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Desafio de Escrita

Tema #2.1 - Silvana

04
Fev20

Mal vi o tema desta primeira edição pensei O que é que eu vou escrever sobre isto? (principalmente quando ando numa fase de pouca criatividade).

Os dias iam passando e as ideias não surgiam. Fui engolida pelo rebuliço da semana (rebuliço esse que começou logo no início deste mês) e como tinha uma altura mais vaga na sexta de manhã achei que seria uma boa altura para me dedicar ao tema.

Ontem à noite ainda não tinha ideia do que escrever. Começaram a vir outras tarefas e claro que ideia foi, acho que a coisa não vai correr bem ao deixar o tempo avançar sem escrever nada.

E, tal como aquelas profecias que se auto cumprem, eis-me aqui em frente à branca e assustadora folha do word sem saber o que vos escrever. Como vos deve parecer bem óbvio a coisa não está a correr bem e a pressão de inventar algo em tempo record levou-me a estes devaneios mentais.

Quantas vezes já vos aconteceu as coisas não correm bem depois de na vossa mente formularem o pensamento de acho a coisa não vai correr bem? Por estes lados não consigo ter dados suficientemente válidos para vos dizer que os acontecimentos se traduzem em diferenças estatisticamente significativas entre as vezes que correram bem ou mal depois de tal pensamento.

Isto leva-me à psicologia positiva e ao otimismo. Se por um lado gosto da filosofia inerente à psicologia positiva (e atenção que ela não defende que o mundo é cor de rosa e cheio de unicórnios cintilantes e simpáticos) por outro o meu otimismo é algo cinzento. Então, muitas vezes, dou por mim a pintar o cenário de um negro assustador enquanto outros se vêm obrigados a introduzir umas cores para que eu não seja engolida pelo buraco que crio.

E assim, saltando de um tema para outro, lá cheguei às 300 palavras. Afinal, até que a coisa não correu assim tão mal. Espero que o próximo tema me desperte mais a imaginação e claro, não posso deixar que a semana me engula e não me deixe energias para produzir um texto melhor em tempo útil.

Por fim, deixo apenas uma palavra de positivismo a todos os novos pássaros. Espero que gostem desta aventura e acreditem, a maioria das semanas, as coisas até correm bem.

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Silvana escreve aqui

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Tema #2.1 - Alexandra

04
Fev20

"Acho que a coisa não vai correr bem, aquela doida nã deve 'tar boa da cabeça, isto nã pode fazer bem ao cabelo." 

A miopia da Constança não a deixa ver as letras pequenitas do rótulo do frasco da compota de abobora com amêndoa que a Rosa lhe vendeu... mas vai de lavar a cabeça com Linic, que tem andado com caspa, 2 em 1, que não tem paciência para amaciadores. Passa por água e vai de encher o cabelo de compota... Prende o cabelo com uma mola, enrola-se numa toalha e vai para a cozinha.

Faz uma torrada, com a outra compota de abóbora que comprou e liga à Rosa.

- Tá!!

- Oh Rosa, estou a usar a máscara capilar que m'indicaste. Cheira bem e sabe melhor.

- Então mas só agora é que experimentas?

- Olha lá o Ti Firmino já mandou vir as capsulas de café que te falei?

- Achas? Por vontade dele só vendia café de filtro e Mokambo. Cada vez está mais ranzinza.

- Mas ele nem é mau home, só que prontes, é doutros tempos…

- É muito bom quando não está cá. Estou farta dele e disto tudo.

- Ai melher, isto d'início coise, mas agora está a dar uma comicha...

- Coça. 

- Ai Rosa, está a comichar muito, melher. AI JESUS!! Estou cos cabelos todos colados, acude-me!!

- Vai já para o chuveiro e lava a cabeça pah!

- Então mas assim vai passar o efeito!

- Deixa-te de parvoíces, vai lavar o cabelo. Eu já aí passo.

Constança foi para o chuveiro outra vez. Sacana da compota tinha-se transformado numa pasta nhequenta que não queria descolar e a rapariga já desesperava, mas com água bem quentinha e muita paciência lá conseguiu derreter o doce e já secava o cabelo com a toalha quando a Rosa lhe bateu à porta.

- Olha Rosa, nunca mais. Estava a ver que ficava careca. Mas ao menos agora está desembaraçado, seca-me lá o cabelo. Aproveito e esticas-mo.

- Olha, podíamos ir almoçar à Glória outra vez, ela diz que tem umas coisas da Matilde para nos contar.

Enquanto esticava o cabelo à amiga, Rosa via que que os cabelos ruivos de Constança brilhavam como nunca.

- Oh! Constança, olha que estás cum cabelo bem bonito! Estou aqui a pensar que…

- Nem penses!! Pareces a Caracol, para com ideias.

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Alexandra escreve aqui

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Tema #2.1 - Fátima Cordeiro

04
Fev20

A BUSCA DE SCOTT

O expresso entrou na garagem de forma barulhenta, como sempre. As capacidades de audição dos passageiros são assim sempre testadas, quando se chega àquela cidade que fica no Litoral mas toda a gente pensa que fica no Interior. E que toda a gente acha que é muito cosmopolita mas no final é apenas uma aldeia grande.

Quatro pessoas saíram do expresso e foram buscar a sua bagagem. Scott foi um deles. Vestia uma samarra (Scott preferia chamar-lhe Afghan coat). Trazia uma mochila e duas malas pesadíssimas que teve de arrastar até ao táxi. Era Domingo de manhã, por isso a cidade estava silenciosa. Viveria alguém aqui?

O motorista de táxi não simpatizou com Scott. Não lhe apetecia falar muito. Quando Scott lhe nomeou o hostel para onde iria o homem olhou para as suas rastas e pensar:

– Acho que a coisa não vai correr bem!

Scott é norte-americano. Nasceu no Summer of Love em Nova Iorque, onde sempre viveu. Quis ser actor, mas apenas fez duas séries que nunca lhe trouxeram fama nem fortuna. Pelo contrário, tem 53 anos e está endividado. Ouviu falar de um país diferente – Portugal – e a ideia de mudar de ares agradou-lhe muito. Mas capital do país cansou-o ao final de alguns meses. Por isso decidiu descobrir outras paisagens. Foi a descoberta da existência de um rei-poeta que o trouxe até aqui. Será que as coisas vão correr bem?!

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Fátima Cordeiro escreve aqui

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Tema #2.1 - Triptofano

04
Fev20

Carolina olhou para o galão.

No último ano e meio tinha-se sentado todos os dias no mesmo lugar junto à janela daquele café, sempre com o olhar ausente, à espera que ele aparecesse, mesmo nos dias em que sabia que ele não iria vir.

Estava desempregada há mais anos do que poderia recordar e o seu dia era uma amálgama de recordações, comprimidos para dormir, comprimidos para acordar, comprimidos para esquecer, e a rotineira visita ao café, sempre à mesma hora da tarde, sempre com a cabeça baixa, sempre com o olhar vazio.

Pedia sempre o mesmo, um galão de máquina e um bolo de arroz, que fazia render durante um par de horas, até que ela o pudesse ver através da imaculada fronteira de vidro, que o fazia estar tão perto mas tão longe ao mesmo tempo. Um dia tinha pedido um queque com pepitas de chocolate, um dia em que se tinha sentido corajosa, viva, animada, para rapidamente compreender que as pepitas de chocolate não eram mais que passas ressequidas que cuspiu nauseada para um guardanapo de papel.

Todos os dias comprava uma revista que tentava ler enquanto olhava para o relógio. Sabia as horas em que ele ia aparecer e esse era o momento alto do seu dia. Tudo o resto era comprimidos, galões, bolos de arroz e imagens em revistas. Quando já tinha comprado todas as revistas possíveis e imaginárias voltava a comprar uma repetida e li-a de trás para a frente. Era quase como se fosse uma revista nova.

Há ano e meio que Carolina tinha perdido a guarda do filho. O ex-marido tinha conseguido em tribunal tirar-lhe até as visitas quinzenais ao fim-de-semana, alegando que ela era neurótica, psicótica e instável, e que o filho estaria melhor sem a influência nefasta da mãe.

Tudo o que lhe restava eram aqueles pequenos segundos em que via o filho através do vidro da janela do café, vindo da escola agarrado firmemente pela mão do pai. Carolina aguardava pacientemente o filho todos os dias há ano e meio, mesmo nos dias em que sabia que ele não viria por a escola estar fechada.

Aquele dia não era diferente. Estava quase na hora.

Com a precisão de um relógio pai e filho passaram à frente do café onde Carolina desaparecia cada dia um pouco mais. Nenhum olhou para ela. Há muito tempo que ninguém se dava ao trabalho de verdadeiramente a ver. Tinha-se tornado invisível para o mundo.

Abriu a carteira, depositou cinco euros em cima da mesa e levantou-se em direcção à porta.

Colocou a mão no bolso do casaco e sentiu o frio metálico do revólver que tinha comprado numa qualquer página da Internet.

Saiu para a rua procurando com o olhar pai e filho. Sabia que aquilo não iria correr bem. Mas no fim de contas, que mais tinha ela a perder?

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Triptofano escreve aqui

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Tema #2.1 - Ana Sofia Neves

04
Fev20

Acho que a coisa não vai correr bem, esta II edição do Desafio dos Pássaros tem tudo para  me correr mal, muito mal...

- Comecemos pela passarada, uns pardais com ideias pirosas e sem sentido para temas a quem nós dizemos “amén”;

- Somos uma data (nem sei quantos somos) de pintassilgos que recebem um email com o tema escrito a vermelho, a vermelho!... só podem ser do benfas!!! Mudem lá a cor para verde!;

- Escrevemos o que nos vai na cabeça e na alma, tentando cumprir o tema, dando voltas e mais voltas até ficarmos enjoados e com dores de cabeça.;

- Andamos numa corrida contra o tempo, sempre a esgalhar para o texto publicar, mas não podemos falhar, porque senão lá vêm os chefes ralhar (não vêm nada, é só para rimar);

- Falta tempo para ler todas as participações, eu tento, mas não consigo mesmo...;

- Gostava de comentar mais, mas prometo que é uma das minhas resoluções para este novo desafio.;

- Há, quase sempre, destaques no sapo, por isso, dentro de todos os textos encontra-se algum de jeito...

- Conversa-se sobre os textos e há sempre interações fenomenais.;

 

Posto isto,  acho que a coisa, afinal, até vai correr bem, tem tudo para continuar a correr bem!

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Ana Sofia Neves escreve aqui

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Tema #2.1 - Daniela Maciel

04
Fev20
        O salto

Estou aterrorizada.

Olho para baixo, por cima das grades de metal, e tento calcular a distância entre os meus pés e a água salgada. Diria que serão mais de quarenta metros mas não consigo precisar.

Do local onde me encontro, a água revela-se demasiado escura, embora se veja um leve brilho provocado pelo embate dos raios solares.

Nunca o rio me pareceu tão intimidador. Mas, para ser sincera, também é a primeira vez que o fito deste exato local, enquanto pondero atirar-me da ponte.

Todo o meu corpo treme. As minhas mãos estão pegajosas e suadas. Os meus joelhos fraquejam. O sangue corre depressa demais pelas minhas veias.

Não sei o que me passou pela cabeça para me desafiar a fazer bungee jumping. Na verdade, quando redigi a lista das “dez coisas a fazer antes de morrer”, nunca pensei que chegasse tão depressa ao último item. Acreditei que simplesmente não teria tempo. É pessimista pensar desta forma, eu sei, mas esta lista foi a primeira coisa que escrevi assim que cheguei ao carro, depois do médico me dar o diagnóstico que ninguém quer ouvir.

Agora, volvidos quase dois anos, acho que toda aquela quimioterapia me fritou o cérebro.

Sinto agitação à minha volta. Oiço alguém dizer que está tudo pronto. Olho por mim abaixo. Vejo um emaranhado de cordas. Um arnês rodeia-me a cintura. O capacete pesa-me na cabeça. Estou pronta para a guerra.

Acho que a coisa não vai correr bem, penso. Mas depois apercebo-me de que devo ter falado em voz alta, porque a mão do meu namorado agarra a minha e oiço a voz dele a sussurrar-me ao ouvido.

— Vai correr tudo bem! É o último item da tua lista.

Ele está claramente mais animado do que eu. Nunca viu esta lista como algo fatalista, mas sim como um conjunto de objetivos em que nos podíamos concentrar durante o combate à doença.

Dou alguns passos em frente, percorrendo a plataforma de madeira que me dá acesso à aventura. Sinto a adrenalina a envolver-me. E finalmente salto…


Acordo suavemente e olho para o relógio. Nove horas. Todos os dias acordo à mesma hora. E todos os dias pego na fotografia com as minhas mãos enrugadas, olho para o meu rosto jovem e feliz e recordo aquele dia longínquo em que dei o salto.

Sorrio porque sobrevivi.

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem

Daniela Maciel escreve aqui

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