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Desafio de Escrita

tema #3 Vespinha

29
Set19

As justiceiras

Éramos três, talvez entre os 16 e os 19 anos de idade. Adorávamos animais e há anos que nos indignávamos com a forma como um vizinho «tratava» do seu cão, alimentando-o de restos de comida ainda na frigideira e mantendo-o acorrentado noite e dia fizesse chuva ou fizesse sol.

Um dia esboçámos um plano e levámo-lo a cabo: grafitar o portão da sua garagem, que dava para a rua, para que todos soubessem de que massa era feito. A mensagem era simples: «Sua besta, o que fazes ao cão, fazes a uma pessoa.»

Cada uma tinha um papel: eu, por ser a mais alta, seria a grafitadora, com um spray cor de laranja comprado à socapa numa loja longe de casa. Outra estaria vestida de «senhora mais velha» um pouco mais abaixo na rua, para dar sinal se viesse algum carro ou pessoa. A terceira estaria dentro do seu carrinho na rua de cima para avisar com sinais de luzes e para facilitar a fuga. Era um triângulo bem montado.

Não sei como consegui escapar de casa a horas tardias (estávamos nos anos 90), mas consegui, toda vestida de preto e com luvas. Cada uma assumiu o seu posto e eu lá escrevi a mensagem, escapando-me por uma ruela lateral à casa. Terminado o trabalho, enfiámo-nos as três no carro e zarpámos dali, para ir atirar a lata usada para um descampado e voltar a casa como se nada fosse.

No dia seguinte lá estava a mensagem, bem visível sobre o fundo verde-escuro do portão. Lembro-me de a minha avó comentar comigo o que «tinham feito» na casa do «deputado» (parece que o senhor o teria sido em tempos). E de me rir para dentro, conseguindo guardar este segredo durante tantos e tantos anos.

 

Tema da semana: Uma aventura/momento que te tenha marcado

Vespinha escreve aqui

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Tema #3 Bla Bla Bla

29
Set19

Quando vi o tema desta semana fiquei aliviada mas depois andei a debater-me sobre qual das aventuras marcantes haveria de escrever.

Decidi-me por três:

#1 : nascimento das minhas crianças

#2 : o dia em que vi sexo ao vivo

#3 : o dia em que fiz parte do sexo ao vivo

(Confessem que estão mortinhos para saltar para o #3 )

 

#1

Gostava de falar sobre como a maternidade me atingiu como um raio e me rachou para sempre ao meio, de como sempre quis ter filhos, da felicidade gigantesca que sinto por ser mãe das minhas crianças. Mas as palavras são contadas, só posso usar 400, e portanto vou escrever antes sobre o mais caricato

Sabem aquela parte em que estão em pleno parto e têm vontade de fazer cóco? E dizem à enfermeira que têm de ir à casa de banho? Só que ela diz que /não, isso quer dizer que é agora, vá! faça força!/

E vocês ainda tentam explicar que precisam mesmo é de ir à casa de banho mas ela diz que /não, fica eufórica, insiste, insiste/ e vocês lá pensam que ela é que sabe e contrariadas fazem força...

...e borram-se todas!

Á frente de duas enfermeiras, uma parteira e um marido! E a enfermeira ainda diz que afinal eram só mesmo fezes... TOLD YOU SO!!!

#2

A primeira vez que vi sexo ao vivo foi uma desilusão.

A gaja era topo, toda turbinada, e ele era um puto lingrinhas.

A coisa deu-se mas de forma muito forjada... ele a tentar com muita dificuldade dar conta dela e ela com muita dificuldade a fingir que estava a gostar e que ele a estava a arrebentar toda.

Senti-me defraudada.

Mas eis que me apercebo de um grande reboliço mais ao longe, um aglomerado de gente, muitas luzes, música, palmas e assobios de entusiasmo. Fui a correr ver o que se passava.

E então, aquilo sim é que era, uma verdadeira demonstração de sexo ao vivo, com um de quatro como fazem os animaizinhos e outro por trás a dar-lhe com fé.

Estão vocês a pensar em corrigir-me, é UMA de quatro. Só que não. Era UM mesmo.

Passei a ser fã de pornografia gay, era impossível não gostar de ver aqueles dois com tanto gosto e diversão, enquanto partiam a loiça toda.

#3

Ups... Bolas! Acabaram-se as palavras... fica para uma próxima.

 

Tema da semana: Uma aventura/momento que te tenha marcado

Bla Bla Bla escreve aqui

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Tema #3 - Joana Rita Sousa

29
Set19

aventura

substantivo feminino

  1. Feitoextraordinário.
  2. Casoinesperadoquesobrevémequemereceserrelatado.
  3. Acaso.

"aventura", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/aventura [consultado em 24-09-2019].

*

- A questão é saber se chegas a ter consciência disso. Ou se achas natural.

- Acho natural o quê? – perguntou ele.

- Pronto. – disse ela – Já percebi que não tens consciência.

- Mas consciência do quê? – insistiu nele.

Ela sacou de um cigarro. Negro, com cheiro a baunilha. Nem se percebia bem que era um cigarro, dada a ausência do cheiro a tabaco.

- Não gosto nada de ter que te explicar isto. És um falso. Apregoas aos sete ventos uma coisa que não és. Ainda não percebi se te queres proteger ou se isso é uma forma de ataque.

Ele olhou-a. Sentia-se transparente.

- E não olhes para mim assim. Nem imaginas como me custa ter-te aqui e dizer-te isto na cara. Custa-me tanto saber que és outro. Nem imaginas como isso me chega a irritar. E afasta-me de ti. Só penso em formas de estar longe de ti. Mil e uma ginásticas.

O cigarro estava a chegar ao fim. Era tarde e a alma – que pesava toneladas - pedia descanso. A dela. Já a dele pairava algures naquele quarto a tentar compreender o sentido daquilo que tinha ouvido.

Era (cada vez mais) tarde. Ela puxou o cobertor e o lençol. Apagou a luz. Ele permaneceu sem resposta, com o olhar fixo na escuridão, que era o reflexo da sua própria falta de luz.

 

Tema da semana: Uma aventura/momento que te tenha marcado

Joana Rita Sousa escreve aqui

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Tema #3 Coiso

28
Set19

Corria o ano de mil novecentos e NãoTensNadaAVerComIsso quando estava a jogar à bola no campo de terra batida ao lado do pavilhão, a 50 metros de minha casa. Era Verão, estava calor e eu estava com os meus amigos a jogar à bola. Mas como não éramos muitos, estávamos a jogar aos centros. Para quem possa estar a indagar-se, o jogo consistia em:

  • Um guarda-redes
  • Um jogador a fazer centros
  • Meia dúzia de putos à molhada perto da baliza para receber o centro

As regras eram simples. O “centrador” tinha de centrar aleatoriamente, a fim de todos os jogadores terem a mesma chance de marcar golos. Os jogadores podiam ir mudando de sítio, consoante o seu “feeling”. O último a marcar um golo…. Ia para a baliza. E se o redes desse muitos frangos, continuava até começar a defender a sério. Quando saísse da baliza, tornava-se o “centrador”. Assim todos passavam por todas as áreas. De uns dias para os outros, retomavam-se as posições do último jogo.

Naquele dia, o Coiso estava como “centrador”. O jogo decorria há algum tempo. Eu tinha pedido a um dos “avançados” para me fazer um passe para eu poder fazer o cruzamento em movimento, tal e qual como nos jogos do meu Benfica. O passe vem e eu faço o centro perfeito e golo do PC. Grande golo, remate de cabeça mesmo ao ângulo, o redes nem a viu! Olha, o R foi o último a marcar, vai para a baliza. O H vai centrar.

Lá vem o Coiso para perto da cabeceira da área, o H faz o passe e eu devolvo para a zona da linha final, o centro sai meio torto, se eu correr e saltar bem alto consigo chegar à bola antes de ela chegar ao P e ao PC. Grito “sou o Magnusson do “AMinhaTerra”. Sinto a bola a bater mesmo no centro da minha testa no momento em que faço o movimento do “Sim” e vai disparada para a baliza. O R. atira-se em voo para agarrar a bola e…. GOLO! Dou uma corrida triunfal à volta da baliza a comemorar, um High Five no H pelo cruzamento e… “Coiso, o jantar tá quase pronto. Anda para casa!”.

Olho pelo gradeamento do campo e vejo o meu pai, alto e forte, a sorrir. De certeza que ele viu o meu golo. De certeza que ele está orgulhoso de mim! “Bom golo filho!”

Ser criança é ser feliz…

 

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Coiso escreve aqui

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tema #3 Maria Araújo

28
Set19

Alinhara num convite da Diver Lanhoso para viver um dia de aventuras no Parque,  ansiosa pelo que iria viver naquele dia louco que eu pensava ser para os jovens, como estava enganada!, levantei-me cedo e cansada.

Manhã fresca, com sol, encontrámo-nos junto à Escola EB 2,3, dirigimo-nos para o castelo da Póvoa de Lanhoso, onde já se encontravam todos os inscritos, os monitores e o satff da Diver.

Constava de várias etapas, na vila seriam três: a via-ferrata, visita ao castelo da Póva de Lanhoso, e rappel.

As actividades no Parque seriam trapézio e slide.

Entregues as pulseiras e feita distribuição dos grupos, descemos a pequena estrada que dá acesso ao castelo onde já estava o staff com o material, cintas e capacetes, para a nossa 1ª actividade.

A expectativa e ansiedade eram enormes. Sentia-me cansada da noite mal dormida, estava pouco confiante, não imaginava o que iria fazer naquele momento em que vestia a cinta e punha o capacete.

Via-ferrata.

Explicaram-nos que os ferrata têm origem na Primeira Guerra Mundial e nasceu da necessidade de colocar plataformas de armas de controlo nas fronteiras.

Não queria acreditar no que (ou)via. Íamos subir a rocha?!

Ensinaram-nos como usar o material.

Enquanto tive os pés assentes em terra, estava confiante. Percebi quão estreito era o terreno e a altura a que se encontravam os apoios dos pés. Baixa que sou, as minhas pernas não conseguiam chegar aos primeiros apoios, tive ajuda de um colega.

E complicou-se. Valeram-me a minha determinaçã, segurança, e vontade de arriscar e vencer algum medo.

Não temer, não vacilar, não olhar para trás. Ora subindo, ora caminhando, o pé esquerdo, depois o direito, mosquetão preso, mão na corda, a outra nos apoios, alguns destes mais distanciados exigiam mais concentração e equilíbrio. Uma falha poderia levar a que batesse com o corpo na pedra e caísse. Manter a distância de 3 metros em relação às pessoas à minha frente e  atrás de mim.

E dizia para o colega: "Nas que me meti! Agora, L, aguenta, não podes voltar atrás". O companheiro do lado direito comentava: "Voltar atrás? Não é possível".

E cheguei ao topo da rocha, segura, emocionada , feliz e vencedora!

No Parque experimentei o slide: descer a montanha, sentir o vento, o impulso da "travagem", que loucura!

Num dia cheio de risos, boa disposição e muita emoção, ficou para sempre inesquecível a via-ferrata.

 

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Maria Araújo escreve aqui

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Tema #3 - Biiyue

28
Set19

Perdidos por Budapeste as 5 da manhã!

Depois de uma viagem de mais de 8 horas de autocarro desde Cracóvia e uma dormida leve. Com um frio terrível que nem uma camisola e um polo térmico me deixavam não tremer. Da estação apanhamos o metro (que já por si foi engraçado decifrar e acabamos por simplesmente imitar as outras pessoas que também tinham ido) até à cidade. Era de madrugada, não se via alma viva, nevoeiro, um frio de cortar os ossos, telemóvel sem roaming e sem internet, sem mapa. Completamente as aranhas, acabamos por perder de vista as pessoas que tinham vindo no metro, decidimos ir até as pontes e seguir numa direção. Pensamos que assim seria mais fácil encontrar algo que estivesse aberto aquela hora até ser de manhã e encontrar alguém que fosse capaz de nos situar e depois sermos capazes de encontrar o hostel. Começamos a caminhar e caminhamos e caminhamos… Mas não se via nada que se parecesse com o que era suposto da cidade, apenas edifícios velhos e degradados, com estragos ainda da 2º guerra mundial. Houve momentos que o desespero começa a tomar conta de nós misturado com os corpos já regelados do frio, deviam estar alguns graus negativos a meu ver, mas que deviam ser apenas 0-5ºC. Voltamos para trás, até voltarmos ao ponto de partida, mas nisto já tinham decorrido umas 2h. Já era de manhã, encontramos um café que me soube pela vida, nunca tinha desejado tanto um lugar quente. De corpo e barriga cheia fomos à procura do hostel e assim podemos finalmente dar início à exploração da cidade.

Até que ao final do dia para sair do apartamento do hostel, ficamos trancados na porta exterior. Aquilo era um prédio antigo, mas por dentro tinha sido remodelado e a porta exterior era daquelas grades pesadas. Nenhum de nós conseguia abrir, tivemos que ligar à rapariga do hostel que nos tentou explicar o truque para abrir e ao fim de quase 15 minutos estávamos livres. Era suposto irmos fazer uma walking tour, mas já não íamos chegar a tempo e decidimos ir fazer o passeio pelo Danúbio que foi incrível!

Sejam espertos! Não sejam como eu, que foi à sorte e acabou por passar o frio da sua vida.

Mas foi um dia que esta marcado também por aspetos bastante positivos!

 

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Biiyue escreve aqui

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Tema #3 - Ana de Deus

28
Set19

o regresso a Lisboa nos anos noventa, minha cidade berço, trouxe-me as memórias da minha infância e da minha avó materna. e a Baixa Pombalina trouxe-me aconchego, com a sua mornura e luminosidade. construi a minha vida em Lisboa. estava em casa. a energia da cidade era a dos nossos antepassados, acarinhados. voltei a sentir-me protegida.

por motivos de doença, tive de deixar a vida dos meus vinte e dos meus trinta para trás.

o regresso a Lisboa esta primavera foi um choque! a Baixa/Chiado invadida por turistas de passagem. todos os restaurantes vegetarianos que conhecia estão abandonados ao pó. como se todos os que habitam a capital se tivessem esquecido da sua história. os trinta e quatro graus que se faziam sentir tornaram difícil subir e descer colinas.

nota positiva: este ano, a Feira do Livro começou mesmo no meu aniversário. uma surpresa boa.

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Ana de Deus escreve aqui

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Tema #3 Lara Monteiro

28
Set19

Dizem que ser mãe nos muda para sempre. Dizem que só damos valor quando passamos por isso....

O Piolho ri-se quase desde que nasceu. Primeiro involuntariamente, depois já com sentido e significado.

Há uns 4 meses atrás, começou a palrar cada vez mais. Numa língua que só ele entende mas que os gestos que ele aprende todos os dias nos fazem percebê-lo cada vez melhor.

Nessa altura, fui buscá-lo à tarde à creche como faço sempre. Ele está sempre a brincar e quase nunca quer vir embora. Sempre com um sorriso de orelha a orelha que me deixa bem mais descansada... Naquele dia, quando me viu, abriu os braços a sorrir e disse:

"Mamããããããã".

Parei. Congelei. Ali, desarmou-me por completo. Confesso, não me desmanchei a chorar por vergonha e para que ele não ficasse aflito por me ver assim.

O meu menino de pouco mais de seis meses estava a dizer mamã, com sentido, com significado. Se naquele momento o mundo acabasse, eu acabava feliz. Com um coração cheio deste amor que transborda todos os dias.

Daí para cá, o "mamã" e o "papá" são recorrentes. É muito mexido, não consegue estar muito tempo no mesmo sítio, e por vezes é bastante refilão. Mas dá os abraços mais calorosos do mundo. E os beijinhos com mais amor que eu poderia pedir. Os beijos e os abraços são mais quando ele quer. Mas nunca vou esquecer aquele dia, o dia em que o meu filho me chamou mamã pela primeira vez. 

Senti-me mãe no dia em que tive o teste positivo. Senti-me a transbordar quando ele nasceu. Mas senti-me ainda mais completa com o meu amor maior a já poder chamar-me. Ele sabe que poderá chamar-me todas as vezes que precisar..a mamã vai estar sempre lá para ele.

Chama-se a isto eles crescerem…tal como o nosso amor por eles. 

 

 

 

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Lara Monteiro escreve aqui

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Tema #3 Sarin

28
Set19

leopardo.jpeg

Um momento marcante

Lembro-me de ouvir na azáfama, não sei se na voz da Tia ou da Avó, que seria talvez um leopardo. Um leopardo? Só me recordava de um tigre, e não conseguia imaginar como entrelaçar no momento as barbas e os cabelos do Sandokan. Pensava nisso e esperava, as mãos no ar como se empunhando o sabre. A Mãe explicou-me então que não seria tigre e muito menos o da Malásia, mas sim um gato grande de pelagem pintalgada, ágil e trepador, e pára de dançar sobre a mesa, ainda cais!

Reparei que a lua subia e mercúrio descia, asas leves de algodão esvoaçando como se trazendo novas do tal leopardo que se aproximava. Se sabedes novas do meu amigo, cantava Adriano, a voz cristalina morrendo sob as minhas perguntas, Mãe, falta muito?, pequenas borboletas vermelhas alvoroçadas à minha volta e eu alvoroçada na espera do gato pintalgado.

Quando o Pai chegou, a guerra esquecida atrás dos olhos verdes que me olhavam preocupados, perguntou, Confirma-se? E com borboletas vermelhas voando-lhe das mãos, a Mãe respondeu, Sim, a miúda está com varicela.

  

Nota de roda do fim: O AO90 aqui nada marca.

Imagem em Super Interessante

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Sarin escreve aqui

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Tema #3 - Alexandra

28
Set19

O sino tocava as 17 horas e não havia quatro pares de ombros para carregar o andor da Rainha Santa, mas três minutos depois, quatro jovens solícitos apresentara-se "ao serviço".

- Não sai. O andor não sai. Se não o prepararam a tempo não sai.

- Mas padre, estão aqui os moços, qual é o mal?

- Não sai.

A beata saiu espavorida para o adro. 

- Ele não deixa, ele não deixa sair a rainha santa.

O povo alvoraçou-se. Os jovens, que nunca punham o pé na igreja, gritavam que "quem manda é o povo". As mulheres da aldeia choravam, porque "tinham pago as flores, a santinha está tão linda e agora não sai".

Começa a sair a procissão, só com os santos mais afortunados, e o povo grita e gesticula... porque "ele não manda aqui". 
Alguém mais sensato aborda o prior com calma e educação, mas ele não cede.

Uma guerreira grita. "Sai e sai mesmo". Arrasta mais meia dúzia e  pousam as carteiras no muro, "entram igreja dentro", como se fosse possível entrar para fora, e pegam no andor como quem pega em algo leve. Estão nervosas e com pressa para apanhar o rabo da procissão, salvo seja. 

Atravessa-se no caminho o sacristão.

- Daqui não saem. Ou chamo a polícia. 

- Está doido. Deixe passar que a procissão já saiu do adro.

Não se sabe bem como o tiraram do caminho, mas a verdade é que saíram da igreja com a Rainha Santa em ombros e ao som de um coro de aplausos e vivas apanharam "o rabo" à procissão, ultrapassaram os paroquianos, abriram alas por entre a filarmónica, fizeram uma finta ao padre e com a licença da Senhora da Piedade, tomaram o seu devido lugar no cortejo, mesmo atrás do Santo António.

A procissão seguiu caminho pelas ruas da aldeia, ouviu-se mexericos aqui e a ali, mas parecia que tudo tinha sido igual a todos os outros anos. Pela rua, só se comentava a falta de anjinhos.

A banda, tal como a do Titanic, nunca parou de tocar.

 

Este texto não é ficção.

Qualquer semelhança com a realidade, não é pura coincidência.

 

Tema da semana:Uma aventura/momento que te tenha marcado

A Alexandra escreve aqui

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