Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desafio de Escrita

Tema #16 Sónia Figueiredo

13
Jan20

Cheguei da Lapónia com a companhia da Rena Rudolfo e do Pai Natal.

Passou o natal, passou o ano novo.

E ainda não entendi o que é para fazer com o bando de pássaros que continuam fechados na Gaiola

Talvez para a semana tenha uma resposta a esta questão existencial.

Tema da semana: Sobre a vida adulta: Ainda não entendi o que é para fazer

Sónia Figueiredo escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #17 Triptofano

13
Jan20

João chupou mais um golo do seu cocktail através da palhinha de metal reutilizável.

Sentado num canto do bar que passava música da moda no volume máximo era perfeitamente perceptível que era um rapaz tímido.

Vinha ali para tentar ganhar coragem para falar com alguma das raparigas que dançava na pista de olhos fechados, equilibrando um copo na mão e que volta e meia se ria escancaradamente de alguma piada que certamente não teria tanta piada assim.

Tinha terminado o curso de Ciências Farmacêuticas há meia dúzia de anos, e desde aí que trabalhava como responsável de gestão de medicamentos de uma rede de lares do Estado, tendo apenas feito uma interrupção de meio ano para fazer voluntariado num país da África profunda.

Adorava o trabalho que fazia mas sentia que não era o suficiente para ser útil à sociedade, por isso ao fim da tarde ocupava duas horas numa linha de apoio ao suicídio, ajudando quem queria morrer a ver uma forma diferente de se viver.

Aos sábados passava as manhãs a mimar os cães do canil da zona e a correr com eles de língua de fora, enquanto que os domingos eram para a limpeza de matas e de praias. Gostava de pegar no carro, abrir as janelas e rumar a uma zona que não conhecia, onde artilhado de luvas de plástico e um saco do lixo tamanho XXXL, dedicava-se a recolher o lixo que outros tinham feito.

Naquela noite ainda não tinha ganho coragem para falar com ninguém, mas uma voluptuosa rapariga loura sentou-se a pouca distância dele. Parecia que estava desconfortável, talvez pelo vestido demasiado apertado ou pela maquilhagem pesada, mas fosse o que fosse fê-lo sentir empatia pela solitária moça.

Respirou fundo, esperou que os seus olhares se cruzassem e nesse momento abordou-a:

Olá, desculpa a intromissão, mas tens uma aura violeta, é muito raro ver alguém assim espiritualmente tão elevado.

A rapariga ficou sem resposta, a olhar para ele com um misto de espanto, medo mas também interesse.

-Peço desculpa novamente - disse João - mas é que consigo ler as auras e a cor da tua é tão rara que não pude deixar de te abordar. Permites-me que te ofereça uma bebida?

A jovem loura mexeu-se desconfortavelmente. Se por um lado era visível que estava curiosa para saber mais sobre a aura violeta por outro era notório que não tinha gostado da ideia de aceitar uma bebida de um estranho.

João já estava habituado a essa reacção. Afinal hoje em dia todo o cuidado era pouco.

- Olha, não tenhas medo, eu ofereço-te a minha e peço outra para mim. Vês, - disse enquanto sorvia mais um golo pela palhinha de metal - é totalmente seguro.

O rosto da rapariga relaxou-se num grande sorriso e estendeu a mão para aceitar a bebida, na qual João tinha colocado uma nova palhinha metálica tirada do bolso.

"Para salvar o ambiente e para não te preocupares com as minhas partículas de saliva" explicou ele com um sorriso tímido.

Enquanto ela sorvia a bebida, o líquido arrastava pequenas partículas de GHB que estavam depositadas no interior da palha. Era uma questão de 20 minutos até a jovem começar a ficar mais desinibida e sensível ao toque. Nessa altura o seu cérebro iria entrar em modo de hibernação, impedindo que se lembrasse de tudo o que pudesse acontecer.

Era aí que João a levaria para a casa-de-banho do bar e a violaria agressivamente, sem se preocupar em que ela pudesse dar luta.

O crime perfeito pensou ele, não conseguindo evitar sorrir abertamente por ser tão eficiente.

Afinal, seria a quarta só naquela semana!

Tema da semana: Luz e Sombra

Triptofano escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #17 Gabi

13
Jan20

Luz e sombra

Para haver sombra tem de haver luz, senão cairíamos na escuridão, tão completa que nada conseguiríamos ver.

O tema fez-me pensar na pintura, em como através do sombreado se consegue o volume, a dimensão.

Desde criança que achava que conseguia desenhar alguma coisa (completamente iludida, claro). Ainda no liceu descobri uma casa na Rua Sampaio Bruno onde vendiam telas e tintas. Fui lá com a minha mãe pelo menos uma vez, outras vezes sozinha. Para se entrar, tínhamos de passar primeiro por um corredor barbearia, com duas ou três cadeiras onde o Barbeiro atendia senhores e não sei se não parava por lá também um engraxador, com a caixa de madeira com o assento para o cliente e lugar para guardar a graxa e escova.

Subíamos por degraus de madeira inclinados e lá em cima, numa sala pequena cheia de luz, estavam as telas e tintas, todas bastante caras, mesmo com o desconto de estudante.

Fui para as mais baratas e fiz alguns retratos em pastel. Depois tentei o óleo mas comprei uma única tela e pequenina. Tentei pintar um céu, mas não correu lá muito bem. Planeei pintar por cima alguma outra coisa, até hoje.

Bem mais tarde, inscrevi-me num atelier de pintura indicado por um amigo. Primeiro ficava em Leça, perto de uma Casa Museu que fui visitar. Depois mudaram-se para uma casa antiga no Marquês – também com degraus de madeira inclinados e uma sala com muita luz e cheiro a tinta.

Adorei as aulas sobretudo pelos professores e pelos colegas  - chegámos a ter um jantar com disfarces no dia das Bruxas e uma exposição pelo Natal.

Tentei pintar uma dona-redonda e não correu lá muito bem, e depois, a partir de uma fotografia, um auto-retrato, com um resultado final ligeiramente melhor (pudera, tinha a fotografia aumentada).

Talvez um destes dias volte a tentar pintar e me lembre da luz, da sombra e deste desafio.

Tema da semana: Luz e Sombra

Gabi escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #17 Ana Sofia Neves

13
Jan20

Preferem a luz ou a sombra? Preferem viver na luz ou na sombra de alguém? Preferem dormir com luz ou com sombra? Preferem estar na praia na luz ou na sombra? Preferem comer com luz ou com sombra? Preferem o amor com luz ou sombra? E o sexo?

Este foi o tema mais difícil, talvez por ser o último, mas a verdade é que a falta de tempo e de criatividade também têm este efeito. Por isso, e como é o último desafio, desafio-vos a responderem às questões supracitadas.

Até ao próximo Desafio dos Pássaros, ou então talvez não!!!

Tema da semana: Luz e Sombra

Ana Sofia Neves escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #17 3ª Face

13
Jan20

 

O cuco é um pássaro que não faz ninho nem cuida dos filhos. Tem mais que fazer.

Por isso, procura o ninho de outra ave e coloca lá o seu ovo.

 

Sei-o bem.

Desde que a minha mãe me abandonou que oiço as comparações.

- A tua mãe é como os cucos. Deixou-te no ninho dos avós e desapareceu.

 

E depois, vinha o comentário sobre o meu pai.

- O teu pai é um belo pássaro. Poisou, deixou a semente e foi-se embora.

 

Por isso, desde pequenina que, em momentos de extrema tristeza, acredito que sou um pássaro. E que voando, posso transformar-me naquilo que sou e fazer desaparecer a dor.

Subo para um sítio alto e lanço-me.

À conta disso, quebrei alguns ossos e iniciei o acompanhamento psiquiátrico.

 

Até hoje, nenhum especialista conseguiu contrariar a teoria do povo lá da aldeia.

A minha mãe é um cuco.

O meu pai é um pássaro.

Eu hei-de transformar-me em ave e voar…

 

Tal como combinado, os meus avós vieram hoje buscar-me ao hospital.

Estou de regresso ao ninho. Aquele que a minha mãe não fez. Mas que afinal sempre foi meu.

 

O internamento na psiquiatria fez-me bem.

Não pelo tratamento mas pelo que conheci.

Cada pessoa é um mundo de luz e sombra.

É sempre mais fácil escolher a sombra.

Mas descobri que quem luta e afronta a sua própria escuridão, descobre a luz.

 

Caminho entre o meu avô e a minha avó.

Envelheceram nestas semanas em que permaneci no hospital.

Dão-me a mão e um sorriso cheio de amor.

Se sou um pássaro, está na hora de abrir as asas.

Voar em direcção à luz.

 

Pela primeira vez, compreendo o significado do meu nome.

O mesmo da minha madrinha.

Na escola, era gozada e chamavam-me Pança.

 

O meu nome é Esperança.

E juro que hei-de ser feliz!

Tema da semana: Luz e Sombra

3ª Face escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook

 

Tema #17 Sarin

13
Jan20

 

Diet Wiegman.jpg

O reverso

Dói-me o verbo. O dia luz claro de chuva preguiçando nos beirados e o relógio alimenta as sombras que devoram as horas com ritmo de poesia ferida. Nem uma luminosa ideia que se espraie no sombrio ocaso da tela nua, nem sombra de palavra que exsude cor no negro teclado que miro.

Não percebo. Costumam sair como que dançando, puxando-se... empurrando-se, até! penso alto, sem me aperceber da tua atenção. A luz do teu riso ofusca o monitor, Cansaço, chama-se cansaço, dizes sorrindo, os teus olhos escurecendo em contraponto. Nunca gostaste de escrever por encomenda, as sombras a surgirem na tua voz, são já muitas semanas a voar... soam densas, essas sombras - tão densas como a fria razão. Sim, está na hora de pousar, compreendo, e nesta assombrosa certeza nasce-me luz no verso obscurecido. 

Porque o voo iluminou as minhas velas desfraldadas, mas o tempo foi-me lastro preso e de cada cor arranquei sombras. As mesmas sombras onde nasce já o brilho de outros verbos.

 

Sombras são luz que fenece.

Sombras são luz emergindo.

A luz é também as suas sombras

- Hiroshima, meu amor, Hiroshima.

E apenas o nada é definitivo.

Nota e roda sem pé: o AO90 não faz luz nem lança sombra, antes assombra a Língua Portuguesa.

imagem: DietWiegman

Vídeo: Shadows 

do álbum LindseyStirling (2012)

Música e Dança: LindseyStirling

Este é o último texto deste Desafio de Escrita dos Pássaros.

O meu voo tem aqui o seu fim. Agradeço a quem me acompanhou, voando a meu lado ou acenando a cada bater de asas. Pouso agora nas águas e sigo navegando, desejando bons voos a quem continua e relembrando que os Pássaros aguardam inscrições - o bando prossegue viagem a 31 de Janeiro.

Que a inspiração nos eleve e a escrita nos acompanhe nas rotas que escolhermos.

 

Tema da semana: Sobre a vida adulta: Ainda não entendi o que é para fazer

Sarin escreve aqui

Acompanha todos os posts deste desafio aqui

Segue-nos na nossa página do facebook