. 

Medo que a rapariga se antecipe e conheça o mundo antes do tempo. 

Medo que fique internada dias a fio e eu sem saber se me vire para a mais nova se para o mais velho. 

Medo da ansiedade que a minha estadia no hospital vá provocar em casa. 

Medo de precisar de mais dias do que os dois com que fervorosamente acredito precisar. 

Medo que a primeira reação não seja a melhor. 

Medo de não estar à altura de dois filhos tão pequenos. 

Medo de a coisa não corra bem e não segure todas as pontas, como sempre me habituei a fazer. 

Medo de lhes falhar, de não conseguir estar lá para eles, da mesma forma e com a mesma plenitude que para um. 

Mas depois... Depois, lembro-me que isto é, no fundo, a única melhor coisa que poderia acontecer. 

Lembro-me como vai ser giro voltar a ter um bebé, apesar do que tudo isso implica.

Lembro-me que tudo aquilo que o Caracolinho sempre pediu foi uma mana e, mesmo passando pela inevitável adaptação e possível rejeição à rapariga, vai adorar ter alguém para ler histórias e brincar ao faz de conta. 

Lembro-me o quanto odiei ser filha única, o quão pesadas são as cargas quando só existe um para equilibrar com a barra. 

E por isso, mesmo sabendo que haverá dias que a coisa não vai correr bem, guardo o medo no bolso pequenino das calças de ganga que agora não servem, para me lembrar dele quando as coisas correrem bem. 

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Caracol escreve aqui

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Tema #2.1 Miss X

06
Fev20
 

Deus e o Homem não se entendiam

Dos dois o mais divino seria quem?

Entre eles sete desafios decidiram

Será que a coisa iria correr bem?

 

Haja luz e a luz assim surgia,

Da escuridão Deus fez noite e da luz fez dia.

O Homem com luz a noite matou

E com uma lâmpada o dia eterno criou.

 

Deus decide criar o céu por cima da terra

E o ciclo da água que ela encerra.

O Homem, torneiras, barragens, metereologia,

Até água engarrafada a trinta cêntimos havia.

 

Deus arreliado cria a terra seca e os mares,

Continentes, ilhas, vegetação, ananazes.

O Homem, óculos de sol, calções, praias,

Bolas de Berlim, biquinis e mini-saias.

 

Deus irritado inventa os corpos celestes.

No céu estrelas, a lua, o sol nos oestes.

O Homem constrói satélites e um foguetão

E na lua um astronauta cai num tropeção.

 

Deus cria os animais das águas e do céu.

Cardumes de peixes, aves em escarcéu.

Barcos, pranchas, surfistas a comer croissants.

Um avião? Oh não! O super-homem em collants.

 

Deus à beira do colapso perde a Razão

E do homem cria a mulher num arroubo de paixão.

O Homem embevecido, perdido num sorriso.

E com uma maçã apenas, se perde o Paraíso.

 

 

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Miss X escreve aqui

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Deus finalmente descansa ao sétimo dia

E ri-se à gargalhada com a sua ironia:

"Shhhhh! Não contem a ninguém,

Mas acho que a coisa não vai correr bem"

Tema #2.1 Pedro Vorph Valknut

06
Fev20

Deito-me, à manhã, atrasado. Debruço-me ao espelho do fundo da rua e inquieto-me numa indecência risonha. Meço o dia num estremecimento em sombra. Vogando à toa, velo por mim, e vejo, da ré, a vida de dó. "Viver é esquecer" lembro-me. A luz, mortiça, fia-me, em cotão, memórias de ocaso. Poucas, minhas, muitas outras, alugadas. Tanto faz. O que vivi, vivi, umas vezes só, outras sozinho, sentado, desbaratando-me, num sem crer. Tudo passou, em eterna repetição. Pus-me no jeito que a vida me deu. Um meio debruçado-fodido de belo efeito. Troco-me, ao passar de página, e nos pés, leio uma sina de asco. És tu, isto? À cabeceira poiso, em náusea, uns dentes baratos. Na boca, ninguém. A solidão, estoirou-me, na certa, o miolo. Enrolo-me no quarto, como nascente, apartado de tudo, apertado num quase nada, total, à espera do tiro acidental, fatal. O corpo estremece mole, sem tesão, ou tensão. Sangro absolutamente morto, sonhando estar no nascer de novo, a fuga....coisas novas e sérias, teria. E eu, por elas, um outro coiso seria. Com sorte, talvez, um gelado lambido, uma côdea mordida, tanto faria. Queria apenas ser capaz desse amor espiado em outros...mas não resta nada, nem nesse copo jogado, agora, à sorte, para uma certeza de perto. Estou falido, gastado. Em tudo o que é novo vejo, somente, quinquilharia caiada. "Pára miolo, deixa-me marinar no marimbando". Sendo, ergo-me, a custo de pulso, só, até à retrete e Acho Que A Coisa Não Vai Correr Bem... mas se ela passar que me embarque, do largo, até ao muito longe. Pudesse eu ter, quem não fui.

 

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Pedro Vorph Valknut escreve aqui

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